Oito anos para fazer um almoço em agosto

Sem idealizações, Gianni di Gregorio fala de velhice, respeito e tolerância

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2009 | 00h00

Gianni di Gregorio demorou oito anos para fazer Almoço em Agosto. Oito anos é muito tempo - tempo demais - e, no Festival do Rio do ano passado, em sucessivas conversas com o repórter do Estado, ele dizia sempre a mesma coisa. Veja o trailer de Almoço em AgostoSe o projeto ficou tanto tempo com ele é porque a história, no limite, era muito pessoal, senão realmente autobiográfica. Tão pessoal que ele, além de escrevê-la, resolveu também interpretar e dirigir. Mas, como conta, não foi fácil. "Todos os produtores me diziam sempre a mesma coisa. Um filme sobre velhas. Quem vai se interessar por isso?"Di Gregori perseverou. Roteirista de Camorra, que Matteo Garrone adaptou do romance de Roberto Saviano, ele terminou fazendo seu longa de diretor quando Garrone tomou a peito produzir Almoço em Agosto. O que ocorreu foi inesperado - o filme recebeu o Leoncino, o Leão de Ouro para o melhor filme de diretor estreante, no Festival de Veneza do ano passado. Lançado nos cinemas italianos, o filme que, segundo os produtores, ninguém ia querer ver, foi um grande sucesso de público que, agora, um ano depois, aterrissa nos cinemas do País. Para o espectador brasileiro que acaba de ler a informação - Di Gregorio é o roteirista de Gomorra -, pode parecer estranho que ele faça sua estreia na direção com um filme, ou um tema, tão diverso.Almoço em Agosto conta a história de um sujeito que compartilha apartamento com a mãe, em Roma. Di Gregorio filmou no próprio apartamento em que cuidou da mãe, por muitos anos. O herói, que ele interpreta, deve dinheiro a seu senhorio, que lhe faz uma proposta. Pede-lhe que cuide de sua mãe. No filme, Di Gregorio vira babá da mãe, da mãe do senhorio e de outras idosas. Na realidade, não foi bem assim que as coisas aconteceram. Como ele cuidava da mãe, um vizinho lhe propôs que cuidasse da dele. Di Gregorio não topou, mas, como escritor, a ideia foi estimulante. Ele começou a escrever um roteiro sobre o que poderia ocorrer, se aceitasse a proposta.Há um ano, Silvio Berlusconi estava envolvido em outro escândalo. Queria que a Miss Itália fosse candidata por seu partido. Atualmente, são as denúncias de que pode ter usado fundos públicos para seus prazeres privados, pagando prostitutas para distrair-se (e distrair amigos magistrados e políticos). "Berlusconi é ridículo", dizia Di Gregorio. "Ele quer que nós, italianos, vivamos numa ilha de fantasia. Seu governo celebra a juventude no que tem de mais alienado. E ele não se interessa nem um pouco pelos idosos, talvez porque tenha medo de se refletir neles."O diretor procura não idealizar a velhice. "O idoso merece respeito por sua experiência, mas não vamos exagerar. Vivi com minha mãe, que era uma típica mamma italiana possessiva, e sei que eles podem ser rabugentos, podem infernizar a vida de quem quer que seja. Valeria de Franciscis, que faz a protagonista, foi maravilhosa, mas eu tinha atrizes que se detestavam e faziam de tudo para se prejudicar no set. A filmagem de Almoço em Agosto não foi fácil", destaca o diretor. Talvez por isso, o filme tenha saído tão real, tão verdadeiro. O cinema italiano tem contado histórias críticas, e virulentas - e maravilhosas -, de família. Filmes como Parente É Serpente, de Mario Monicelli, para não falar no clássico Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti. "A família é um tema universal. Falar de sentimentos, também. É o que faço aqui. Esse filme me perseguiu durante oito anos. Saiu melhor do que eu imaginava."Duas coisas lhe interessam, particularmente. O tema da (in)tolerância e a linguagem. "Muitas vezes não é fácil se comunicar com os idosos. Não falo apenas da dificuldade geracional de comunicação, falo da própria língua." Ambos os temas, é verdade que, num outro nível, aparecem em Gomorra. Na Itália, o dialeto napolitano da Camorra era tão particular que o filme de Mattreroi Garrone teve de ser lançado com legendas. "Bem pensado quanto aos temas, mas eu, pelo menos, não precisei de legendas para que o público entendesse minhas mammas." ServiçoAlmoço em Agosto (Pranzo di Ferragosto, Itália/ 2008, 75 min.) - Drama. 12 anos. Cotação: Bom

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