Órfão de Deus, nas quebradas da vida

Querô, de Carlos Cortez, traz para tela o universo selvagem de Plínio Marcos, na forte interpretação de Maxwell Nascimento

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2014 | 00h00

Carlos Cortez não se lembra exatamente quando viu Barra Pesada, que Reginaldo Faria adaptou da peça Nas Quebradas da Vida, de Plínio Marcos. Se tem 50 anos em 2007, ele calcula que tivesse uns 20, pois o filme é de 1977. O que sabe, com certeza, é que não apenas Barra Pesada, mas também Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia, de Hector Babenco, foram importantes na sua formação - na cinematográfica como na humana. Há muito que ele sonhava adaptar o texto de Plínio, mas sua fonte principal não é a peça, mas o livro Reportagem Maldita - Querô. Realiza-o agora, contando a história do garoto criado na marginalidade e que reage com violência à violência do mundo.  Veja o trailer do filme Querô, de Carlos Cortez ''''Tem uma frase do Plínio Marcos de que eu gosto muito - ele dizia que nem Deus olhava por seus personagens. E, ao mesmo tempo que são esquecidos, e ferozes, eles são também humanos e é essa humanidade que o Plínio buscava e que eu busco também no Querô.'''' Cortez, diretor de documentários como Geraldo Filme, sobre o sambista, e Nenê, sobre o lendário fundador da escola de samba de Vila Matilde, troca agora o universo musical pelo da violência , mas seu comprometimento continua com um certo tipo de personagem, cuja difícil integração se faz pelas bordas. E todos, mesmo que as trajetórias não sejam as mesmas, vêm das quebradas dessa vida.Querô estréia hoje em salas de São Paulo, do Rio e em Belo Horizonte, Brasília, Santos, Cuiabá e Fortaleza. Nestas duas últimas cidades, Querô foi vencedor do prêmio de melhor filme nos festivais que nelas se realizam. ''''Estou tendo um apoio bacana para o lançamento nessas praças'''', comenta o diretor. Além das 13 cópias em película, Querô também chega a 7 salas com projeção digital. Um lançamento pequeno, mas que está sendo feito com carinho - com o mesmo carinho que Cortez dedicou a Querô e aos cerca de 40 adolescentes da Baixada Santista que integram o elenco, entre eles Maxwell Nascimento, que faz o personagem-título. Querô é estuprado na cadeia juvenil, sua mãe mata-se tomando querosene (e por isso ele tem este nome), o garoto pega em armas para roubar e matar - que raio de delicadeza foi essa que Carlos Cortez encontrou na trajetória emblemática de Querô? ''''Ele é humano, e é carente. Apesar do mundo, e das condições em que vive, Querô passa um desgosto. Tenta mudar de vida, mas a realidade é mais cruel.''''Cortez acha que atingiu seu objetivo. Nos festivais de que Querô participou, muita gente veio lhe falar justamente dessa delicadeza do olhar - o gosto pelo detalhe que expõe a fragilidade, o gesto amoroso -, que contradiz a violência do mundo. Querô prossegue com um discurso que já estava em outro lançamento recente do cinema brasileiro. Cidade dos Homens, de Paulo Morelli, mostra dois garotos e sua relação com uma paternidade que é real e também metafórica, porque permite ao diretor discutir não só meninos de rua, mas a orfandade de um País carente de autoridade. Querô substitui o pai pela mãe, essa mãe mítica que o garoto busca e à qual se entrega, em final controverso.Por mais fascinado que seja em relação ao livro de Plínio Marcos, Cortez tomou suas distâncias em relação a ele. O livro de 1976 é uma reportagem maldita, na qual Querô, descobre o leitor, está contando sua história a um repórter. No filme, Cortez acha que o recurso soava falso. ''''Só se fosse uma narrativa para um documentário, por exemplo.'''' Ele terminou por se afastar do livro, mas sem perder sua essência. Mesmo antes de iniciar a produção dos irmãos Gullane, Caio e Fabiano, Cortez sabia que o filme ia depender muito do elenco jovem. Santos, a área portuária, retratada por Plínio, foi o cenário escolhido. Cerca de 1.200 garotos das comunidades mais pobres da Baixada Santista foram testados e 200, selecionados para participar das oficinas que não eram só de interpretação. Novo processo de seleção resultou na escolha dos 40 jovens que integram o elenco.Eles tiveram sete semanas de intensa preparação - expressão corporal, capoeira, interpretação -, mas a idéia de Cortez e dos Gullane, baseada na responsabilidade social, não era só a de formar atores para o filme. O principal estímulo que os adolescentes tiveram foi no sentido de receber o que o diretor define como ''''uma educação audiovisual''''. Não admira que o grupo tenha permanecido unido e, com diversos apoios, eles estejam fazendo os próprios filmes - já estão no sétimo curta. Sete semanas preparatórias, sete de filmagem. Havia um roteiro que passou pelo crivo de especialistas como Bráulio Mantovani, de Cidade de Deus, e Luiz Bolognesi, de Bicho de Sete Cabeças. ''''Ninguém lia esse roteiro no set'''', lembra o diretor. Diálogos e cenas eram improvisados com os garotos, com vistas a uma maior intensidade do drama. ''''Eles são co-autores do filme'''', avalia Cortez.Cidade dos Homens teve um lançamento grande - não gigantesco - e fracassou nas bilheterias. Isso não causa um friozinho na barriga de Carlos Cortez, que, afinal, está trabalhando num universo próximo - infância roubada, exploração da miséria, violência. O friozinho sempre acontece, às vésperas de uma estréia, mas Cortez observa que Querô está começando pequeno, em apenas 20 salas, justamente para permitir que o filme pudesse ser trabalhado em cada praça, até com entidades interessadas em discutir a questão da infância, como é retratada no filme. Cortez recebeu todo apoio para fazer o filme que queria. Ele espera não decepcionar os Gullane, mas espera, principalmente, que o público se interesse pela sorte de Querô, criado nas quebradas da vida, órfão até de Deus. Querô e Plínio Marcos merecem este bom filme.Serviço Querô (Brasil/2006, 90 min) - Drama. Dir. Carlos Cortez. 16 anos. Espaço Unibanco 4 - 14h20, 16h10, 18h, 19h50, 21h50 (3ª não haverá 21h50). Morumbi Cine TAM 4 - 13h50, 15h50, 17h50, 19h50, 21h50 (sáb. também 23h50). Reserva Cultural 2 - 13h30, 15h20, 17h10, 19h10, 21h10. Unibanco Arteplex 8 - 13h, 15h, 17h, 19h, 21h. Cotação: Bom

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