Miramundos/Flávio Forner
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Os anos verdes de Krajcberg em exposição

Mostra reúne 39 obras do escultor de origem polonesa, inclusive uma tela de 1951, ano em que participou da 1º Bienal de São Paulo

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

25 Maio 2017 | 03h00

Em Krajcberg, Uma Homenagem, exposição aberta na terça, 23, na Galeria Frente, é possível ver não só obras raras do artista de origem polonesa, mas acompanhar parte da sua trajetória desde que Krajcberg, hoje com 96 anos, chegou ao Brasil, em 1948, após a traumática experiência da ocupação nazista na Polônia. Poucos conhecem, por exemplo, os desenhos que expôs na 1.ª Bienal de São Paulo, em 1951, ou as obras que realizou em Ibiza, Espanha, dez anos depois, duas séries entre os 39 trabalhos reunidos na mostra pelo marchand Acácio Lisboa.

Algumas dessas raridades pertenceram à coleção particular de Ernesto Wolf (1918-2003), que, ao lado da esposa, a escultora Liuba Wolf (1923-2005), construiu durante 60 anos um eclético acervo em que figuravam tanto obras modernas de Chagall, Matisse e Picasso como peças gregas e tribais africanas (parte da coleção foi leiloada em 2014, em Paris).

“Essa importante coleção de Wolf, que conta com obras de Krajcberg produzidas entre 1950 e 1970, é, de fato, a espinha dorsal da exposição”, afirma Acácio Lisboa, apontando uma paisagem pintada pelo artista polonês em 1951, obra figurativa de um período em que ele produzia trabalhos para outros artistas – em 1948, Krajcberg pintava azulejos (para painéis de Portinari) na Osirarte, onde também trabalharam Volpi (1896-1988) e Waldemar Cordeiro (1925-1973). Poucos lembram, mas ele conquistou o prêmio de melhor pintor na 4.ª Bienal de SP (1957).

Foi logo depois da participação na primeira edição da Bienal que a experiência brasileira de Krajcberg tomou outro rumo. Em 1952, conta Felipe Scovino no livro dedicado ao artista pela Galeria Frente, o escultor, por indicação do amigo Lasar Segall, foi contratado para trabalhar nas indústrias Klabin de Monte Alegre, Norte do Paraná. No entanto, seu temperamento irrequieto o fez largar o emprego e montar uma choupana numa floresta de pinheiros. É, segundo Scovino, seu primeiro contato com a natureza brasileira.

Há desenhos desse período na mostra, representações da flora nativa, entre elas a de uma samambaia. Sua relação com a natureza, contudo, não passa exclusivamente pelo Brasil. Em Ibiza, Krajcberg realizou algumas de suas experiências mais radicais, como as obras em papel japonês modelado sobre pedras ou que enterrava na areia – uma delas está na mostra, um raro livro de artista com desenhos de plantas em relevo.

É possível localizar no tempo o despertar para a escultura, quando Krajcberg se mudou, em 1956, para o Rio e dividiu um ateliê com Franz Weissmann (1911-2005). Tanto o contato com a obra construtivista do austríaco Weissmann como a do concretista Waldemar Cordeiro, segundo Felipe Scovino, foram decisivas para ampliar a narrativa visual do escultor polonês, a despeito de Krajcberg jamais ter se filiado a nenhum movimento, mantendo uma independência ideológica e estética rara para um artista vivendo em plena ebulição política do Brasil desenvolvimentista dos anos 1950.

Krajcberg também se aproximou, em 1958, dos novos realistas franceses liderados por Pierre Restany e nem por isso seguiu sua cartilha, apesar de ser seu amigo. O que fica evidente na mostra é a busca de uma caminho próprio, capaz de levar em consideração as lições do desenho e da gravura para aplicar no suporte que o tornou conhecido. Recuperar um tronco de árvore calcinado por meio da arte foi a missão a que se impôs o artista polonês. Auxiliado por equipamentos de macrofotografia, ele registrou, em suas viagens pela Amazônia, exemplares de nossa flora que foram incorporados ao seu trabalho artístico. São obras que garantem uma segunda vida à natureza.

As raízes e troncos resgatados de incêndios na floresta podem tanto receber um tratamento policromático como monocromático. Em ambos os casos, trata-se de uma intervenção discreta. Segundo o marchand Acácio Lisboa, as cores dos trabalhos recentes (na exposição só estão exemplares antigos) “são mais vibrantes” e a dimensão das obras, menor. Morando numa casa construída sobre um tronco frondoso, em Nova Viçosa, Bahia, desde 1972, Krajcberg mantém o mesmo estilo de vida há quase meio século, mas sua reclusão não marcou de forma negativa sua posição no mercado: o preço médio de uma obra sua é de R$ 120 mil, chegando a R$ 1 milhão nos trabalhos de grandes dimensões. Todos eles estão à venda na mostra.

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