'Ocupação' mostra acervo de raridades da cantora Inezita Barroso

'Ocupação' mostra acervo de raridades da cantora Inezita Barroso

Exposição no Itaú Cultural reúne fotos, gravações e partituras e outros objetos da apresentadora de 'Viola, Minha Viola', que morreu aos 90 anos, em 2015

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2017 | 06h01

Para as gerações mais novas, ficou eternizada a imagem de Inezita Barroso à frente do Viola, Minha Viola, que ela apresentou na TV Cultura desde os anos 1980 e se tornou um dos mais tradicionais programas de música caipira. O mérito é justo, mas a importância de Inezita vai além da telinha. Respeitada apresentadora de rádio e TV, ela foi ainda cantora, instrumentista, atriz, folclorista. Também era formada em biblioteconomia, o que explica as técnicas que ela usou para catalogar e organizar seu acervo durante a vida toda. E o que facilitou, e muito, o trabalho de curadoria da Ocupação Inezita Barroso, que será aberta nesta quarta, 27, às 20h, no Itaú Cultural. Este ano, aliás, as Ocupações são dedicadas às mulheres. 

Inezita morreu poucos dias depois de completar 90 anos, em 2015. “Ela dizia que, com 10 anos, montou uma biblioteca na casa dela e emprestava os livros para as amigas”, conta o violeiro e compositor Paulo Freire, que assina a curadoria da Ocupação com os Núcleos de Música e de Enciclopédia do Itaú Cultural. “Alguns cadernos dela estarão expostos com todos os recortes de jornal. Ela tinha gravações também, tudo escrito certinho. Era uma coisa impecável. O trabalho maior não foi garimpar, foi escolher.” 

Além das gravações e dos cadernos muito bem preservados, outros objetos de Inezita estarão na mostra e ajudarão a contar sua história de vida e carreira, incluindo ainda músicas, vídeos, fotos, prêmios, bilhetes, manuscritos, partituras e instrumentos. O arquivo da artista estava sob os cuidados de sua única filha, Marta Barroso, e do jornalista e produtor musical Aloisio Milani, que trabalhou durante anos com Inezita, como produtor e roteirista do Viola, Minha Viola

Juntamente com a inauguração da exposição, será lançado o site No Gravador de Inezita (www.inezita.com.br), projeto de digitalização de áudios raros da cantora que foi contemplado pelo Rumos Itaú Cultural 2015-2016. Encontrados em 39 fitas, esses áudios trazem registros de entrevistas, apresentações históricas, cópias de discos preferidos, feitos, principalmente, entre os anos 1950 e 1960. 

A Ocupação Inezita Barroso foi projetada em quatro partes, que acabam reconstituindo sua trajetória de forma cronológica. A primeira, Eu Me Agarro na Viola, é voltada à infância e adolescência da artista. “Você começa a ver a formação de Inezita, ela cantando diversos estilos. Histórias e fotos da infância dela. Ela tocando violão, viola, aprendendo com os caipiras nas fazendas”, diz Paulo Freire, que conviveu com Inezita. “Ela é de família tradicional paulista, os pais a colocaram em aula de piano quando era criança, mas ela via uma tia aprendendo violão, passou a gostar, até que começou a ir para fazenda, via os colonos com as folias de reis, com as congadas, e teve uma paixão por isso.” 

Segue-se, então, para a segunda parte da exposição, Inezita em Todos os Cantos, que mostra o período em que a artista alcançou o auge de seu sucesso e sua popularidade na música, no rádio e no cinema, sobretudo nos anos 1950. Os primeiros discos, as gravações históricas de músicas como Moda da Pinga, a estreia como atriz no filme Angela.

“Ela tinha um cunhado, irmão do marido, que era ator do TBC, então ela começou a conviver com o pessoal do TBC. Ela frequentava essas reuniões e sempre davam um violão para ela cantar. Nisso, um produtor da Vera Cruz a viu cantar, ficou impressionado e a chamou para fazer um teste no cinema. Então, ela tocava violão nos filmes, cantava e era linda”, diz o curador. “Era muito diferente uma atriz de cinema cantar Marvada Pinga, com 30 anos e em 1950. Ela nunca levantou nenhuma bandeira de feminismo, mas uma mulher nessa época, cantando essas músicas... E ela sempre foi muito firme em suas posições, sabia o que queria e lutava por essa música folclórica.”

A terceira fase, O Brasil de Inezita Barroso, localiza a história da artista nas décadas de 1960 e 1970, período em que ela se recolheu, ficou longe da mídia e se dedicou a suas pesquisas pelo Brasil, “para se aprofundar mais ainda na cultura popular, para gravar alguns discos totalmente relacionados a isso, ela ficou meio que afastada da TV”, conta Paulo Freire. 

Já a quarta e última parte da Ocupação, batizada de Inezita Apresenta, deve mexer com a memória afetiva do público: faz homenagem à apresentadora Inezita, que comandou o Viola, Minha Viola por três décadas, com vídeos, fotos e depoimentos. Uma fase importante na vida de Inezita, mas não a única. “A maioria das pessoas tem a ideia da Inezita como uma cantora caipira, do Viola, Minha Viola, mas ela vai muito além disso”, reforça o curador – que, do vasto acervo em exposição, destaca pequenas preciosidades para quem é fã da artista, como o violão com assinaturas de nomes como Juscelino Kubitschek e Luiz Gonzaga, ou mesmo o troféu Roquette Pinto de ouro (ela foi eleita melhor cantora durante sete anos). 

Paralelamente à Ocupação, haverá dois shows em tributo a Inezita, de Ceumar, com sua convidada Renata Mattar, na quinta-feira, 28, e de Roberto Corrêa na sexta, 29, ambos às 20h, além do encontro Navegando Pela Enciclopédia: Inezita Barroso, em 11 de outubro, às 20h, conduzido pelos núcleos de Enciclopédia e de Música, com os convidados Paulo Freire, Aloisio Milani e Alexandre Pavan. 

Itaú Cultural. Av. Paulista, 149, tel. 2168-1776/ 1777. Abertura 4ª (27), às 20h. 3ª a 6ª, das 9h às 20h; sáb., dom., e fer., das 11h às 20h. Grátis. Até 5/11.

 

Tudo o que sabemos sobre:
Inezita BarrosoItaú Cultural

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

  • Stan Lee: todas as 29 aparições nos filmes da Marvel
  • Projeta Brasil do Cinemark apresenta filmes brasileiros por apenas R$ 4
  • Glória Maria faz cirurgia para remover lesão cerebral e passa bem
  • MIS abre novo lote para exposição imersiva de Da Vinci 
  • Mônica San Galo lamenta morte de Jesus Sangalo: 'pode-se morrer de mágoa'

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.