Onde fica o país que ela quer salvar?

Madonna não sabe muito bem localizar o Malavi, mas cuida das suas crianças

Entrevista com

Logan Hill, New York Magazine, O Estadao de S.Paulo

30 de abril de 2008 | 00h00

Madonna afirmou recentemente que estava saturada de Nova York; ela ainda gostava de enfiar seus dedos em nossas tomadas de tempos em tempos, mas não havia mais tantas faíscas eletrizantes. De lá para cá, ela se retratou e, em muitas ocasiões, em Londres ou na África, ela ainda age como uma nova-iorquina, controlando seus arroubos para dominar o mundo mais uma vez. O que nos traz a seus novos projetos: ela produziu e narrou o documentário I Am Because We Are (Eu sou porque nós somos), sobre o Malavi e seus órfãos da aids, com sessões de estréia no Festival de Cinema de Tribeca. Ela dirigiu um longa-metragem, Filth and Wisdom (literalmente, sujeira e sabedoria), sobre um candidato a roqueiro. Ela gravou um novo álbum, Hard Candy, e tem todo aquele contorcionismo com Justin Timberlake. E, na segunda-feira, Madonna divulgou que vai disponibilizar esse novo disco na internet, na sua página no MySpace, que é br.myspace.com/madonna. Ela nos atualizou sobre tudo isso.Ficamos um pouco desconcertados de ouvir que você já não acha Nova York excitante.As pessoas precisam deixar de ser tão literais. Eu estava me referindo a quando vim pela primeira vez para Nova York e à convergência dos ambientes de música e artes plásticas - isto é, meus amigos eram Keith Haring, Andy Warhol e Jean-Michel Basquiat. Havia, para mim, essa interface maluca de arte e vida, e já não vejo tanto disso em Nova York.Não é tão ruim agora.Não estou dizendo que não existam pessoas interessantes, fazendo coisas interessantes. Acho que estou me sentindo um tanto nostálgica.Acha que poderia vencer em Nova York agora?Acho que seria quase impossível. As gravadoras estão quase defuntas.Falando dos anos 80, você foi uma das primeiras estrelas pop a falar da crise da aids. Mas nunca ouvi você discutir qualquer relação entre isso e seu trabalho no Malavi (país da África Oriental). Ela existe?Existem muitas. Uma é que eu mesma me sinto uma criança órfã. Cresci assim. Mas também a idéia de que eu me sentia tão impotente diante da epidemia de aids que parecia se espalhar em Manhattan e reclamar as vidas de tantas pessoas que eu amava. E notei como a comunidade gay era hostilizada, e aquilo me alucinou.Hoje você é uma espécie de especialista em Malavi. Mas quando a ativista Victoria Keelan cobrou seu engajamento, você disse. ''Eu nem sei onde fica isso.'' E ela bateu o telefone na sua cara. Não são muitas pessoas que batem o telefone na sua cara, não é?Aquilo me pareceu muita ousadia. Ela me achou muito impertinente no começo, dizendo coisas assim: ''Você está fazendo as perguntas mais estúpidas - quer ajudar ou não?'' E ela estava absolutamente correta.No filme, você aborda um ritual em que dizem a uma mulher jovem que ela deve fazer sexo com um homem três vezes por dia, para se ''purificar''.Não cabe a mim julgar essa tradição. Mas quando se conversa com um chefe de aldeia e se diz, '' Você percebe que está espalhando uma doença mortal?'' e ele responde, ''Percebo, mas não há nada que eu possa fazer'' é assustadoramente frustrante. Acontece que nós soltamos bombas sobre crianças em tempos de guerra, por isso eu penso: Bem, quem está praticando magia negra?Você e Angelina Jolie vêm recebendo muitas críticas por suas ações de caridade. As pessoas consideram que isso é apenas uma moda.Não são apenas celebridades. Curiosamente, há muitas pessoas que ficam desconfiadas de gente que quer fazer alguma coisa boa pelos outros.O documentário capta seu filho David em película antes de você tentar adotá-lo. Como foi esse primeiro encontro?Ele estava simplesmente indo ao banheiro sozinho. Claro, no dia seguinte você volta com um caminhão de fraldas descartáveis. Parece sentimentalismo barato, mas ele era todo aqueles olhos grandes, brilhantes, inteligentes, e eu me senti ligada a ele imediatamente.O terreno legal para a adoção foi um pouco confuso, criando controvérsias (um tribunal estava escalado para rever a questão na semana passada). Nesse ínterim, um professor britânico cunhou o termo ''efeito Madonna'' para descrever ocidentais que fazem adoções internacionais, supostamente em detrimento de crianças locais.Grande. É uma pessoa rabugenta. Você sabe, não existe uma crise de aids na Inglaterra. Sim, há crianças que precisam ser adotadas aqui e no Reino Unido, mas ninguém vai morrer num orfanato nos Estados Unidos.Há uma certa controvérsia também sobre os vínculos entre o Kabbalah Center e sua organização beneficente, Raising Malawi. Poderia esclarecer essa conexão?Estudar a cabala me inspirou a compreender que o mundo não gira em torno de mim. Quem sabe se eu teria me envolvido (sem isso)? Mas a Raising Malawi é uma entidade separada, dedicada a crianças na África subsaariana.O ator Tom Cruise foi um recente arrecadador de fundos. Você simpatiza com ele?Simpatizo sim. Para mim não importa se as pessoas adorem tartarugas ou rãs. Se elas forem pessoas boas, isso é tudo que me importa, e ele é uma boa pessoa. Acho que ele recebe um tratamento injusto, assim como acho que os órfãos de Malavi recebem um tratamento injusto, assim como acho que muita gente marginalizada é injustiçada.O que pode me dizer sobre o diretor de seu documentário, Nathan Rissman. Este é o primeiro filme dele. Ele é um amigo?Ele é o marido da minha babá, para falar a verdade. Quando Nathan apareceu, eu pensei: Bem, ele não pode ficar simplesmente zanzando por aí, ele precisa ter um emprego. Ele faria filmes quicktime de meus filhos e os enviaria por e-mail para mim quando eu estivesse viajando. Os filmes eram muito engenhosos. Assim, quando esse projeto surgiu, ele parecia fácil. Ele fez de tudo, de jardinagem a manejar a câmera para a filmagem de cenas adicionais de bastidores. Ele nunca disse: ''Eu não vou à Starbucks - sou bom demais para isso.''Você acaba de dirigir o seu próprio filme, também. E parece mais entusiasmada com o filme do que com a música.E estou mesmo. Tenho um disco para promover e isso é ótimo, mas amei ir ao Festival de Cinema de Berlim - foi a primeira vez em minha carreira que ninguém me fez uma pergunta pessoal. Quando se é uma estrela pop, todos se sentem autorizados a saber a cor de suas calcinhas.Bem, em seu novo álbum, Hard Candy, você canta sobre a sua ótima vida sexual com Guy Ritchie (diretor de cinema e marido da cantora). Mas fazendo um filme sobre esse tema, você poderá ter de responder a outras perguntas desse gênero.Bem, se elas estão um filme (que eu dirijo), não sou eu que estou dizendo as falas, não é?O vídeo de seu novo single, 4 Minutes, é uma provocação: você e Justin Timberlake quase se enroscam na cama, depois você dança. Você monta nele, depois você dança...A proposta é ser mesmo uma provocação, sabe. Você só tem quatro minutos para salvar o mundo. Não há tempo para comportamentos frívolos!Então você não estava zombando da expectativa de que beijaria Justin Timberlake, depois de beijar publicamente Britney Spears?Não.Esta letra ''The road to hell is paved with good intentions'' (O caminho para o inferno está forrado de boas intenções) está relacionada à sua obra de caridade?Não. Trata disso: Você compreende essa opinião que eu adotei ou esse Zeitgeist em que eu permiti me envolver? Porque é possível você pode ter as melhores intenções, mas não ter informação suficiente e cometer erros imensos...Qual é o candidato presidencial que você acha que cometerá menos erros imensos?Estou entusiasmada com um dos candidatos.Você não pode falar dele porque o marido da outra está no seu filme?Isso não é justo... Hum... Sou realmente fã dos Clintons e de Obama. Olha eu sendo política - eu devia concorrer ao cargo!

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