Instituto Volpi
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Obras de 80 artistas brasileiros vão a leilão em prol da caridade

Alfredo Volpi, Tarsila do Amaral, Lasar Segall e Rubem Valentim são alguns dos artistas com trabalhos no leilão Grandes Coleções

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2019 | 06h00

O pintor ítalo-brasileiro Alfredo Volpi (1896-1988) acolheu 19 crianças adotadas em sua residência, no Cambuci. Como forma de preservar não apenas seu legado cultural, mas a memória dele enquanto ser humano, o Instituto Volpi apoia o Projeto Felicidade, uma instituição de caridade que atende crianças carentes com câncer. Para levantar fundos para essa organização, o presidente do Instituto Volpi, Pedro Mastrobuono, organizou o leilão Grandes Coleções, que reúne quase 200 obras de 80 dos artistas mais relevantes do Brasil, como Tarsila do Amaral, Lasar Segall, Rubem Valentim e, é claro, o próprio Volpi.

O Projeto Felicidade foi criado em 2001 pelo rabino Shabsi Alpern, da entidade beneficente Beit Chabad Brasil. “O Projeto Felicidade sempre funcionou, por 18 anos, com base na Lei Rouanet. E a lei vem sendo demonizada de uma maneira avassaladora. Então a captação, mesmo de projetos dignos e premiados, como esse, ficou muito prejudicada”, lamenta Pedro Mastrobuono, em entrevista ao Estado

Entre outros benefícios, a iniciativa promove atividades culturais para as crianças carentes em tratamento de câncer, e oferece a elas a oportunidade de ter contato com a arte. Todas as semanas, médicos e assistentes sociais encaminham 14 pacientes infantis de diversos lugares para a instituição, que é sediada em São Paulo. As crianças são levadas a centros culturais como o Masp, o MAM e o Memorial da América Latina, sendo que muitas delas nunca haviam visto uma obra de arte antes. Além das visitas a museus, o Projeto Felicidade estimula as crianças a produzirem peças de artesanato com oficinas e também oferece cursos de capacitação profissional, marcenaria e informática para os pais. 

O presidente do Instituto Volpi, Pedro Mastrobuono, conta que começou a pensar em alternativas viáveis para auxiliar o projeto a se manter financeiramente há mais de um ano. “Por ser filho de colecionadores e ter todo um trânsito nesse cenário, tive uma ideia de visitar coleções de pessoas na faixa dos 80 anos, porque elas passam a circular menos, têm um dinamismo menor, então suas obras ficam sedentárias”, relata Mastrobuono. “Muitas vezes, as gerações mais novas não têm o mesmo interesse pelas obras. As grandes coleções acabam se tornando um fardo na hora da sucessão. Nos Estados Unidos, uma pessoa com um patrimônio grande que vai deixar isso para a família tem isenções gigantes se doar obras de arte para os museus. Por isso que você vê lá fora museus que eram coleções privadas e acabam se tornando coleções públicas.”

O leilão não é exatamente beneficente, pois as obras não são doadas, mas também não é convencional, pois 20% do valor dos itens – estimados em R$ 40 milhões – serão destinados ao Projeto Felicidade. “É muito difícil incentivar a caridade no Brasil. Por isso, fizemos toda essa engenharia para criar um modelo em que a pessoa esteja fazendo algo em benefício próprio, pois está comprando uma obra de arte que passou por um processo curatorial, e ainda estará fazendo uma benemerência.” 

Esse processo curatorial de fato foi bastante criterioso. Há trabalhos importantíssimos, como Judeu com Livro de Orações, um retrato de um rabino em vestes religiosas pintado por Lasar Segall. “É muito raro, porque foi pintado em 1925, apenas três anos depois da Semana de Arte Moderna de 1922. Mas ele foi repintado, o rosto da figura era diferente e o contexto no fundo era outro. Nos anos 1950, ele deu as feições fisionômicas do próprio pai, que era ‘sofer’, um escriba da Torá. Esse quadro é um documento da evolução do Modernismo e um registro da imigração judaica no Brasil”, explica ele sobre a obra que ficou guardada em uma coleção privada por 45 anos e é um de seus trabalhos religiosos mais relevantes.

Há, entre as peças, uma tapeçaria de Genaro de Carvalho encomendada para ficar no gabinete de Juscelino Kubitschek, com cinco metros de largura, duas obras de Ismael Nery que não eram expostas ao público havia cerca de meio século e vários trabalhos de Alfredo Volpi, incluindo uma Fachada produzida no início da década de 1950. Esse trabalho específico é importante dentro do conjunto da obra do pintor, porque marca a transição do uso do ponto de fuga para a perspectiva clássica em sua carreira. “Esse quadro estava em uma família havia muitos anos, nunca participou de nenhuma exposição em museus. É praticamente inédito, de tão pouco que circulou”, diz Mastrobuono. “Fui atrás de peças importantes, raras e há muito tempo fora de circulação.”

O resultado dessa garimpagem de obras de arte poderá ser visto pelo público em uma exposição no Salão Marc Chagall do Clube Hebraica (Rua Hungria, 1.000) entre os dias 6 e 10 de novembro. Já o leilão Grandes Coleções ocorre em 11 de novembro, às 20h, no Teatro Anne Frank, também no Clube Hebraica.

Leonilson é destaque do leilão

Roupa de Homem, um bordado de José Leonilson, não é exatamente uma obra que circulou pouco, como outros itens do leilão Grandes Coleções. A obra esteve presente em diversas exposições entre 1993, ano seguinte ao de sua confecção, e 2015, quando esteve na 10.ª Bienal do Mercosul, no Margs, em Porto Alegre. 

“Segundo diversos críticos, essa é considerada a mais importante peça dentro do conjunto da obra do artista”, afirma ao Estado Pedro Mastrobuono, que também é conselheiro do Projeto Leonilson, sobre Roupa de Homem. Esse bordado produzido em linha sobre tecido de algodão xadrez já foi exposto em museus de cidades como Madri e Vigo, na Espanha, Bogotá, na Colômbia, e Istambul, na Turquia.

“A família do Leonilson nunca vendeu essa obra e nunca nem cogitou vender”, conta Mastrobuono, que conseguiu convencê-los a incluir a peça no leilão graças ao caráter beneficente desse evento, como forma de contribuir com a caridade. “Quando a notícia de que essa obra estaria à venda, a família do artista chegou a receber propostas de galerias privadas para retirar a peça do leilão”, acrescenta ele.

O leilão conta ao todo com seis trabalhos de Leonilson. Além da já mencionada Roupa de Homem, há também uma gravura – uma edição póstuma da serigrafia Solitário Inconformado –, uma escultura – Escada, peça em bronze de uma tiragem de 100 – e três pinturas não intituladas que demonstram a variedade de materiais com os quais o pintor trabalhava: a primeira, de 1980, em aquarela, guache, nanquim e lápis de cor sobre papel reciclado; a segunda, de 1984, em tinta acrílica e tinta metálica sobre veludo; e a terceira, em tinta acrílica sobre recortes de jornal, produzida em 1985. 

Além das peças presentes no leilão, outras obras do artista estarão em exposição em São Paulo. A mostra Leonilson por Antonio Dias, que passou recentemente pelo Rio de Janeiro, será inaugurada no sábado, 9, na galeria Pinakotheke Cultural (Rua Ministro Nelson Hungria, 200). A exposição, que vai até 14 de dezembro, conta com 38 obras de Leonilson que estavam no acervo de Antonio Dias (1944-2018), artista que ele conheceu na Itália, em 1981, e com quem manteve amizade até o fim da vida.

Pintor, desenhista e escultor cearense, Leonilson (1957-1993)foi um dos principais expoentes da arte brasileira nos anos 1980, mas morreu precocemente, vitimado pela aids, com apenas 36 anos.

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