Simões de Assis Galeria de Arte
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Obra de Niobe Xandó se consagra com obras raras em exposição

Pintora que morreu em 2010 é homenageada com 50 trabalhos feitos entre 1960 e 1992

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2019 | 16h00

Foi preciso que o grande pintor baiano Rubem Valentim, hoje presente nas principais coleções do País, alertasse o Brasil que aqui morava uma pintora tão importante como Paul Klee. Aliás, uma comparação pertinente, considerando que Klee foi também um artista que buscou conjugar o arcaico e o moderno numa construção pictórica que não desprezou o valor do sagrado. Na exposição retrospectiva de Niobe Xandó, organizada na sede paulistana da Galeria Simões de Assis, com 50 obras realizadas entre 1960 e 1992, essa aproximação com Paul Klee fica ainda mais evidente, conferindo à obra de Niobe uma dimensão universal, a despeito de sua verdadeira aversão a rótulos e nichos.

A exposição é uma prova da dificuldade de definir ou encaixar Niobe em movimentos. A exemplo de Klee, ela foi experimental e dialogou com artistas renomados e anônimos – e é conveniente lembrar que o pintor de origem suíça foi pioneiro no diálogo com a arte de pacientes mentais e crianças, ao visitar a pequena galeria do doutor Morgenthaler (Waldau, perto de Berna), em 1912. Foi seu ponto de partida para a descoberta das máscaras e da arte “infantil”, que Klee desenvolveu em obras como Príncipe Negro (1927), que dialoga com a tela sem título de Niobe, reproduzida acima (as máscaras em fundo preto, óleo não datado).

O seu “primitivismo” não é folclórico, como lembrou o filósofo e amigo Vilém Flusser, num texto para o Estado, em 1971. Flusser disse que a obra de Niobe tem como proposta tornar visível a “beleza antropomórfica e perigosa” dessas “máscaras” que têm pouco de africanas e são mais projeções de nosso interior, arcaico e contemporâneo ao mesmo tempo.

Também como Klee, Niobe criou flores fantásticas em que revela a estrutura interior dessas plantas como se desvendasse o mistério de seu hibridismo. Passou pelo abstracionismo geométrico, a colagem, a reprografia em cores, o grafismo e o abstracionismo lírico, retornando à figura no período final. Todas essas passagens estão bem representadas na mostra, que vem apresentada pela curadora María Iñigo Clavo. 

Niobe Xandó e os Rolling Stones

A serigrafia Black Power por pouco não virou capa de um disco dos Rolling Stones, segundo o marchand Guilherme Simões de Assis. Ele conta que, ao visitar a exposição de Niobe Xandó na Galeria Walton, em Londres, em 1969, o produtor da banda se encantou com a série criada pela artista, máscaras que ostentam uma cabeleira ‘black power’, em moda na época. “Só que ele exigia a cessão perpétua de direitos de imagem e Niobe simplesmente recusou”, conta o marchand. 

Fez bem. Ela retomaria o tema do visual da geração hippie em serigrafias e telas dos anos 1970 e 1980, desafiando o código de conduta burguês ao levar para a tela o afrolook como um novo padrão de beleza. Na época, o crítico Conroy Maddox, da Art Review, disse que Niobe pintava a “expressão pré-histórica do país”, destacando sua economia visual e síntese composicional. O francês Claude Arsène Vallet, no mesmo ano, 1969, concluiu que ela confrontava o “calor exótico da religião com a frieza das construções mecânicas modernas”.

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