Oliver Stone e a nova América Latina

South of The Board, exibido fora de concurso em Veneza, mostra transformação social ignorada pela mídia dos EUA e Europa

Luiz Zanin Oricchio, ENVIADO ESPECIAL, VENEZA, O Estadao de S.Paulo

08 de setembro de 2009 | 00h00

Oliver Stone parece satisfeito com a recepção ao seu documentário South of the Board apresentado em Veneza fora de concurso. Estava em companhia do escritor anglo-paquistanês Tariq Ali. Logo depois foi ao encontro do presidente venezuelano Hugo Chávez - a "estrela" do filme - que veio assistir à sessão oficial, prevista para ontem à noite no Palácio do Cinema.

Chávez chegou ontem à tarde à cidade e logo disse que o cineasta Oliver Stone "é um grande trabalhador e seu filme dá visibilidade aos países da América do Sul" e que leva a Itália em seu coração. Acompanhado pelo diretor norte-americano, o presidente cumprimentou um grupo de pessoas que levava um cartaz que dizia "Bem-vindo presidente" e tirou fotos com os manifestantes. Mas houve também algumas vaias.

Stone define Border of the South como um "road movie" pelos países da América Latina nos quais descobre um grande processo de transformação social, ignorado pelas mídias norte-americana e europeia: a Venezuela de Chávez, em primeiro lugar, mas também a Bolívia de Evo Morales, o Paraguai de Fernando Lugo, o Equador de Rafael Correa, a Argentina de Cristina Kirchner e o Brasil de Luis Inácio Lula da Silva. De maneira meio lateral, entra no elenco a Cuba de Raúl Castro. De acordo com o diretor, existe um enorme preconceito em relação a essa leva de presidentes de origem popular na América Latina, Chávez em especial. "O que me moveu a fazer esse filme foi o espanto diante da hostilidade gratuita da mídia internacional em relação a Chávez", disse.

Já Tariq Ali vê nessa hostilidade reflexo natural do que ocorre nesses países: "Não há nenhuma dificuldade de entender; esses países têm sido governados há séculos por uma oligarquia. Hoje alijada do poder, essa oligarquia não pode estar contente e faz uma permanente campanha contrária, usando de todos os meios, inclusive os de comunicação. Na Venezuela, 90% da mídia é contra Chávez e no entanto ele foi eleito e continua o preferido da população."

A colaboração entre Tariq Ali e Oliver Stone foi estreita no projeto de Border of the South. Ali escreveu o livro Piratas do Caribe (no Brasil editado pela Record em 2008) sobre essa nova esquerda que tomou o poder em alguns países latino-americanos. Duas coisas chamaram a sua atenção: o fato de esses governantes, eleitos democraticamente, desafiarem os dogmas econômicos de Washington, e a maneira como são representados pela mídia ocidental, sendo que, para o escritor, os fatos estariam estreitamente relacionados. Stone leu o livro e se interessou. Convidou Ali para escrever o roteiro em parceria. E juntos estiveram na visita aos países e nas entrevistas aos chefes de Estado. "A finalidade do filme é dar uma visão alternativa à maneira preconceituosa como esses países e seus governantes são vistos pela mídia internacional", diz Stone.

O filme baseia-se mais no carisma dos personagens que em uma análise mais aprofundada da realidade dos países visitados. Procura o tom familiar e às vezes encontra cenas engraçadas. Como Chávez andando de bicicleta (e levando um tombo) no terreno onde era a casa de sua avó. Ou Evo Morales mascando folhas de coca em companhia de Oliver Stone. Ele explica que é muito diferente da cocaína, ao contrário do que havia sido informado pela Fox News, numa insinuação de que o presidente da Bolívia seria um adicto da droga. Stone explora bastante bem esse tipo de preconceito em relação a chefes de Estado tidos como exóticos, indisciplinados e refratários à ordem econômica mundial.

O interesse do filme reside nesse desvendamento do preconceito e do achincalhe como armas de desqualificação política.

A representação francesa veio reforçada ao Lido, a julgar pelos filmes apresentados ontem em concurso, ambos de alta qualidade: White Material, de Claire Denis, e 36 Vues du Pic Saint Loup, de Jacques Rivette. Persécution, de Patrice Chéreau, já havia sido exibido antes e também fora bem cotado. White Material relata a experiência colonial francesa com Isabelle Huppert como a mulher que tenta salvar sua plantação de café. É intenso, muito bem filmado e Huppert, desde já, pode ser considerada candidata a melhor atriz do festival. Já 36 Vues é a demonstração que de só um mestre como Rivette pode chegar ao sublime pela via da simplicidade.

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