Obra surge distante do realismo mágico

Personagens assistem desolados à vida no ambiente urbano

Ana Cecilia Olmos, O Estadao de S.Paulo

27 de junho de 2009 | 00h00

Quando numa entrevista, em 1992, perguntaram a Onetti se alguma vez pensou em escrever suas memórias, sua resposta foi categórica: "Nunca. Só me interessei por inventar, por escrever." Ao aliar a escrita à invenção ficcional, a resposta exibe o âmago de sua obra literária, mais preocupada em explorar, de forma sutil e constante, as possibilidades do ato de narrar, que em registrar a experiência ou descrever o mundo. Com efeito, do romance de estreia, O Poço (1939), ao último dos seus livros, Cuando Ja No Importe (1993), passando por títulos-chave como A Vida Breve (1950) e O Estaleiro (1961), e um número importante de contos, a obra literária do escritor uruguaio desdobra um universo narrativo que exacerba sua condição ficcional ao se assumir como pura invenção e se libertar, com desenvoltura e até certo descaro, da tirania do registro e da descrição, sem renunciar, no entanto, a uma indagação lúcida da existência do homem e da realidade do mundo que, por vezes, atinge expressões de uma concretude impiedosa. Afastada do meticuloso realismo regionalista que dominou a literatura hispano-americana até os anos 40, assim como dos seus temas, ligados à luta do homem contra a natureza e as injustiças sociais, a narrativa de Onetti irrompe, por esses anos, com uma singular modernidade, instaurando de forma definitiva na prosa ficcional em língua espanhola temas urbanos e perspectivas narrativas subjetivas, de marcado caráter existencial. Pelas suas páginas desfilam narradores e personagens que assistem desolados ao espetáculo degradado de suas vidas, as quais, esvaziadas de sentido, esmaecem na esterilidade das convenções sociais e da rotina das cidades. Permeados de ceticismo, eles sabem, com uma lucidez que beira a crueldade, da humilhação dos seus sonhos, porém, não cessam de inventar vidas imaginárias para si mesmos como formas de evasão compensatória. Assim, para Eladio Linacero, o narrador de O Poço, as aventuras que forja nas horas de devaneios lhe oferecem as certezas de um mundo controlado pelo arbítrio da imaginação que ele pode contrapor ao imprevisível acontecer da vida, semeada de fracassos e desencontros. Por sua vez, Juan Maria Brausen, o protagonista de A Vida Breve, inventa a cidade de Santa Maria para povoá-la, aos poucos, com diversos personagens cujas existências, ainda que se figurem tão absurdas quanto a própria, lhe oferecem uma nova chance no exato momento em que sua vida começava a ser "um sorriso torto" e apenas lhe restava a aceitação fatalista da solidão e da tristeza. Também é o caso de Larsen que, na cidade imaginária de Santa Maria, empreende a aventura de organizar um prostíbulo perfeito e o projeto de recuperar um estaleiro em ruínas, sempre consciente do caráter ilusório dessas empresas e do inevitável fracasso. Apesar do desencanto, esses narradores e personagens não abandonam suas projeções imaginárias, pelo contrário, alimentam essas ficções com a lucidez descarnada de quem sabe que, para além delas, "não há mais do que o inverno, a velhice, o não ter aonde ir, a própria possibilidade da morte". Noutras palavras, eles colocam essa pulsão ficcional no cerne de suas existências e, como desencantados demiurgos, criam mundos paralelos onde o real se confunde com o imaginário, persuadidos, talvez, da impossibilidade da vida fora da ficção. Imersa nessa atmosfera onírica dos devaneios, a narrativa de Onetti apaga os limites do real e do irreal e, nesse sentido, filia-se de forma singular ao gênero fantástico. Porém, ela não se entrega à especulação em torno de realidades alternativas à maneira dos jogos ficcionais de Borges, e também não cede diante do gesto lúdico desse modelo narrativo que, como nos contos de Cortázar, instaura perspectivas inéditas para iluminar aspectos ignorados da realidade. Mais próxima do sórdido universo narrativo de Roberto Arlt, a obra de Onetti prefere não renunciar totalmente a uma verossimilhança realista que, ávida de detalhes concretos, lhe permita dar conta da absoluta imanência da vida. Esse peculiar modo de explorar as possibilidades da ficção singularizou sua obra inclusive nos anos 60, no contexto do boom latino-americano. De fato, sua narrativa resistiu às metáforas macondianas do realismo mágico que, apesar de sua eficácia estética, ameaçavam absolutizar o lugar da alteridade cultural em um enigmático exotismo impossível de ser apreendido pelos parâmetros da razão. Quando o realismo mágico impôs a dimensão mítica como modelo fundador da literatura do continente, a narrativa de Onetti já estava aí para preservar a potência de negatividade da ficção e corroer as certezas de qualquer relato de origem. Como explica o crítico inglês Frank Kermode, o mito supõe explicações totais e adequadas das coisas tal como elas foram e são, e ganham sentido com relação a uma ordem temporal perdida que congela a imagem da origem; a ficção, pelo contrário, assume conscientemente sua condição de invenção e sabe que sua validade é relativa porque diz respeito a uma temporalidade contemporânea, o aqui e agora do presente. Nesse sentido, ainda que a narrativa de Onetti possa representar simbolicamente as dissonâncias da modernidade descentrada e tardia da América Latina, como sugere Vargas Llosa, sua potência crítica não reside nessa possibilidade de leitura. Longe de oferecer uma simbologia que forneça uma explicação inteligível da identidade cultural do continente, a narrativa de Onetti nos provoca com uma série exasperada de ficções perturbadoras que evidenciam a impossibilidade de um sentido estável e definitivo para a existência e o mundo. Nesse traço reside a potência de negatividade de Onetti. Quanto mais exacerba a invenção ficcional, mais ela consegue exibir o vazio de sentido que domina o acontecer da vida e do mundo, sem oferecer, por certo, paliativo algum ao desamparo da condição humana, porque ela sabe, como diz Eladio Linacero, que "tudo é inútil e deve-se ter a coragem de não usar pretextos". Ana Cecilia Olmos é professora de Literatura Hispano-Americana da USP

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