Ópera baseada no livro tem música pouco inspirada

Partitura composta e regida por Lorin Maazel é o ponto fraco da adaptação

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

06 de junho de 2009 | 00h00

Winston escreve em seu diário 1984, mas logo se questiona: "Será mesmo? Ou seria 50 anos antes? Ou 50 anos mais tarde?" Essa breve passagem do livro de Orwell ofereceu a tônica para a adaptação operística de 1984, trabalho conjunto do maestro e compositor ocasional Lorin Maazel, dos libretistas J.D. McClatchy e Thomas Meehan e do diretor cênico Robert Lepage. A ópera estreou em 2006 no Royal Opera House Covent Garden, de Londres; em 2008, foi reencenada no Scala de Milão. E agora a Decca lança em DVD importado a montagem da estreia inglesa.Em entrevista ao Telegraph, durante os ensaios para a première da ópera, Lepage falou da preocupação em se manter fiel ao espírito do livro sem, no entanto, deixar de anotar que acontecimentos como os ataques terroristas de 11 de setembro deram novo significado ao conceito de vigilância, de um "mundo vigiado". Mas a montagem, toda em tonalidades escuras, com cenários grandiosos mas não naturalistas, redesenhado a partir do uso criterioso de projeções, evita associações banais e imediatas.Há uma ênfase muito grande no trabalho de produção cênica e isso vem da percepção, segundo os libretistas McClatchy e Meehan, de que qualquer relação entre a história de Orwell e os dias atuais, ainda que necessária, deveria se dar na busca por uma concepção visual moderna para o espetáculo e não em adaptações textuais. O resultado é um libreto muito hábil na transposição da narrativa de Orwell para os monólogos e cenas de conjunto da ópera. "O papel de Winston foi o que mais nos deu trabalho", contaram os libretistas em uma entrevista na época da estreia italiana da ópera. "Ele precisa estar no palco praticamente todo o espetáculo, o público acompanha a história por meio de seus olhos, seus conflitos, seu destino trágico."E chegamos então à música de Lorin Maazel. A crítica inglesa foi feroz. No Guardian, Andrew Clements criticou "o ultraje de se levar ao palco de uma companhia supostamente de padrões internacionais uma ópera com tamanha falta de qualidade musical". No Independent, Robert Thicknesse não deixou por menos: "A ópera não é tão ruim como se esperava, mas com certeza desperta no público o desejo urgente de que termine logo. É indesculpável para qualquer ópera moderna que seu primeiro ato seja tão longo quanto La Bohème inteira - em especial quando o que acontece no palco nos leva a ponto do mais profundo tédio." De fato, de todo o espetáculo, é a partitura o que mais deixa a desejar. Tudo o que o libreto e a direção cênica oferecem de sutilezas e possibilidades, Maazel arrasa com a utilização de efeitos sonoros banais para sugerir elementos como tortura, dor ou mesmo paixão - o dueto de Winston e Julia, por exemplo, "Let darkness do what powers might", parece saído de um meloso musical da Broadway. No mais, há referências a Puccini, Stravinsky, Ligeti, Bernstein, Benjamin Britten, uma lista longa de compositores dos séculos 19 e 20. Num momento em que, nos EUA e na Europa, uma série de autores tem se dedicado a reinventar a linguagem da ópera, a falta de originalidade da música de 1984 é um pastiche difícil de digerir.

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