Obragem de coluna

"Eu tenho obrado em sua cabeça nesses últimos dias, venho obrando, obrando, obrando em sua cabeça. Para que alguma graxa possa melhorar seus neurônios!"Fernando Collor de Mello, ex-presidente e senador da RepúblicaGraças a Fernando Collor, os jornais foram forçados a retornar ao português castiço no intuito de explicar às pessoas sem biografia - o cidadão comum que não tem dinheiro, sofisticação ou cargo elevado - o sentido do insulto (citado acima) que o fero aliado do governo Lula (não tanto do PT, eu ainda presumo) dirigiu ao jornalista da revista Veja, Roberto Pompeu de Toledo.Obrar, na língua com a qual nos comunicamos e, sem saber, construímos o mundo, é o resultado de uma ação ou trabalho. Os dicionários registram vários sentidos para o ato de agir sobre nós mesmos, as pessoas e os objetos que nos cercam enquanto seres vivos; pois os mortos estão mortos precisamente porque deixam de obrar e, se continuam realizando alguma coisa, é por meio simbólico: através da obra e da memória que deixaram.A "obra" é o resultado de nossas vidas: de tudo o que fazemos (inclusive do não fazer que é um importantíssimo fazer) enquanto sujeitos dotados de vontade, autonomia e discernimento - todos relativos. Mas além desses significados abrangentes e contemporâneos, obrar significa também defecar, sujar, borrar e cagar. Ou seja, na língua portuguesa, há uma relação intestina entre obrar como produzir, trabalhar, operar, agir, surtir efeito, causar e realizar; e o aparentemente humilde (mas imperativo e velho) ato de cagar. O primeiro, dependendo da obragem, distingue; o segundo, compassivamente, por meio de um corpo que não deixa mentir, iguala o trivial imbecil ao sábio mais sofisticado.Graças ao senador e ex-presidente Collor, temos na magnífica paisagem de nossa vida política contemporânea essa edificante redescoberta do "obrar como cagar". Quer dizer, ao lado desse belo panorama que vai do apoio fraterno a caudilhos; passa pela falsificação grosseira de biografias; chega aos decretos secretos de um parlamento parlapatão que legisla secretamente em causa própria; passa por agressões verbais que desonram prostíbulos; reafirmam um narcisismo digno dos maiores neuróticos de Freud; e atingem seu ponto culminante no eterno retorno à tranquilidade do Senado como um velho clube campestre ou como um incrível jogo de futebol, onde o gol contra é aplaudido porque nossos representantes odeiam as regras que valem para todos, há também a equação entre bosta e obra.Ouvi de velhos nordestinos, nortistas e de sertanejos esse obrar como sinônimo de defecar. No atual momento, penso que não há maior contribuição para a democracia liberal e para a autoestima cidadã dos obreiros comuns, gente de obra regular e normal, pagadores compulsórios e honestos dos impostos sem biografia ou dona das 400 gravatas e dos 200 ternos comprados com o nosso dinheiro, ou que têm financiamento da Petrobrás e quejandos, do que ser forçado a redescobrir que - grosso modo - obrar é mesmo a maior característica da elite política nacional.Nada mais gratificante do que desvendar a relação culta, intestina e profunda entre o ato de defecar e o de produzir, esse verbo inscrito nos anais da modernidade. Estilo de vida baseado justamente no obrar, agir, fabricar, executar e urdir, sobretudo quando isso nos chega por meio de um ataque a um jornalista probo e é dito pela boca de um dos membros de uma ilustre galeria de "supremos magistrados da nação", de ex-mandatários da administração federal; de supostos orientadores da moralidade do País como ex-presidentes da República. Superpessoas que, pelo cargo exclusivo e singular que ocuparam, merecem respeito e admiração. Agora, porém, não temos mais nenhuma desculpa. Sabemos bem como a nossa língua realiza o elo entre a merda e a obra.Caberia aos weberianos (se é que ainda exista quem leia Weber no Brasil), aprofundar esse elo entre obrar e defecar contido nesse verbo que vem (como afirma o Aurélio) do "operare" latino; e (como indica o Houaiss) foi dicionarizado no século 13. Haveria um laço profundo entre bostar e fabricar; e o velho e conhecido par trabalho e castigo? Poder-se-ia arguir que o fazer latrinal significa que ainda não realizamos a transição para a tal modernidade que tanto buscamos, como nos ensina com agressiva propriedade e arguta sabedoria o ex-presidente Collor?Se o moderno é construído pelo obrar como um incessante fabricar; bem como pelo trabalho como chamado e vocação e não como castigo (que seria coisa para gente comum e escravos); como ficamos quando somos forçados a descobrir que, na nossa construção de mundo, a merda tem tudo a ver com o fabricar e o trabalho está ligado ao tripalium (um instrumento de tortura) e assim ao castigo condizente com a escravidão que mal acabamos de acabar?Eis aí, em péssima sociologia, algo que faz parte de nossa visão de mundo que o senador Collor contribuiu para esclarecer, do mesmo modo que dois dos seus colegas, nestes tempos ricos de vocabulário e teórica política de lavatório, lembraram. Refiro-me ao coronel (de merda) e ao cangaceiro (de terceira) que - quem ainda não tinha certeza mais absoluta - permeiam, muito mais do que povoam, o sistema político nacional.

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