James Lisboa Leilao de Arte
James Lisboa Leilao de Arte

Obras e casa com afrescos de Fulvio Pennacchi vão a leilão

Artista, morto há 30 anos, assinou afrescos e telas que unem a tradição humanista do Quattrocento italiano aos modernos

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2022 | 05h00

Morto há 30 anos, o pintor de origem italiana Fulvio Pennacchi (1905-1992) foi uma presença extraordinária na arte brasileira, nem sempre reconhecido como deveria. Por ser religioso e casado com uma Matarazzo, dona Filomena Maria, sua pintura foi vista como obra de um artesão piedoso que se apropriou da técnica e temas de um Masaccio e trouxe para a modernidade a limpeza formal dos afrescos do Quattrocento italiano. 

Da ponte que criou entre arcaicos e modernos, reconhecida como uma edificação vigorosa por críticos como Walter Zanini, ficou o alicerce e a lembrança de ter sido próximo do grupo Santa Helena, ocupando o ateliê que foi de seu amigo Rebolo. Agora, com o leilão da casa que construiu para morar com Filomena Matarazzo e todas as obras que nela Pennacchi guardava, a nova geração vai ter a oportunidade de conhecer o trabalho de um artista que, autodidata na técnica do afresco, criou exemplos magníficos que rivalizam com os dos grandes mestres. E, eventualmente, comprar um deles.

Lances

Os preços são módicos para um artista do porte de Pennacchi. No grande leilão promovido por James Lisboa entre 6 e 9 de junho (com transmissão pelo canal Arte 1), um afresco como Anunciação (lote 14), reproduzido no livro que Pietro Bardi publicou sobre ele, está à venda por R$ 85 mil. Outro afresco, Natividade (lote 171) tem o lance inicial fixado em R$ 20 mil. Das 229 pinturas e 160 cerâmicas colocadas no leilão, as obras variam entre R$ 2 mil e R$ 100 mil (lance inicial). A Casa Rossa, de 1948, está à venda por R$ 50 milhões – e, se vale uma sugestão, o governo italiano bem poderia comprar o imóvel para lá instalar um centro cultural, incorporando os afrescos pintados pelo próprio Pennacchi, que decorou paredes, móveis e objetos da mansão no Jardim Europa.

A casa ocupa uma área de 686 m² num terreno de 2.756 m². Os 15 afrescos que lá foram pintados podem ou não ser comprados com a casa. O ateliê do artista está praticamente intocado desde sua morte, abrigando suas últimas obras inacabadas – daí a importância de alguma instituição cultural comprar o imóvel. O casal Fulvio Pennacchi e Filomena Maria teve oito filhos, mas os herdeiros decidiram em comum acordo vender tanto o imóvel como as obras. “É um acervo de grande valor artístico e histórico, guardado por mais de 65 anos pelo pintor, que projetou e construiu a casa”, lembra o leiloeiro James Lisboa, concluindo: “A casa, o lote número 1, é o testemunho da luta de um imigrante que venceu no Brasil”.

Exílio

Não é demais acrescentar, Pennacchi deixou sua terra natal em 1929, em plena crise, resultado do crash da Bolsa de Nova York, fugindo também do fascismo que se instalava na Itália. O desemprego em massa e a falência de várias empresas apresentou o cenário perfeito para a ascensão de Mussolini. O jovem Pennacchi, com 24 anos, tentou de tudo em São Paulo: foi açougueiro, publicitário e professor, mas não renegou seu passado artístico, produzindo, dos anos 1930 em diante, programas para peças teatrais, afrescos para casas de famílias tradicionais (Botti, Cerqueira Leite, Lunardelli) e principalmente, para templos, cujo exemplo mais conhecido é o da Igreja Nossa Senhora da Paz, no bairro do Glicério, entre a Liberdade e o Brás.

A igreja guarda aquele que é considerado o melhor conjunto de afrescos produzidos no Brasil. O templo, construído em estilo românico, tem instalado no altar-mor três grandes afrescos, um deles com o Cristo crucificado (6 metros de altura) e dois com cenas marianas – Pennacchi, protofeminista, sempre deu atenção às mulheres e colocou a Virgem no altar-mor. Detalhe: a modernidade de Pennacchi não se traduziu apenas pela simplificação formal de santos e anjos, mas pela humanização de figuras sagradas, a exemplo de Caravaggio, que adotou como modelos de suas composições sacras o homem das ruas. Essa característica iria marcar sua produção de afrescos em residências e instituições privadas depois de 1945, quando casou com dona Filomena e ergueu essa obra monumental agora em leilão.

 

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