Ópera perde a soprano alemã Hildegard Behrens

Grande intérprete de papéis de obras de Richard Wagner e Strauss, como Isolda e Salomé, ela estava com 72 anos e, longe dos palcos, dedicava-se a dar aulas

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

20 de agosto de 2009 | 00h00

Difícil imaginar, na ópera dos anos 80, tarefa mais ingrata: assumir os principais papéis wagnerianos, deixados vagos pela geração anterior, liderada pela lendária soprano Birgit Nilsson. Ainda assim, a alemã Hildegard Behrens saiu-se bem do desafio. Não só: ajudou mesmo a moldar uma nova compreensão do canto dramático em teatros como o Metropolitan Opera de Nova York e a Ópera de Viena. Aos 72 anos, ela já estava afastada dos palcos. Dedicava-se a dar aulas e master classes. Na semana passada, foi com esse objetivo que desembarcou no Japão, onde morreu na noite de terça-feira, vítima de um aneurisma.Segundo representantes da Associação Musical Kanshinetsu, promotora da viagem da soprano ao Japão, ela passou mal na tarde de domingo durante um passeio a uma cidade próxima de Tóquio e foi prontamente levada a um hospital da capital. Na terça, seu quadro piorou. Ela estava acompanhada do filho e da filha. Segundo porta-voz do Metropolitan, responsável pelas declarações sobre o caso, seu corpo será velado e enterrado em Viena, onde ela residia.Hildegard Behrens nasceu em Varel-Oldenburg, cidade no norte da Alemanha. Filha de um casal de médicos, estudou violino e piano na infância. Frequentou a Universidade de Freiburg, estudou Direito - e passou a integrar o coro de alunos. Resolveu, então, estudar seriamente o canto, a princípio com a professora Ines Leuwen. Sua estreia profissional ocorreu em Freibur, em 1971, com o papel da Condessa nas Bodas de Fígaro, de Mozart. Anos mais tarde, ela seria descoberta pelo maestro Herbert Von Karajan. Ele estava à procura de soprano principal para uma nova montagem de Salomé, de Strauss. Pediu a ela que fosse, então, a Berlim para uma audição. Resultado: em 1977, a cantora estreava no Festival de Salzburgo interpretando um dos pilares do repertório de soprano dramática, que gravaria anos depois com Karajan e a Filarmônica de Viena. Em tempo: foi com o mesmo papel que atuou no Municipal do Rio nos anos 80.Sua estreia americana foi em 1976, em Il Tabarro, de Puccini, dando início ao longo casamento com o Metropolitan Opera, de Nova York, que, como muitas uniões, acabou na Justiça - atingida por uma parte de um cenário durante uma apresentação, ela processou o teatro por danos físicos. Antes da separação, no entanto, ela e o maestro James Levine contracenaram em um dos principais momentos de sua carreira. O maior deles talvez seja a tetralogia O Anel do Nibelungo, de Richard Wagner, no final dos anos 80, em que interpretou Brünhilde. Foi a primeira transmissão ao vivo pela televisão da monumental criação do compositor alemão.As comparações foram inevitáveis. Brünhilde, como Isolda, que ela também interpretou, são papeis míticos no imaginário do público - e, não por acaso, viram lendas também as sopranos que os interpretam com sucesso. Naquele momento, ainda ecoava a memória da voz de Birgit Nilsson, como revela uma crítica pouco lisonjeira da apresentação, publicada em um jornal nova-iorquino. O que o tempo mostrou, no entanto, é que o soprano dramático de Behrens unia a resistência, a intensidade, a um caráter lírico de rara doçura, oferecendo uma fragilidade muito grande a um papel que ganhava novas e nuançadas cores. De alguma forma, sem qualquer juízo de valor, é possível afirmar que a geração atual de sopranos wagnerianas se aproximam mais dela do que das divas da geração de Nilsson, Flagstad e companhia.Além dos papeis wagnerianos e de Salomé e Elektra, de Strauss, Behrens encontrou no Wozzeck, de Alban Berg, um dos triunfos de sua carreira, documentado em gravação dos anos 80 comandada pelo maestro italiano Claudio Abbado. Mas ela também foi uma intensa Tosca ao lado do tenor Plácido Domingo. Na sua lista extensa de gravações, há ainda um interessante Tristão e Isolda, regido por Leonard Bernstein, e um Fidelio, de Beethoven, comandado por Karl Böhm. Fora da ópera, no entanto, existem dois menos conhecidos registros, ainda que igualmente significativos de suas escolhas e características como cantora. Em um deles, lançado pela EMI Classics, ela interpreta canções de Schumann, Strauss, Brahms e Alban Berg, gravação de seu primeiro recital oferecido em Freiburg. No outro, já cantora feita, ela interpreta ao lado da Sinfônica de Viena dois marcos da música francesa, os ciclos Les Nuits D?Étè, de Berlioz, e Xerezade, de Ravel.COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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