Óbvio escurece A Noite do Barqueiro

Olhar distanciado do diretor Samir Yazbek poderia ter ajudado a ver excessos do tom sentencioso e frases moldadas por clichês

Mariangela Alves de Lima, O Estadao de S.Paulo

23 de janeiro de 2009 | 00h00

Na vasta e indefinida nebulosa denominada modernidade, uma das constantes é a perspectiva de que a arte é, entre outras coisas, expressão da subjetividade. Seja qual for a linguagem ou a decisão formal de um artista, o que se manifesta é alguma coisa tão singular quanto o indivíduo que a produziu. Em consequência desse pressuposto, o artista não precisa ter ideias novas e tampouco oferecer ao público instrumentos críticos para compreender o mundo por meio da arte. Nada o livra, contudo, da tarefa de tramar ideias correntes ou sentimentos usuais de um modo ao mesmo tempo singular e estimulante para poder provocar o diálogo imaginário com os outros sujeitos colocados diante da obra. A Noite do Barqueiro, peça de Samir Yazbeck, deixa de cumprir este último corolário ditado, na verdade, pelo comezinho senso comum. Se alguém tem a dizer alguma coisa que quase toda gente já pensa ou pensou um dia é o modo de dizer que justiça a partilha pública desse pensamento.A formalização surpreendente, contudo, está ausente desse texto que pretende a abrangência universalista ao falar sobre a inquietude humana de um modo geral. E é como trama simbólica, e, portanto, como artefato idealizado para referir-se a um determinado sentimento do mundo que o monólogo do homem que parte em uma viagem solitária e sem destino não ultrapassa o resmungo banal. Inteiramente despido de variáveis circunstanciais - não há informações históricas, psicológicas ou de qualquer outra ordem agregadas à personagem -, resta a esse viajante declarar todos os pensamentos e sentimentos que o motivaram a trocar o conhecido pelo desconhecido, a calmaria da vida cotidiana pela aventura de rodopiar no mar. A progressão dessa travessia, que tanto pode ser psicológica quanto filosófica em razão da alternância de estados emotivos e declarações reflexivas, segue também o desenvolvimento linear e previsível das narrativas míticas de peregrinações: jornada acidentada, terrores do lugar desconhecido e pacificação final por meio do autoconhecimento. Não há, assim, nada para desviar a atenção da banalidade conceitual e estilística de elocuções como esta: "Sonho, realidade? / Quem vai me responder o que preciso saber? / Eu preciso me saber!" E tampouco um motivo aparente para que a jornada individual se torne, a certa altura, uma pregação niilista flexionada na segunda pessoa do plural: "Estamos pagando algum pecado?" Por alguma razão, o peregrino abandona a metáfora da jornada interior para tornar-se de modo mais visível o "Homem". Em dois momentos distintos do texto, o viajante amaldiçoa a condição humana e essas vituperações são de constrangedora pobreza literária. Soam como as versões degradas dos textos bíblicos que os profetas de hoje repetem nas praças da cidade e parece estranho terem sido escritas, sem nenhuma ironia aparente, por um dramaturgo familiarizado com os textos bíblicos e com a poesia culta. No espetáculo, o diretor Samir Yazbek atrapalha em vez de ajudar o dramaturgo Samir Yazbek. Uma pitada do sal da autocrítica ou o olhar distanciado de um diretor que assume o ponto de vista da plateia poderiam ter ajudado a perceber os trechos redundantes ou as frases moldadas sobre clichês. Em vez disso, a direção leva a ferro e fogo o tom sentencioso e o ritmo solene que deveriam alçar a aventura espiritual a um patamar mais elevado de representação. Dispensando inteiramente a solidez do mundo material, a encenação identifica a insubstancialidade das agonias espirituais a luzes coloridas, gelo seco ao contorcionismo físico que, para desvincular-se do natural, associa asas angelicais a braços abertos, momentos de lucidez explícita a feixes de luz focados sobre o intérprete. Ao todo, a direção colabora para enfatizar obviedades que talvez permanecessem discretas em espetáculo mais sóbrio, pelo menos uma oitava abaixo do grandiloquente.Como protagonista solitário, Hélio Cícero não escapa de mimetizar as figuras da peça. Voa como anjo, rema, oscila com o vento e rasteja tal qual feras de fábula na selva do desconhecido. Cumpre com a disciplina de intérprete competente e experiente aquilo que é exigido pela direção do espetáculo. Quem acompanhou a sua trajetória no teatro paulistano reconhece na último cena, quase na despedida, a faísca do ator excepcional. Ao desvencilhar-se do estilo sublime, sem nenhuma afetação, a personagem do barqueiro preenche a cena por alguns segundos com a promessa de uma comunicação vital. O espetáculo, entretanto, terminou. ServiçoA Noite do Barqueiro. 60 min. 14 anos. Sesc Ipiranga (200 lug.). Rua Bom Pastor, 822, 3340-2000. Sáb., 20 h; dom., 18 h. R$ 5 a R$ 15. Até 15/2

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