Os anos de formação de um rebelde

Renato Russo - O Filho da Revolução mostra a ligação umbilical entre Brasília e o criador da banda de rock Legião Urbana

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

22 de junho de 2009 | 00h00

Os moradores de Brasília dividem-se entre aqueles que estavam e não estavam presentes ao show da Legião Urbana no Estádio Mané Garrincha, em junho de 1988. O jornalista Carlos Marcelo estava. Tinha 18 anos. E ficou espantado com os cavalos da Polícia Militar atropelando os fãs da banda de Renato Russo e com os estilhaços de vidro espalhando-se pelo lugar. Raivosos, depois da apresentação os brasilienses exigiram a queima de discos, a censura das músicas nas rádios e a morte do líder do grupo . "Tornou-se mítico o maior show individual de uma banda de rock no Brasil", diz Carlos Marcelo, hoje com 38 anos e editor executivo do Correio Braziliense. Na época, saindo da adolescência, Marcelo foi ao estádio para entender por que as músicas de Renato Russo calavam tão fundo - diziam aquilo que sua geração sentia, mas não sabia expressar. Essa empatia, aliada ao espanto com a violência no Mané Garrincha, resultou em Renato Russo - O Filho da Revolução (Agir, 400 págs., R$ 59,90). "A história de uma geração e de um roqueiro", esta obra, segundo o biógrafo, preocupa-se mais em inserir seu personagem no contexto histórico do que se ater a detalhes pessoais. Ele acredita que momentos político-econômicos explicam, de certa maneira, a arte do inventor da expressão "geração coca-cola", referência crítica e irônica aos "filhos da revolução", aos "burgueses sem religião", ao "futuro da nação".Além de mostrar, pela primeira vez, pareceres da censura oficial a letras de Renato Russo, Chico Buarque, Ultraje a Rigor e Camisa de Vênus, a biografia apresenta manuscritos deixados pelo compositor em seu apartamento em Ipanema, Rio. Ela reproduz letras inéditas do cantor, como Setor de Diversões Sul. E promove um diálogo estreito entre a vida de Renato Manfredi Jr., filho da classe média carioca, e a história de Brasília - ambos nasceram no mesmo ano, 1960. Após uma temporada em Nova York, onde se manteve alheia ao golpe militar de 1964, a família Manfredini mudou-se para a nova capital federal em 1972 - seguia o patriarca, funcionário do Banco do Brasil. Vivia-se sob uma atmosfera bem traduzida pela escritora Clarice Lispector, citada na biografia: "Em Brasília não há por onde entrar nem por onde sair.""As anotações de Renato, feitas meses antes de morrer, mostram como ele falou de Brasília até o fim - referia-se a ela como minha cidade, minha ferida aberta." Segundo o biógrafo, que diz ter focado o período de formação de Renato, morto aos 36 anos, o material manuscrito prova a ligação umbilical entre compositor e cidade, onde as drogas circulavam à solta em festas e bares. "Os jovens de Brasília, filhos de funcionários públicos como ele, pegavam as referências diretamente do exterior: os discos, revistas e livros estrangeiros vinham por malotes diplomáticos." O acesso facilitado à música anglo-saxã delineou o elã artístico do fundador das bandas Aborto Elétrico e Legião Urbana."Renato se formou num período de entressafra criativa, durante o exílio de nossos artistas", diz Marcelo. "Havia um vazio cultural, como afirmou o Zuenir Ventura." Nessa época de censura, Renato Manfredini Jr. debutou no palco como ator, e não cantor, para representar The Real Inspector Hound, peça teatral de Tom Stoppard. Adolescente, ele ficou trancado no quarto durante meses, recuperando-se de uma cirurgia, malfeita, para curar a epifisiólise, doença óssea rara. Foi quando leu autores clássicos: Dostoievski, Shakespeare, Steinbeck, Maugham. Tornou-se professor de um curso de idiomas antes de ingressar na faculdade de jornalismo, onde participou da publicação de uma coletânea de poesias. "Ele teve muitas turmas antes da turma do bairro da Colina". Marcelo se refere ao grupo de jovens de onde sairia, nos anos 1980, a Legião Urbana, formada por Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Renato Rocha e Marcelo Bonfá: nomes registrados no primeiro elepê da banda "mais bem-sucedida em vendagens do pop rock nacional".

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