Ópera, sexo e morte

Elenco de Salomé, que estréia hoje, fala sobre a grande obra de Richard Strauss

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

28 Agosto 2008 | 00h00

"Parece que tem a ver com um buraco negro no centro da galáxia ou algo assim", ele diz, explicando com as mãos o movimento do planeta. "Seria em 2012, um momento de grande transformação, pelo menos é o que dizem os maias... ou seriam os incas? Não, maias, é algo que acontece a cada 5 mil anos, se me lembro bem." Um breve silêncio. "Eu estava assistindo agora a um filme, hilário, Trovão Tropical, com aquele Ben Stiller... esse cara é engraçado... Onde será que elas estão?" Elas são as sopranos Susan Anthony e Gabriele Schnaut. Ele, o barítono Alan Titus. Juntos, encabeçam o elenco da ópera Salomé, uma das mais impactantes criações de Richard Strauss, que estréia hoje em versão de concerto na Sala São Paulo, com regência de John Neschling. Cantores wagnerianos formam uma entidade à parte no mundo da ópera. Talvez seja por conta dos papéis que interpretam, figuras quase sempre míticas e heróicas - ou então pelo fato de precisarem ultrapassar, com suas vozes, orquestras enormes, compostas por 120, 130 músicos. O termo "wagneriano" é usado porque, de certa forma, foi o compositor Richard Wagner o primeiro a escrever para esses vozeirões, mas pode-se ampliar o adjetivo para os intérpretes de outros autores de escrita similar, como é o caso de Strauss. Dessa estirpe, enfim, Titus, Anthony e Schnaut são representantes nobres, figurinhas tarimbadas do Festival de Bayreuth e dos principais teatros do mundo, onde interpretam papéis como Wotan, Isolda, Brunhilde, Elektra, e por aí vai, sem ignorar também alguns marcos fundamentais do repertório italiano. Na lista estão também os personagens principais de Salomé, ópera que Strauss criou a partir da adaptação teatral feita pelo escritor Oscar Wilde da história bíblica da princesa Salomé, hipnotizada pelo apóstolo, feito prisioneiro, João Batista. Enquanto "elas" sobem para o quarto do hotel na região da Avenida Paulista onde está hospedado o elenco, Titus conversa sobre o papel de João Batista. "É um personagem muito intenso, que carrega uma grande certeza espiritual, mesmo que na ópera o aspecto religioso não seja o mais importante", diz. Ele se refere ao momento em que foi escrita a obra. Era a passagem do século 19 para o 20, vivia-se sob o signo do decadentismo, o que fez com que Wilde recriasse no palco uma história recheada de erotismo, cercado por todos os lados pela idéia da morte, concretizada em um suicídio e dois assassinatos. "O poder dessa música está na fidelidade que tem com relação à peça original e na maneira como recria o ambiente da época em que foi escrita." Salomé, ou melhor, Susan Anthony, junta-se a nós. Com cara de pouquíssimos amigos. O que faz da escrita de Strauss para a voz algo tão especial? "A dificuldade." Como vê a personagem? "É uma das minhas preferidas. É bom fazer no palco uma mulher cuja personalidade é totalmente diferente da minha. E há momentos de rara beleza, o que torna essa música bastante excitante." Como saber se é hora de enfrentar papéis mais pesados, como Salomé, tendo em vista o risco de se machucar as cordas vocais? "É realmente um desafio." Ela, então, se levanta, pede licença, quer descansar para o ensaio geral daquela noite. "É um papel muito grande e o processo de ensaios seguidos é bastante cansativo, além do que, quando acabam os ensaios, aí começa a parte difícil, fazer as apresentações todas." A sorte é que, ali do lado, está outra Salomé, a soprano austríaca Gabriele Schnaut. Não há em seu rosto um só sinal da preocupação que acomete a colega. A voz da experiência, sim. E, claro, seu papel, desta vez, é menor - ela interpreta Herodíades, a mãe de Salomé. É um papel pequeno, sim, mas fundamental - e, depois de 30 anos de carreira, em que deixou grandes registros de Isolda, Salomé, Elektra e Brunhilde, entre outros, Schnaut conta que está abandonando os papéis maiores e se dedicando a papéis "característicos". Ela, pode, portanto, responder a pergunta feita à colega. "Eu comecei meus estudos como meio-soprano, inclusive cantando muito com um tenor brasileiro, Aldo Baldin, na Alemanha. Aos poucos, no entanto, a voz foi mudando. Essa é a chave. A maturação da voz leva tempo. Para o cantor, resta apenas reconhecer os sinais e ir fazendo as transições necessárias. É preciso abrir mão de alguns papéis para ganhar outros à medida que a voz se transforma. Quando era meio-soprano, eu trabalhava mais o registro grave da voz; quando comecei a cantar como soprano, passei a me preocupar mais com os agudos, o que significa que tive de abandonar os papéis mais graves. No final das contas, o que vale é a honestidade consigo mesma: eu posso? No mais, é bom ir experimentando: os limites só se ampliam quando você os empurra." Sobre Strauss, Schnaut não hesita na hora de definir o que sua música tem de mais especial. "Sim, ser difícil é mesmo uma das características fundamentais", brinca. "Mas há outros elementos importantes. O que mais me interessa é o fato de que o texto tem sempre a mesma qualidade da música. Na verdade, é bem mais do que isso. A própria concepção cênica, o movimento, as intenções, tudo está na partitura. Nunca pensei em mim mesma como uma voz pura e simplesmente. Sempre me vi como uma musicista que tem a voz como instrumento. Nesse contexto, Richard Strauss sempre foi para mim o compositor ideal. E é bom, nesta nova fase da carreira, que ele ainda esteja por perto." Serviço Salomé. Sala São Paulo (1.484 lug.). Praça Júlio Prestes, s/n.º, Centro, tel. 3223-3966. 5.ª e 2.ª, 21 h; sáb., 16h30. R$ 28 a R$ 98

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