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Obra de Niemeyer em Leipzig mostra que, na arquitetura, a morte nem sempre é fatal

Morto em 2012 aos 104 anos, Oscar Niemeyer terá obra inaugurada na cidade alemã este ano

Redação, The Economist

16 de junho de 2020 | 09h23

Em Plagwitz, o antigo bairro industrial de Leipzig, Ludwig Koehne encontra-se no meio de uma esfera gigante projetada por Oscar Niemeyer em 2011, um ano antes da morte do arquiteto brasileiro aos 104 anos. O convés superior abobadado e parcialmente envidraçado da esfera deve ser inaugurado ainda este ano como um restaurante, e sua parte inferior mais aconchegante como bar. "Eu queria uma fidelidade póstuma ao design original", diz Koehne, um empresário alemão. "O prédio precisava ter a assinatura do mestre." 

A esfera Niemeyer, como Koehne a chama, fica posicionada em uma torre estreita de apoio à beira de um prédio de dois andares que abriga o refeitório de suas duas empresas, Kirow Ardelt, que fabrica guindastes, e HeiterBlick, fabricante de bondes. A cúpula lisa e branca brilhante contrasta com os desgastados tijolos angulares em tom de carmesim profundo - resultado de um elaborado esforço de construção envolvendo Jair Valera, chefe de longa data do escritório de Niemeyer no Rio, e os engenheiros estruturais e arquitetos no local, reunidos por Koehne na Alemanha.

Juntamente com um projeto no sul da França, este será o último trabalho de Niemeyer, o precursor de curvas arquitetônicas sensuais que complementavam os implacáveis cubos do modernismo. A conclusão da esfera é um tributo a sua visão - mas também destaca a natureza colaborativa de sua profissão e a noção escorregadia de autenticidade. Sempre é preciso mais do que um único gênio para criar um belo edifício, razão pela qual, no mundo da arquitetura, a morte nem sempre é fatal. 

O longo hiato entre a morte de Niemeyer e a inauguração da esfera não é algo inédito. O edifício IBM em Chicago, projetado por Mies van der Rohe, foi concluído dois anos depois de sua morte. Para a igreja de Le Corbusier em Firminy, na França, a diferença foi de 41 anos.

Por mais excepcionais que esses casos póstumos pareçam, o trabalho em equipe que eles exigem é rotineiro. "A maioria dos edifícios é o produto de muito trabalho não reconhecido", diz Donald McNeill, da Universidade de Sydney, que pesquisou os métodos de empresas globais de arquitetura. Ele vê o foco popular nos principais arquitetos como uma simplificação do trabalho pela mídia e pelos profissionais de marketing. Grandes projetos, diz ele, são "o resultado do trabalho de designers, engenheiros e até dos clientes".

E, frequentemente, outros arquitetos. Rem Koolhaas, um arquiteto holandês, observou o papel dos profissionais americanos que nos anos 1950 ajudaram os grandes nomes da Europa a construir arranha-céus lendários em Nova York. Emery Roth cooperou com Walter Gropius no prédio da MetLife, Philip Johnson auxiliou van der Rohe no prédio da Seagram, e Wallace Harrison supervisionou o trabalho de Le Corbusier (e Niemeyer) no projeto para a sede da ONU. 

O próprio Koolhaas colaborou com Ole Scheeren na sede da China Central Television em Pequim. O conhecido Gherkin (pepino, inglês) em Londres é geralmente atribuído ao lorde Norman Foster, mas Ken Shuttleworth desenhou os esboços iniciais. "Há uma diferença real entre como a arquitetura opera e como é percebida", comenta Hilde Heynen, da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica. 

No caso da esfera de Leipzig, a história começou em 2007, quando Koehne visitou Brasília e ficou impressionado com os projetos de Niemeyer para a residência presidencial (Palácio da Alvorada) , que foi concluída em 1960, e a catedral da cidade, concluída em 1970. Quatro anos depois, meditando sobre a ideia de um restaurante - Koehne escreveu para Niemeyer e foi convidado a ir para o Rio de Janeiro. Não demorou muito e ele recebeu um e-mail com esboços, elevações laterais e seções transversais. "Estava tudo lá, a torre como uma haste de sustentação, a esfera com dois níveis - exatamente como está aqui agora."

Mas "a física do design era insana", pensou Koehne. "Como vamos construir isso?" Foram necessários mais dois anos para encontrar os engenheiros estruturais certos e vários outros para obter um progresso significativo. Nesse meio tempo, Niemeyer morreu. Felizmente, Valera estava prontamente disponível e queria terminar o projeto. "Eu conhecia Oscar muito bem", diz ele. “Isso facilitou para mim saber o que ele teria feito” - o que, lembra Valera, sempre incluía ouvir o cliente. Sua participação não diminui a autenticidade do edifício, ele insiste: "Esta é uma obra de arquitetura de Oscar Niemeyer - foi ideia dele". / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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