Olivia Byington baixa o tom em álbum solitário e camerístico

Perto traz o repertório do bem-sucedido show em que ela se acompanha ao violão

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

16 de fevereiro de 2009 | 00h00

Só com voz e violão para belas canções interpretadas de maneira sutil, Olivia Byington proporcionou chegar a um grau de intimidade que vem encantando o público que a (re)descobre. A ideia primeira foi criar novos arranjos para as canções de Caetano Veloso, mas, como já contou a cantora, as introduções ficaram tão longas e boas que acabaram gerando novas composições. Pela primeira vez ela realizou um álbum autoral, que originou um show belíssimo antes chamado Cada Um, Cada Um. Depois rebatizado de A Vida É Perto, título sugerido por Millôr Fernandes, chegou ao DVD. A terceira etapa do projeto de Olivia é o CD Perto (Biscoito Fino), com o repertório do show gravado em estúdio com a mesma configuração solitária e camerística. Ao contrário do que ocorre com certos figurões da MPB - que patinam anos fazendo o show do CD ao vivo do DVD do show do CD do DVD do show -, estes trabalhos de Olivia não são redundantes, mas complementares. O novo CD não repete canções do anterior, nem se limita ao roteiro da primeira versão do show. Há boas novidades interpretativas entre antigos temas, de seu repertório e de outros, como a surpreendente abordagem de New World, de Björk, não apenas pela roupagem acústica, mas porque Olivia retoma canções marcantes de sua trajetória - como Anjo Vadio (Olivia Byington/Geraldo Carneiro), Lady Jane (Nando Carneiro/Geraldo Carneiro) e Mais Clara, Mais Crua (Egberto Gismonti/Geraldo Carneiro) - e as revitaliza cantando alguns tons abaixo dos originais. Além de ter acrescentado os sambas Com Que Roupa? (Noel Rosa), Menina Fricote (Marilia Batista/Henrique Batista) e a balada Lágrimas Negras (Jorge Mautner/Nelson Jacobina) ao repertório, ela traz a inédita Entre a Voz e o Oceano, em homenagem a Maria Bethânia, retomando a parceria com o poeta português Tiago Torres da Silva, do disco anterior. Duas de Caetano, primeiro inspirador do projeto, abrem o CD numa afinada fusão: Alguém Cantando e Muito Romântico. Mais adiante, outros dos mais belos momentos são Mãe da Manhã, de Gilberto Gil, e o clássico francês Les Feuilles Mortes (Joseph Kosma/Jaques Prévert). Cool e essencial, Olivia gravou o álbum todo em três sessões de estúdio, sem retocar nada, nem fazer takes alternativos, acompanhando-se sozinha ao violão. "Ganhei mais intimidade com o violão por causa das horas que passo com ele. Senti também necessidade de tocar muito por causa das composições e também por causa de um projeto que vou fazer em Portugal com José Peixoto, violonista do Madredeus, que é um disco de dois violões e voz. Então tenho de estar muito entrosada com o instrumento, até para imprimir a minha identidade musical nesse trabalho", diz. Para gravar o CD ela comprou um instrumento especial de um luthier chamado Jó Nunes, que faz pouquíssimos violões por ano. ''Quanto o experimentei não consegui tocar em nenhum outro, só pensava nele, então o comprei, porque ele tinha a sonoridade que eu queria, de forma muito brilhante. É um violão que quase canta de tanto som, ele é muito rico", elogia. "Nas gravações deixei tudo o mais natural possível. O disco traz as versões intactas daquilo que foi tocado, sem cortes, sem emendas, com o som dos meus dedos passando pelas cordas." É a bela sonoridade desse violão acústico, bem-casado com o canto de traço lírico de Olivia, o que dá a unidade ao repertório, que tem passagens aparentemente incompatíveis. De um lado, dois clássicos de Tom Jobim (Por Toda a Minha Vida e Anos Dourados, parcerias com Vinicius de Moraes e Chico Buarque, respectivamente). De outro, o hit brega Pense em Mim (Douglas Maio/José Ribeiro/Mário Soares), do repertório da dupla Leandro e Leonardo, que tem valor sentimental para Olivia. Absorvida do gosto do filho, ressurge refinada por seu conceito de beleza.

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