Olhe bem para saber se é verdade

O fantasma da adulteração assombra os trabalhos de fotógrafos renomados

Bill Marsh, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

Que maravilha devem ter sido as primeiras imagens fotográficas para as pessoas do século 19 - a realidade translúcida e inexpugnável de lugares e fatos não filtrada pelo pincel ou pela visão de um artista. E que ótima oportunidade para a manipulação. Não demorou muito para que indivíduos ardilosos descobrissem que, com um pouco de habilidade e de imaginação, o realismo fotográfico podia ser usado para criar realidades forjadas."A real natureza da fotografia era a de registrar fatos", diz Hany Farid, professor de ciência da computação da Universidade de Dartmouth e especialista em investigar falsificações fotográficas. "Você pode pensar que houve um período de graça com relação a essa nova tecnologia", continua. Mas as adulterações começaram quase imediatamente, como colocar a cabeça de Abraham Lincoln no corpo de um político mais pomposo; rearrumar os destroços lúgubres dos campos de batalha da Guerra Civil Americana (1861-1865) para uma melhor composição diante da câmera; e apagar da foto inimigos da área política.Conseguir distinguir registros verdadeiros de imagens de propaganda é sempre uma tarefa espinhosa que pode durar décadas. O caso da chocante fotografia de O Soldado Caindo, do húngaro Robert Capa (1913-1954), feita em1936 durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), recentemente voltou a ser debatido. Trata-se de um soldado das tropas governamentais em seu momento fatal ou a fotografia foi montada? Um pesquisador espanhol examinou o terreno do fundo da imagem e concluiu que não era uma área perto de Cerro Muriano como Capa tinha dito, mas um outro local, a 56 quilômetros dali. Hoje, novamente, há um debate intenso em relação a se a conclusão do pesquisador espanhol prova que a fotografia foi encenada (a dúvida vem sendo levantada pelos críticos desde os anos 1970).Dúvidas também cercaram a fotografia do americano Joe Rosenthal (1911-2006), que ganhou o prêmio Pulitzer, de fuzileiros navais hasteando a bandeira americana em Iwo Jima - e essas dúvidas surgiram a partir de uma conversa ouvida por acaso e mal interpretada, segundo Hal Buell, que escreveu um livro a respeito.A imagem causou sensação ao aparecer em jornais nos Estados Unidos. Quando Joe Rosenthal retornou da frente de guerra, alguém lhe perguntou se a foto tinha sido preparada. O fotógrafo, que não sabia que ela tinha sido publicada, respondeu que sim, mas referindo-se a uma outra, diferente, com os mesmos soldados gritando alvoroçados diante da câmera, a seu pedido.A revista Time elaborou um artigo sobre a alegada montagem que nunca foi publicado, mas os detalhes vazaram e tornaram-se virulentos como costumava ocorrer na época. Segundo Jim Buell, que dirigiu o serviço de fotografia da agência Associated Press, hoje aposentado, embora o filme do evento completo comprove a autenticidade do trabalho de Rosenthal, uma certa controvérsia ainda persiste.Há alguns anos uma outra fotografia famosa foi objeto de uma pequena adulteração, que não conseguiu, porém, tirar o seu impacto. O fotógrafo americano John Paul Filo captou com sua câmera a morte de um estudante da Universidade de Kent State e a reação angustiada de uma jovem que estava no local. Filo ganhou o prêmio Pulitzer pela foto. Mas os editores da revista Life procuraram melhorar a imagem, removendo um poste que aparecia atrás da cabeça da jovem ao lado do corpo. A foto da Life foi publicada mais de uma vez, apesar dos seus protestos, lamentou John Paul Filo. "Essa fotografia continua viva e causando impacto", ele afirma.

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