Olivier Père, da Quinzena de Cannes, garimpa filmes nacionais

Ele veio acompanhar o Festival de Tiradentes e avisa estar interessado em curtas

Luiz Carlos Merten, PARIS, O Estadao de S.Paulo

26 de janeiro de 2009 | 00h00

Você, provavelmente, nunca ouviu falar dele, mas Olivier Père faz parte daquelas personalidades pouco conhecidas do público que, nos bastidores do cinema, costumam ser paparicadas. Afinal, como diretor artístico e delegado geral da Quinzena dos Realizadores, ele é responsável por uma das mostras mais prestigiadas do Festival de Cannes, o maior evento de cinema do mundo. Père desembarca hoje no Brasil, a convite do Programa Cinema do Brasil. Vem para a Mostra de Tiradentes, com o objetivo de garimpar, na nova produção brasileira, títulos que poderão integrar a programação da próxima Quinzena.Jovens diretores, atenção. O foco da seleção da Quinzena está na produção independente, principalmente a de novos autores. "Apresentamos muitos primeiros filmes, embora toda a programação não seja formada só por obras de diretores estreantes. São cerca de 20 longas, mas podemos chegar até 23, e uma dezena de curtas. Estou tão ansioso para ver a nova produção de curtas brasileiros quanto a de longas", esclarece Père. O curta, como celeiro de novos talentos, exerce uma fascinação muito grande sobre ele. "Quero ver o maior número possível de curtas", anuncia. Um dos títulos que serão exibidos em Tiradentes é o longa de estreia de Eduardo Valente. Como vencedor da Palma de Ouro do curta, Valente tem presença assegurada na seleção do festival, em maio. "Integrar a seleção não é uma garantia de que o filme vá participar da competição, mas a expectativa é que sim", acrescenta Père.Em 2007, a Quinzena apresentou Mutum, de Sandra Kogut, filme pelo qual Olivier Père possui um carinho todo especial. "Gosto muito da história e da delicadeza com que Sandra a desenvolve." Não foi por outro motivo que ele selecionou o belo filme de Sandra. Quase dois anos depois, Mutum acaba de estrear em Paris, com direito a crítica elogiosa na edição de janeiro de Cahiers du Cinéma. A revista dedica uma página e meia ao filme de Sandra Kogut. A crítica começa com uma interrogação: "Filmar à altura da criança? Do clichê famoso, Mutum faz seu credo". O título do texto é revelador, "A distância dos pobres". A crítica Elisabeth Lequeret encerra sua resenha citando as últimas palavras do garoto, Tiago, "Tudo é maior. É excessiva, essa luz". Segundo ela, ao proferi-las, para se lançar no mundo, Tiago está iniciando o aprendizado da revolta, que dá sentido ao filme de Sandra.Père admira muito a criatividade e diversidade do cinema brasileiro. Há uma longa história de amor entre o Quinzena e o cinema nacional. Remonta a 1969, quando Barravento, de Glauber Rocha, integrou a programação da primeira Quinzena. "O filme não era novo, mas foi exibido em deferência à importância de Glauber. É um filme essencial de um autor de importância indiscutível." Em 1984, Memórias do Cárcere, de "Dos Santos" - e Olivier Père põe o acento no final, Santôs -, não apenas integrou a seleção como ganhou o prêmio da crítica. "Foi um dos melhores anos de toda a história da Quinzena."Como será a edição de 2009? Ainda é cedo para antecipar, mas Père anuncia que a Quinzena, como todo ano, vai atribuir um prêmio especial. Este ano, a vencedora, ele anuncia, será a diretora japonesa Naomi Kawase, de A Floresta dos Lamentos, que integrou a programação da Mostra de São Paulo. "Naomi é uma das grandes diretoras contemporâneas", ele define.A entrevista com Olivier Père foi realizada em Paris, na sexta-feira. No dia anterior, a Academia de Hollywood anunciara os indicados para o Oscar. Olivier Père acompanhou o anúncio? "Claro que me interessou. Afinal, sou cinéfilo", ele diz. Mas reconhece que o perfil da Quinzena - filmes independentes, de autores estreantes - distancia o evento dos grandes nomes do cinema norte-americano. Mesmo assim, Père ficou contente com as 13 indicações de O Curioso Caso de Benjamin Button. Ele ainda não havia assistido ao filme, mas devota uma admiração sem limites a seu diretor. "David Fincher é super ." No cinema francês atual, ele elogia Christophe Honoré - exibiu Em Paris na Quinzena e fica feliz de saber que A Bela Junie está em cartaz em São Paulo - e Philippe Garrel: A Promessa do Amanhecer não lhe merece um adjetivo menos superlativo do que maravilhoso.

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