Os 60 anos do poeta da brasilidade

Paulo Cesar Pinheiro celebra a data com show, CD, livros e peça de teatro

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

28 de abril de 2009 | 00h00

Há quem se surpreenda com o fato de Paulo Cesar Pinheiro estar completando hoje apenas 60 anos. É que seu nome figura há tanto tempo e com tanta assiduidade na consciência brasileira, por meio da música, que a impressão de longevidade parece maior do que realmente é. Pinheiro começou a escrever muito jovem, por volta de 13 anos. Hoje é referência das mais importantes como letrista e soma mais de 2 mil canções, cerca de metade delas gravada. "Tenho falado que me tornei a trilha sonora da vida das pessoas de muitas gerações", reconhece o compositor, escritor, poeta, letrista e dramaturgo carioca.O pontapé inicial de comemoração do aniversário foi o show retrospectivo, apresentado no fim de semana no Rio, que deve vir para São Paulo, numa das unidades do Sesc. Este ano ele ainda publica mais dois livros: o primeiro romance (Pontal do Pilar, a sair em junho) e o quinto de poesia (Sonetos Sentimentais para Violão e Orquestra). Também está previsto o lançamento de um CD com os temas de capoeiras que compôs para a peça Besouro Cordão de Ouro, sua primeira imersão na dramaturgia. No fim do ano, deve estrear outra montagem teatral, Galanga Chico-Rei. A história do próprio artista vai ser contada por Conceição de Campos, em biografia a ser lançada em maio. O título é bastante representativo deste poeta da brasilidade: A Letra Brasileira de Paulo Cesar Pinheiro.Há mais de 40 anos, Pinheiro frequenta os sentimentos e a memória nacional com canções fundamentais, com parceiros de reputação insuspeita como a dele (leia no quadro). Lapinha, parceria com Baden escrita aos 16 anos e defendida com vigor por Elis Regina na Bienal do Samba, em 1968, foi seu primeiro êxito gravado. A primeira letra foi a de Viagem, parceria com João de Aquino. Escrita quando ele tinha apenas 14 anos, a música foi gravada por Márcia num compacto em 1968, mas só "aconteceu" de fato com Marisa, em 1973. No auge da ditadura Pinheiro fez a contundente letra de Mordaça (aquela que diz "o importante é que a nossa emoção sobreviva"). Tô Voltando, gravada em 1979 por Simone, virou o hino da abertura. "Foram músicas marcantes num determinado momento da vida política e social do País." Mas não só isso, há outras de teor afetivo - como Espelho, sobre a relação de pai e filho, e Violão, relacionando o corpo do instrumento ao da mulher - ou histórico como Leão do Norte (que ele considera um "cartão de visitas de Pernambuco") e Canto das Três Raças, estupendamente registrada por Clara Nunes.Se a parceria com Lenine remete a seus ancestrais nordestinos, o samba com Mauro Duarte sintetiza a formação cultural do brasileiro e do próprio Pinheiro: a miscigenação racial e cultural que define seu estilo de vida e escrita. A afro-brasilidade foi "entranhando" em Pinheiro, como ele mesmo diz, pela miscigenação da própria família: o pai é paraibano, "com muito sangue negro na família", a mãe é do litoral do Rio, filha de índia. Além disso tem a mistura europeia, com portugueses e ingleses. "Isso tudo foi muito forte em mim." Pinheiro aprendeu muito da cultura indígena com a avó e viajou bastante pelo País, principalmente pelo Norte, ao mesmo tempo em que mergulhou fundo na literatura nacional. Em 2000 publicou Atabaques, Violas e Bambus (Editora Record), livro que retrata essas experiências.Baden Powell foi seu principal parceiro, o que o "colocou na roda", quem acreditou nele. Se quando jovem Pinheiro se envolvia com compositores mais velhos, agora inverte a situação. Entre seus parceiros mais recentes estão seus filhos, Julião e Ana, além do violonista Rubens Nogueira. Continua fértil e sempre encontrando novos estímulos, sejam os diversos parceiros ou até a autorreferência. "A arte musical e literária pra mim considero como uma servidão, me entreguei a isso. E a gente não tem hora, não tem férias, a gente é escravo dessa arte", diz o artista. "Além do que ouvi pela vida afora, as minhas próprias coisas me estimulam. Meus parceiros também são muito estimulantes, porque cada um tem um caminho musical e como eu trilho todos eles, pela brasilidade que adquiri, com esses 47 anos como profissional, há um estímulo também de cada gênero." ACERVO DE PRIMEIRAAlgumas gravações importantes dentre as mais de mil canções registradas com a assinatura de Paulo Cesar Pinheiro:LAPINHA (com Baden Powell), por Elis Regina, 1968QUAQUARAQUAQUÁ (VOU DEITAR E ROLAR) (com Baden Powell), por Elis Regina, 1970REFÉM DA SOLIDÃO (com Baden Powell), por Elizeth Cardoso, 1970PESADELO (com Maurício Tapajós), por MPB-4, 1972E LÁ SE VÃO MEUS ANÉIS (com Eduardo Gudin), por Os Originais do Samba, 1972VENTO BRAVO (com Edu Lobo), por Edu Lobo, 1973VIAGEM (com João de Aquino), por Márcia, 1973MATITA PERÊ (com Tom Jobim), por Tom Jobim, 1973MAIOR É DEUS (com Eduardo Gudin), por Beth Carvalho, 1974MORDAÇA (com Eduardo Gudin), por MPB-4, 1974CANTO DAS TRÊS RAÇAS (com Mauro Duarte), por Clara Nunes, 1976DESENREDO (com Dori Caymmi), por Nana Caymmi, 1976ESPELHO (com João Nogueira), por João Nogueira, 1977MÃE ÁFRICA (com Sivuca), por Sivuca, 1978TÔ VOLTANDO (com Maurício Tapajós), por Simone, 1979CORDILHEIRA (com Sueli Costa), por Simone, 1979SÚPLICA (com João Nogueira), por João Nogueira, 1979PORTELA NA AVENIDA (com Mauro Duarte), por Clara Nunes, 1981LEÃO DO NORTE (com Lenine), por Lenine e Suzano, 1992VIOLÃO (com Sueli Costa), por Fátima Guedes, 1993SENHORINHA (com Guinga), por Mônica Salmaso, 1999

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