Os 20 anos da mina de fé e talento

Grupo Nós do Morro celebra data com mostra e livro sobre sua história, no Rio

Roberta Pennafort, RIO, O Estadao de S.Paulo

21 de agosto de 2009 | 00h00

Nos anos 90, o ator Guti Fraga ainda ouvia de amigos da zona sul do Rio: "E aí, como vai o teatrinho lá no morro?" O fundador do grupo Nós do Morro, no Vidigal, ficava revoltado. "Eu estava experimentando as formas mais radicais de teatro e ainda me perguntavam isso! A quebra de estereótipo é mesmo muito difícil." Difícil, sim, mas não impossível. Hoje, quando se comemoram os 20 anos da experiência, não há quem não reconheça o valor do trabalho realizado pelos (e com) meninos e meninas da favela. Os resultados são palpáveis - mais de 1.600 atores, diretores e técnicos formados, 19 espetáculos, seis curtas-metragens, prêmios a perder as contas -, mas também têm forte dimensão subjetiva: "Eu não consigo mais ser eu sozinho, sem o Nós do Morro", diz Jonathan Haagensen, ator de cinema, teatro e televisão, assim como Roberta Rodrigues, para quem o grupo deu "todos os valores" que possui. Os depoimentos estão nos painéis que compõem a exposição Nós do Morro, 20 anos, em cartaz no Espaço Furnas Cultural (R. Real Grandeza, 219, Botafogo, Rio) até o dia 13 de setembro. São, na verdade, 22 anos, conforme ensina a mostra e o belo livro homônimo, que conta a história dos "bárbaros urbanos" (nas palavras de Alcione Araújo, um dos admiradores do projeto), desde as primeiras montagens, num centro comunitário do Vidigal, quando a trupe se resumia a 20 pessoas. A trajetória passa pelos Shakespeares (Sonho de Uma Noite de Verão, Os Dois Cavaleiros de Verona), que renderam parceria com a Royal Shakespeare Company, da Inglaterra, e chegando à participação em filmes como Cidade de Deus (70% do elenco é do grupo), Tropa de Elite e Cidade dos Homens, e a Machado a 3x4, indicado em duas categorias para o Prêmio Shell no ano passado.O livro (X-Brasil) só saiu agora porque demorou a aparecer um patrocinador (BNDES) que não interferisse no projeto editorial - de "fazer um livro de arte para contar uma história artística", diz Marta Porto, a autora. Ela começou a pesquisa em 2005. Entrevistou os fundadores (o mato-grossense Guti, estudante de teatro e jornalismo radicado no Vidigal, o iluminador Fred Pinheiro e o jornalista Luiz Paulo Corrêa e Castro), os jovens artistas, os incentivadores (Marília Pêra, de quem Guti era assistente, Amir Haddad, Cacá Diegues, Rosane Svartman, Fernando Meirelles, entre outros).A exposição reúne fotografias, textos, instalações e exibição dos curtas realizados por integrantes do Nós do Morro - como o premiado Mina de Fé (2004), com roteiro e direção de Luciana Bezerra. Ela é uma das personagens de Testemunho Nós do Morro, um documentário de 1995 de Rosane Svartman e Vinicius Reis que conta como tudo começou. Luciana aparece adolescente, falando sobre arte, sonhos, novas perspectivas que se abriam. Sonhos que o Nós do Morro ajudou a realizar, por intermédio das aulas de interpretação, improvisão, voz, história do teatro, cinema, capoeira... Guti se acha o maior beneficiado. "Você é o privilegiado quando dá oportunidades", acredita. "Pobre sempre foi a pessoa que não tinha o direito de optar por seus sonhos, tinha que optar pelo trivial. Percebi que podia criar possibilidades pela qualidade, sem paternalismo. Não suporto aquela coisa de coitadinho. Dou aula em Ipanema e em Londres da mesma forma que dou no Nós do Morro." A mostra fica aberta de terça a sexta das 14 às 18 horas; domingos e feriados das 14 às 19 horas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.