Fabrice Coffrini/AFP
Fabrice Coffrini/AFP

Obras roubadas por nazistas desafiam museu suíço

Instituição localizada em Berna vai fazer investigação profunda sobre a origem das peças doadas pelo marchand Georges Keller

Redação, AFP

06 Janeiro 2019 | 19h19

Quando Georges Keller começou a doar quadros de grandes mestres, como Henri Matisse e Salvador Dalí, para o museu Kunstmuseum, de Berna, na Suíça, ninguém questionava sua reputação.

Esse cidadão franco-suíço-brasileiro era um marchand de arte respeitado que doou 116 obras ao museu entre os anos 1950 e 1981.

Contudo, há alguns meses, o diretor do Kunstmuseum encarregado de verificar a procedência das obras deparou com um documento que relaciona Keller a Etienne Bignou, um francês marchand de arte, que negociou com os alemães durante a ocupação de Paris.

Não é a primeira vez que o museu de Berna é associado a obras que teriam sido roubadas pelos nazistas. O Kuntsmuseum herdou centenas de obras de Cornelius Gurlitt, morto em 2014, cujo pai, Hilderbrand, foi encarregado pelos nazistas de vender obras de arte roubadas ou confiscadas de judeus. O caso causou comoção e ainda está sendo investigado para tentar achar os proprietários legítimos do patrimônio de Gurlitt.

Ainda assim, ele reabriu o debate sobre a neutralidade da Suíça na 2.ª Guerra. “Há um antes e um depois do caso Gurlitt”, afirmou a diretora do museu, Nina Zimmer. “É tarefa do museu descobrir de onde vêm as coleções e dar respostas.” 

Keller e Bignou trabalharam em Paris na galeria de Georges Petit, especializada nos pintores impressionistas, até seu fechamento, em 1933. Etienne Bignou abriu, mais tarde, a própria galeria na capital francesa, associado com Keller. 

Segundo Amelie Ebbinghaus, pesquisadora do banco de dados Art Loss Register, existem documentos do Estado francês e das Potências Aliadas indicando que Bignou negociava com compradores alemães em Paris e era considerado, à época, colaborador dos nazistas. “Isso não quer dizer que as obras são de fontes duvidosas, mas não podemos descartar isso.”

Nina Zimmer admitiu ter dúvidas sobre Keller antes de as revelações sobre Etienne Bignou virem à tona, pois nenhuma de suas doações a museus suíços tinha documentação. 

O museu de Berna pediu verbas para realizar uma investigação profunda sobre as doações de Keller e o governo vai investir nisso. Isso denota uma mudança de atitude em um país outrora ambíguo acerca de obras roubadas pelos nazistas. / AFP

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