Os alfabetos entrelaçados de Mira e de Ferrari Schendel

Retrospectiva com quase 200 obras no MoMA compara uso que os dois artistas deram à linguagem

Tonica Chagas, O Estadao de S.Paulo

20 de abril de 2009 | 00h00

O argentino León Ferrari e a suíço-brasileira Mira Schendel (1919-1988) emergiram como artistas plásticos nos anos 60, numa época em que muitos intelectuais começaram a usar modelos linguísticos para entender o mundo. Mas, enquanto artistas europeus e americanos escolheram a linguagem como veículo para expressar conceitos ou ideias, os dois, sem contato um com o outro, cada um em seu país, passaram a usá-la, coincidentemente, como meio físico para criar uma forma de arte.A semelhança da obra deles é revista em Tangled Alphabets: León Ferrari and Mira Schendel, retrospectiva comparativa que o Museum of Modern Art (MoMA) exibe em Nova York até 15 de junho. São perto de 200 peças cedidas por coleções paulistas, argentinas, inglesas e americanas, muitas pertencentes ao acervo do próprio MoMA. Metade delas ainda não havia sido vista nem mesmo nos países onde foram criadas, segundo o venezuelano Luis Pérez-Oramas, curador do Departamento de Arte Latino-Americana do museu e organizador da exposição. Com elas, Oramas procurou sintetizar uma retrospectiva paralela, a partir de trabalhos de ambos nos anos 50 até exemplos das últimas obras de Mira, dos anos 80, e de alguns dos mais recentes de Ferrari que, aos 89 anos, continua indo para o estúdio, diariamente, às 8 da manhã em ponto.Ferrari e Mira viveram na Itália logo após o fim da 2ª Guerra Mundial e foi lá que os dois começaram a carreira de artistas plásticos. E, como se nota na primeira galeria, em naturezas-mortas pintadas por ela e cerâmicas abstratas que ele criou com barro e gesso, houve grande influência do modernismo italiano nos primeiros trabalhos de ambos. A pintura de Mira nessa época lembra a estética silenciosa de Giorgio Morandi, como nas cores sombrias das garrafas e dos copos sobre a mesa num óleo sobre tela sem título de 1953.O início da década de 60 é marcante no desenvolvimento da arte dos dois. É nesse período que eles começam a extrair seus trabalhos da linguagem, usando letras, palavras ou frases inteiras em obras sobre papel. Em 1964, quando mais uma vez se falava no fim da pintura, como lembra Oramas, Ferrari produziu Quadro Escrito, um de seus desenhos mais significativos e que é formado totalmente por um texto escrito à mão.Em linhas irregulares sobre o papel, nele Ferrari descreve uma pintura que teria feito se Deus não tivesse se distraído com uma mulher chamada Alaphia e, por isso, se esquecido de lhe dar talento para executar o tal quadro. Quadro Escrito é exibido ao lado de exemplos das séries Carta a Um General, que Ferrari produziu em 1963, e Escritas, monotipias que Mira desenhou em 1965. Às vezes é difícil definir a mão que fez este ou aquele desenho, o que justifica os "alfabetos entrelaçados" no título da exposição.Para Oramas, embora contemporâneos do surgimento da arte conceitual, Mira e Ferrari são singularmente distintos dela. A essência da arte que praticam, diz ele, está no fato de que cada obra consiste numa operação não repetível, o que é o oposto daquele movimento dos 60. O curador considera os dois como "gênios" que, ao abordar a possibilidade de uma arte sem distinção entre o visual e o legível, "apontaram para uma forma insuspeita de linguagem que ainda está por vir".Ferrari imaginou uma arte feita de acumulações, como na escultura Torre de Babel, também de 1964, tida como primeira manifestação concreta da estética que ele chamou de babelismo, a qual vem seguindo desde então. Nela, a combinação dos arames é como uma tradução em três dimensões da combinação de linhas e escritos dos desenhos dele. Mira também constrói tridimensionalidade em seus Objetos Gráficos, de fins dos anos 60 e início dos 70. Pendurados do teto, eles são feitos com a acumulação de folhas de papel japonês sobre as quais ela imprimia traços, marcas, a própria caligrafia ou letraset e comprimia entre placas de acrílico incolor. Oramas considera eses objetos como o melhor resultado da busca de Mira por uma forma de arte o mais próxima possível da transparência.O golpe militar na Argentina, em 1976, levou Ferrari a se exilar no Brasil e ele só voltou a viver definitivamente em Buenos Aires em 1991 (um de seus filhos foi morto no período da ditadura que tomou o poder em seu país). Morando em São Paulo, onde Mira também morava, Ferrari frequentou os mesmos meios culturais que Mira, mas eles só tiveram obras vistas no mesmo espaço apenas numa exposição coletiva e nunca trabalharam juntos.Em Tangled Alphabets se intercalam trabalhos em que tanto Mira quanto Ferrari utilizaram símbolos e padrões como interpretação visual de poesia escrita por amigos (Haroldo de Campos, no caso dela, e Rafael Alberti, no caso de Ferrari). As Droguinhas de Mira, esculturas de formas estranhas construídas com papel japonês enrolado e amarrado, emitem a mesma fragilidade e dialogam no mesmo idioma com as esculturas de fios de aço e cobre de Ferrari.Numa das galerias, Tangled Alphabets traz exempos de como os dois lidaram com religião, fé e Igreja Católica em tom diferente. Na série de colagens Releituras da Bíblia, a maior parte realizada em São Paulo e nos anos 80, Ferrari junta iconografia católica com imagens de bombas atômicas, mísseis e do Kama Sutra, não para criar uma arte antirreligião, como explicou, mas contra repressão, tortura e poder. Na gravura Juízo Final, de 1994, ele substitui o texto por excremento de pombos sobre a reprodução da pintura homônima de Michelangelo.Mira, por sua vez, em parte da série Letras, examina contradições do catolicismo por meio de símbolos, paráfrases ou palavras soltas sobre papel japonês. Uma das obras mais espirituais criadas por ela é a instalação Ondas Paradas de Probabilidade, exibida pela primeira vez na Bienal de São Paulo em 1969. Ondas, uma cortina translúcida formada por milhares de fios de náilon que descem do teto da galeria até quase tocar o chão, é completada por um texto extraído do Livro dos Reis reproduzido numa placa de acrílico, sobre a passagem em que o profeta Elias entra numa caverna e ouve a voz de Deus no sopro do vento.Por último, a exposição reúne exemplos das últimas obras de Mira, como as grandes pinturas tridimensionais da série Sarrafos, de 1987, e esculturas entrelaçadas e suspensas de Ferrari, datadas de 2006 e 2007 e feitas de poliuretano. Parte de Tangled Alphabets também pode ser vista pela internet. No site do museu (moma.org) há um conjunto de obras selecionadas com textos explicativos e uma linha cronológica com a biografia dos dois artistas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.