Os 70 anos de Marvin Gaye, o príncipe do soul

Cantor, assassinado pelo pai um dia antes de completar 45 anos, deixou um legado fabuloso e continua influenciando artistas como Prince e Ben Harper

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

02 de abril de 2009 | 00h00

Um tiro no peito, desferido pelo próprio pai, calou a grande voz de Marvin Gaye numa data tragicamente irônica, 1º de abril de 1984, um dia antes de ele completar 45 anos. Hoje se completam sete décadas de seu nascimento - um bom motivo para se falar de sua importância e, principalmente, voltar a ouvi-lo. Nenhuma edição especial de sua obra foi planejada para celebrar a data. Não é preciso. Pelo menos em seu país de origem, Estados Unidos, seu legado está bem conservado. Três de seus principais álbuns, What?s Going on (1971), Let?s Get it on (1973) e I Want You (1976) ganharam edições de luxo em 2003, com faixas extras.   Ouça What’s Going onNo Brasil, além desses álbuns importados, suas canções estão disponíveis apenas em coletâneas em CD. Uma delas é o álbum triplo Motown 50 (Universal), que celebra o cinquentenário da lendária gravadora de Detroit, que fez Marvin, Michael Jackson, Stevie Wonder, Diana Ross, Smokey Robinson, The Temptations e vários outros ícones da soul music ganharem o planeta (leia ao lado).Há também dois DVDs em edição nacional sobre Marvin. Um deles é o bom documentário What?s Going on - The Life & Death of Marvin Gaye (ST2 Video). O outro é Marvin Gaye - The Real Thing in Performance 1964-1981 (Universal). Como está explícito no título, trata-se de uma compilação de apresentações do cantor durante esses anos em programas de televisão americanos e europeus. Como bônus, um show de 50 minutos registrado na Bélgica em 1981, 11 faixas com a voz de Marvin a capela e um belo encarte com fotos e perfil biográfico em inglês. Acompanha o DVD um CD ao vivo, do show da turnê europeia de 1976. Alguns dos clássicos estão ali: Let?s Get it on, What?s Going on, I Heard it Through the Grapevine, Ain?t no Mountain High Enough.Quase duas décadas e meia depois de sua morte, é notável a influência de Marvin na música - não só negra, não apenas americana, não só sobre os cantores. Prince, Rick James, Janet Jackson, Maxwell, George Michael, Ben Harper, DeBarge, Mick Hucknall (do Simply Red), Neneh Cherry e uma legião de outros menos famosos reconhecem nele uma enérgica fonte de musicalidade. A voz, porém, é inimitável, inconfundível, uma das mais tocantes, doces e poderosas de todo o pop. Marvin, por sua vez, foi influenciado por Rudy West, Clyde McPhatter, Little Willie John e Ray Charles. Sam Cooke era seu ídolo. É daí que provavelmente veio o apelido de "príncipe da soul music", já que Ray era o rei. Ou seria Cooke? Não importa a quem cabe melhor o pioneiro título de nobreza, são todos gogós de diamante.Falando em grandes vozes, diz a lenda que Marvin almejava ser um Frank Sinatra. Ele também gravou um tributo a Nat King Cole e registrou duetos antológicos com Diana Ross, Tammi Terrell e Kim Weston. Nem quando se propôs a construir um fracasso conseguiu ser ruim. É o caso do famoso Here, My Dear, que ele foi judicialmente obrigado a gravar revertendo a renda das vendagens para a ex-mulher depois do divórcio. A vingança não poderia ter sido mais cruel: Marvin não só fez um álbum de canções amargas, mas absolutamente difíceis, anticomerciais.Um bom panorama de sua carreira pode ser apreciado na caixa The Master Marvin Gaye 1961-1984 (Universal), que cobre os principais feitos desse artista genial, revolucionário, pacifista, sensual. E também perturbado, dividido entre a glória do sucesso, a culpa religiosa e o inferno das drogas, que, afinal, deu o pretexto para que o pai, um moralista pastor protestante, fizesse a sua "justiça", tornando o mundo bem mais triste e sem graça naquele fatídico primeiro de abril.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.