RAFAEL ARBEX/ESTADÃO
RAFAEL ARBEX/ESTADÃO

Obra do artista Bruno Faria passeia pela arte brasileira por meio de LPs

Capas de discos concebidas por criadores como Hélio Oiticica e Regina Vater estarão em instalação do recifense

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

19 Julho 2015 | 10h00

Estava na Paraíba o disco A Peleja do Diabo com o Dono do Céu (1979), de Zé Ramalho, que o artista Bruno Faria tanto queria. “Foi difícil encontrá-lo com o encarte em boas condições”, diz o recifense, de 33 anos, residente em São Paulo. Mais do que nas músicas, ele estava interessado, na verdade, na capa e no ensaio fotográfico do álbum que, curiosamente, traz o músico ao lado de personalidades como o cineasta Zé do Caixão, a atriz Xuxa Lopes e o pintor e escultor Hélio Oiticica (1937-1980) vestindo um de seus parangolés – neste caso, uma capa azul simbolizando “a antiarte por excelência”.

Desde A Peleja do Diabo, adquirido por R$ 90 pela internet, Bruno Faria já colecionou 110 discos de MPB – e sua ideia é chegar a 150 LPs. O acervo de raridades vai configurar sua mais nova instalação, Introdução à História da Arte Brasileira 1960/90, a ser exibida a partir de setembro na Galeria Sancovsky, localizada na Praça Benedito Calixto, 103, no bairro de Pinheiros. “O trabalho parte da convergência entre as artes visuais e a música, mas também cria um jogo com esse título”, diz o artista. De uma forma inteligente, sua obra de raiz conceitual promove abertura para distintas abordagens.

Em termos de mercado, por exemplo, o álbum de Zé Ramalho com o parangolé de Oiticica (também autor da capa de Legal, de Gal Costa, de 1970) já se tornou tão emblemático de uma época de experimentação artística no Brasil a ponto de um colecionador norte-americano ter comprado um exemplar do disco por cerca de US$ 500, conta a galerista Jaqueline Martins. Representante da artista Regina Vater, que criou a capa de Calabar, de Chico Buarque, a marchande afirma que a Tate, de Londres, está interessada em adquirir um exemplar desse histórico trabalho para a coleção do museu britânico (leia mais abaixo).

Entretanto, esse é apenas um dos temas trazidos à tona por Introdução à História da Arte Brasileira 1960/90. Assim como o Museu de Arte Moderna do Rio exibe, atualmente, as capas de Rogério Duarte para LPs de João Gilberto, entre outros, a pesquisa de Bruno Faria elege, principalmente, “a questão da visualidade de cada época”, como diz Douglas de Freitas, curador da exposição DentroFora, da qual o projeto do artista faz parte. “Gastei até agora uns R$ 12 mil comprando os discos”, conta o recifense, que recebeu verba da galeria para a aquisição das peças.

Da história das artes, sua instalação passará pelo concretismo/neoconcretismo através do “disco-objeto” Transa (1972), de Caetano Veloso; pelo Movimento Armorial com os encartes do Quinteto Armorial que trazem xilogravuras de Samico; pela explosão da pintura na década de 80; e pela arte de Arthur Bispo do Rosário, esquizofrênico-paranóico que criou suas obras na Colônia Juliano Moreira. Há também outra janela, a da história do Brasil com citações à censura e ao estouro da aids.

Outra curiosidade da obra é o resgate de uma prática específica nas artes gráficas. “Para o vinil, tínhamos uma área de 30 X 30 cm; o CD não tem graça nenhuma para o artista gráfico”, afirma Guto Lacaz. Sumidade no campo, ele concebeu obras referenciais como a capa de O Melhor dos Iguais, do Premê. Já Alex Flemming criou, em 1985, o encarte do álbum e o logo da banda RPM, um dos maiores sucessos da época. “Foi uma experiência única, mesmo que não tenha ganhado nada de dinheiro com ela”, lembra.

Marco da censura, ‘Calabar’ era pichação do nome de um traidor

O disco Calabar (1973), de Chico Buarque, merece capítulo à parte. “Essa capa foi censurada. Só existe uma prova de gráfica dela”, conta a artista Regina Vater, criadora do encarte do histórico álbum que traz a trilha sonora da peça escrita pelo músico e pelo cineasta e poeta Ruy Guerra. “Logo que a fiz, ganhei um prêmio e me mudei para os Estados Unidos. Soube lá que a capa do Calabar tinha sido censurada quando um amigo me mostrou a (revista) Veja”, lembra a carioca, que voltou a viver no Brasil.

“Foi um dos discos mais difíceis de encontrar”, diz o artista Bruno Faria, que considera essa obra das mais surpreendentes de sua pesquisa sobre a iconografia dos LPs brasileiros.

Na época, Regina Vater morava em São Paulo quando Ruy Guerra a convidou a realizar a capa do álbum. Como a artista destaca, ela havia acabado de realizar uma mostra com sua série dos Nós, de grande repercussão.

A criadora rememora que falava mais com Guerra sobre o trabalho. “Só vi o Chico (Buarque) bem depois de fazer uma espécie de rascunho. Fui ao lugar onde queria fazer a imagem para o Calabar e o fotografei para ver se eles aprovavam.” Na ocasião, ela encontrou o compositor no Rio. “Ele era muito tímido; me disse: ‘Muito obrigado pelo retrato’”, diverte-se.

A peça e o disco, inspirados na história de Domingos Fernandes Calabar, senhor de engenho que se aliou aos holandeses durante a invasão holandesa ao Brasil, colônia de Portugal, são considerados marcos da censura no regime militar. “Como Calabar foi um traidor, minha ideia foi pichar um muro no Bexiga com seu nome”, explica a artista. Mais ainda, ela fez, no Rio, uma fotografia de uma grande família fazendo um “piquenique no asfalto” para o interior do álbum. “A classe média brasileira estava anestesiada.”

Regina Vater conta, curiosamente, que, antes de Calabar, ela havia realizado uma aquarela que seria utilizada na capa do também histórico LP Tropicalia, de 1968. “O desenho era o corpo de uma mulher sem cabeça numa paisagem tropical, como fazia na época, uma coisa bem sensual.” A gravadora, entretanto, preferiu usar o projeto do artista Rubens Gerchman para o álbum. “Fiquei tão decepcionada”, ela afirma.

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