Obras e casa com afrescos de Fulvio Pennacchi vão a leilão

Artista, morto há 30 anos, assinou afrescos e telas que unem a tradição humanista do Quattrocento italiano aos modernos

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S.Paulo

Morto há 30 anos, o pintor de origem italiana Fulvio Pennacchi (1905-1992) foi uma presença extraordinária na arte brasileira, nem sempre reconhecido como deveria. Por ser religioso e casado com uma Matarazzo, dona Filomena Maria, sua pintura foi vista como obra de um artesão piedoso que se apropriou da técnica e temas de um Masaccio e trouxe para a modernidade a limpeza formal dos afrescos do Quattrocento italiano. 

O pintor Fulvio Pennacchi trabalhando em uma de suas obras Foto: James Lisboa Leilao de Arte

Da ponte que criou entre arcaicos e modernos, reconhecida como uma edificação vigorosa por críticos como Walter Zanini, ficou o alicerce e a lembrança de ter sido próximo do grupo Santa Helena, ocupando o ateliê que foi de seu amigo Rebolo. Agora, com o leilão da casa que construiu para morar com Filomena Matarazzo e todas as obras que nela Pennacchi guardava, a nova geração vai ter a oportunidade de conhecer o trabalho de um artista que, autodidata na técnica do afresco, criou exemplos magníficos que rivalizam com os dos grandes mestres. E, eventualmente, comprar um deles.

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Obra do pintor italiano Fulvio Pennachi Foto: Paula Campoy

Lances

Os preços são módicos para um artista do porte de Pennacchi. No grande leilão promovido por James Lisboa entre 6 e 9 de junho (com transmissão pelo canal Arte 1), um afresco como Anunciação (lote 14), reproduzido no livro que Pietro Bardi publicou sobre ele, está à venda por R$ 85 mil. Outro afresco, Natividade (lote 171) tem o lance inicial fixado em R$ 20 mil. Das 229 pinturas e 160 cerâmicas colocadas no leilão, as obras variam entre R$ 2 mil e R$ 100 mil (lance inicial). A Casa Rossa, de 1948, está à venda por R$ 50 milhões – e, se vale uma sugestão, o governo italiano bem poderia comprar o imóvel para lá instalar um centro cultural, incorporando os afrescos pintados pelo próprio Pennacchi, que decorou paredes, móveis e objetos da mansão no Jardim Europa.

Cozinha da casa em que viveu Fulvio Pennacchi e sua família. Foto:

A casa ocupa uma área de 686 m² num terreno de 2.756 m². Os 15 afrescos que lá foram pintados podem ou não ser comprados com a casa. O ateliê do artista está praticamente intocado desde sua morte, abrigando suas últimas obras inacabadas – daí a importância de alguma instituição cultural comprar o imóvel. O casal Fulvio Pennacchi e Filomena Maria teve oito filhos, mas os herdeiros decidiram em comum acordo vender tanto o imóvel como as obras. “É um acervo de grande valor artístico e histórico, guardado por mais de 65 anos pelo pintor, que projetou e construiu a casa”, lembra o leiloeiro James Lisboa, concluindo: “A casa, o lote número 1, é o testemunho da luta de um imigrante que venceu no Brasil”.

Obra do pintor italiano Fulvio Pennachi Foto: Paula Campoy

Exílio

Não é demais acrescentar, Pennacchi deixou sua terra natal em 1929, em plena crise, resultado do crash da Bolsa de Nova York, fugindo também do fascismo que se instalava na Itália. O desemprego em massa e a falência de várias empresas apresentou o cenário perfeito para a ascensão de Mussolini. O jovem Pennacchi, com 24 anos, tentou de tudo em São Paulo: foi açougueiro, publicitário e professor, mas não renegou seu passado artístico, produzindo, dos anos 1930 em diante, programas para peças teatrais, afrescos para casas de famílias tradicionais (Botti, Cerqueira Leite, Lunardelli) e principalmente, para templos, cujo exemplo mais conhecido é o da Igreja Nossa Senhora da Paz, no bairro do Glicério, entre a Liberdade e o Brás.

Sala da casa em que viveu Fulvio Pennacchi e sua família. Foto: Romulo Fialdini

A igreja guarda aquele que é considerado o melhor conjunto de afrescos produzidos no Brasil. O templo, construído em estilo românico, tem instalado no altar-mor três grandes afrescos, um deles com o Cristo crucificado (6 metros de altura) e dois com cenas marianas – Pennacchi, protofeminista, sempre deu atenção às mulheres e colocou a Virgem no altar-mor. Detalhe: a modernidade de Pennacchi não se traduziu apenas pela simplificação formal de santos e anjos, mas pela humanização de figuras sagradas, a exemplo de Caravaggio, que adotou como modelos de suas composições sacras o homem das ruas. Essa característica iria marcar sua produção de afrescos em residências e instituições privadas depois de 1945, quando casou com dona Filomena e ergueu essa obra monumental agora em leilão.

Fachada da casa em que viveu Fulvio Pennacchi Foto:

 

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Obras e casa com afrescos de Fulvio Pennacchi vão a leilão

Artista, morto há 30 anos, assinou afrescos e telas que unem a tradição humanista do Quattrocento italiano aos modernos

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S.Paulo

Morto há 30 anos, o pintor de origem italiana Fulvio Pennacchi (1905-1992) foi uma presença extraordinária na arte brasileira, nem sempre reconhecido como deveria. Por ser religioso e casado com uma Matarazzo, dona Filomena Maria, sua pintura foi vista como obra de um artesão piedoso que se apropriou da técnica e temas de um Masaccio e trouxe para a modernidade a limpeza formal dos afrescos do Quattrocento italiano. 

O pintor Fulvio Pennacchi trabalhando em uma de suas obras Foto: James Lisboa Leilao de Arte

Da ponte que criou entre arcaicos e modernos, reconhecida como uma edificação vigorosa por críticos como Walter Zanini, ficou o alicerce e a lembrança de ter sido próximo do grupo Santa Helena, ocupando o ateliê que foi de seu amigo Rebolo. Agora, com o leilão da casa que construiu para morar com Filomena Matarazzo e todas as obras que nela Pennacchi guardava, a nova geração vai ter a oportunidade de conhecer o trabalho de um artista que, autodidata na técnica do afresco, criou exemplos magníficos que rivalizam com os dos grandes mestres. E, eventualmente, comprar um deles.

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Os preços são módicos para um artista do porte de Pennacchi. No grande leilão promovido por James Lisboa entre 6 e 9 de junho (com transmissão pelo canal Arte 1), um afresco como Anunciação (lote 14), reproduzido no livro que Pietro Bardi publicou sobre ele, está à venda por R$ 85 mil. Outro afresco, Natividade (lote 171) tem o lance inicial fixado em R$ 20 mil. Das 229 pinturas e 160 cerâmicas colocadas no leilão, as obras variam entre R$ 2 mil e R$ 100 mil (lance inicial). A Casa Rossa, de 1948, está à venda por R$ 50 milhões – e, se vale uma sugestão, o governo italiano bem poderia comprar o imóvel para lá instalar um centro cultural, incorporando os afrescos pintados pelo próprio Pennacchi, que decorou paredes, móveis e objetos da mansão no Jardim Europa.

Cozinha da casa em que viveu Fulvio Pennacchi e sua família. Foto:

A casa ocupa uma área de 686 m² num terreno de 2.756 m². Os 15 afrescos que lá foram pintados podem ou não ser comprados com a casa. O ateliê do artista está praticamente intocado desde sua morte, abrigando suas últimas obras inacabadas – daí a importância de alguma instituição cultural comprar o imóvel. O casal Fulvio Pennacchi e Filomena Maria teve oito filhos, mas os herdeiros decidiram em comum acordo vender tanto o imóvel como as obras. “É um acervo de grande valor artístico e histórico, guardado por mais de 65 anos pelo pintor, que projetou e construiu a casa”, lembra o leiloeiro James Lisboa, concluindo: “A casa, o lote número 1, é o testemunho da luta de um imigrante que venceu no Brasil”.

Obra do pintor italiano Fulvio Pennachi Foto: Paula Campoy

Exílio

Não é demais acrescentar, Pennacchi deixou sua terra natal em 1929, em plena crise, resultado do crash da Bolsa de Nova York, fugindo também do fascismo que se instalava na Itália. O desemprego em massa e a falência de várias empresas apresentou o cenário perfeito para a ascensão de Mussolini. O jovem Pennacchi, com 24 anos, tentou de tudo em São Paulo: foi açougueiro, publicitário e professor, mas não renegou seu passado artístico, produzindo, dos anos 1930 em diante, programas para peças teatrais, afrescos para casas de famílias tradicionais (Botti, Cerqueira Leite, Lunardelli) e principalmente, para templos, cujo exemplo mais conhecido é o da Igreja Nossa Senhora da Paz, no bairro do Glicério, entre a Liberdade e o Brás.

Sala da casa em que viveu Fulvio Pennacchi e sua família. Foto: Romulo Fialdini

A igreja guarda aquele que é considerado o melhor conjunto de afrescos produzidos no Brasil. O templo, construído em estilo românico, tem instalado no altar-mor três grandes afrescos, um deles com o Cristo crucificado (6 metros de altura) e dois com cenas marianas – Pennacchi, protofeminista, sempre deu atenção às mulheres e colocou a Virgem no altar-mor. Detalhe: a modernidade de Pennacchi não se traduziu apenas pela simplificação formal de santos e anjos, mas pela humanização de figuras sagradas, a exemplo de Caravaggio, que adotou como modelos de suas composições sacras o homem das ruas. Essa característica iria marcar sua produção de afrescos em residências e instituições privadas depois de 1945, quando casou com dona Filomena e ergueu essa obra monumental agora em leilão.

Fachada da casa em que viveu Fulvio Pennacchi Foto:

 

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