Obra continua a produzir modelos

Lévi-Strauss é representante maior de geração marcada pela sensação de desencanto e pela crítica aos modelos históricos

Lilia Moritz Schwarcz, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2008 | 00h00

Nos anos 1950 e 60 o estruturalismo invadiu o território francês como voga impiedosa. O modelo representava não só uma nova maneira de se acercar da teoria - mais atenta às reiterações do que às mudanças -, como conferia renovada importância ao estatuto do simbólico. A escola anunciava o fim do sujeito, a recusa de uma história voluntarista e o fim do primado da razão ocidental. Atingia, assim, o existencialismo de Sartre, até porque o impacto da descoberta de novos povos e filosofias prometia a morte do indivíduo como categoria universal.O próprio período andava marcado pela sensação de desencanto. E toda geração fazia a crítica à nossa história, por oposição a outras formas de historicidades. Na linha de frente estavam novos líderes intelectuais que partiam - cada um à sua maneira - de diversas áreas disciplinares: a psicanálise de Jacques Lacan, a teoria literária de Ronald Barthes, a filosofia de Michel Foucault e a etnologia de Claude Lévi-Strauss. Esses eram "os quatro mosqueteiros estruturalistas" das charges de época, a quem se juntaria ainda outro: Louis Althusser. Deles todos, apenas Lévi-Strauss está - bem - vivo, e sua importância se expressa numa obra seminal, que continua a produzir teorias e modelos.É por conta dessa capacidade de criar oportunidades interpretativas que Lévi-Strauss foi eleito o maior intelectual francês em vida. Afinal, esboça-se a partir dos livros do etnólogo uma teoria geral da cultura, onde entravam em questão o lugar, o estatuto e o papel do simbolismo na vida social. É fato que uma primeira articulação teórica entre simbolismo e estrutura social já havia sido proposta pelo sociólogo E. Durkheim, no fim do século 19, sobretudo a partir da análise do fenômeno religioso. Nos ensaios do sociólogo ficava evidente como a religião não só refletia aspectos da sociedade, como produzia uma representação de ordem mais geral. O suposto era que a vida social seria feita essencialmente de representações coletivas, e que o social surgia sempre permeado pelo simbolismo. Também Marcel Mauss em seu Ensaio Sobre a Dádiva mostrava como o mundo social impunha-se a partir de regras de reciprocidade: dar é receber, mas também retribuir. Aí estariam categorias de entendimento que se exprimiriam privilegiadamente no plano simbólico da cultura. Mas se foi Durkheim quem mostrou a "eficácia social das formas simbólicas", coube a Lévi-Strauss explorar "a eficácia simbólica na vida social". Nos sistemas totêmicos, no universo da mitologia, nas práticas xamânicas, expressava-se um universo amplo de formas estruturais. Em seu esforço para compreender o mundo, o homem disporia de um excedente de significação e o projeto estrutural implicaria articular esse universo de possibilidades simbólicas. É por isso que o mundo do simbolismo é sempre diverso em seu conteúdo, mas limitado por suas leis: existem muitas línguas, mas são muito poucas as leis fonológicas a classificá-las. Da mesma maneira, se uma antologia de mitos conformaria uma coletânea de vários volumes, esses poderiam ser reduzidos a pequeno número de títulos, se o critério a organizá-los fossem as reduzidas leis estruturais.A inspiração viria da lingüística de Saussure e de Roman Jakobson, que nos anos 1940 anunciaram novos procedimentos formais e teóricos. Segundo a lingüística estrutural, um signo só teria sentido a partir da relação que apresentaria com os demais elementos da estrutura, e em conjunto. O método preconizado era agora sincrônico, uma vez que as estruturas pré-existiriam aos usos que delas poderiam ser feitos. Por fim, as estruturas constituiriam fenômenos sociais que se afirmariam à revelia do próprio sujeito. Aí estaria a noção de inconsciente estrutural presente na obra de Lévi-Strauss; a idéia de "estrutura narrativa profunda" de Greimas; a "epistéme" em Foucault. Os mitos falam entre si, afirmaria Lévi-Strauss anos mais tarde, levando seu leitor a pensar em estruturas anteriores, que se articulam para além do voluntarismo do próprio indivíduo. A produção de Lévi-Strauss é gigantesca em sua abrangência e percorre diferentes domínios - o simbolismo, o parentesco, o totemismo, as classificações. É, portanto, melhor homenagear a obra "em seu conjunto", para ficarmos com os termos de Deleuze. Nesse caso, o mais fundamental talvez seja tomar a antropologia que faz Lévi-Strauss, no sentido estrito do termo, e afirmar que é com Lévi-Strauss que se inaugura um verdadeiro diálogo com o pensamento primitivo. Aí está uma "ciência do observado", em que o objeto e sujeito da representação estão definitivamente em questão e embaralhados. Não à toa a obra do etnólogo logo se afirmou como um "novo humanismo"; uma boa janela para entender a alteridade entre povos e culturas. Objeto e sujeito da representação, eis a especificidade das ciências humanas e da antropologia de Lévi-Strauss. A disciplina possibilitaria prever um processo ilimitado de objetivações e de subjetivações do sujeito, e explorar como as sociedades que existem ou existiram na superfície da terra são humanas, e nessa qualidade nós dela participamos de maneira igualmente subjetiva.Mas é preciso reconhecer que o etnólogo criou um linguajar e uma teoria que não são óbvias ou fáceis de compreender. Conhecido por sua verve afiada, certa vez Lévi-Strauss se contrapôs à explicação totêmica do antropólogo Bronislaw Malinowski. Diferente do colega, que justificou a importância dos totens animais a partir da sua capacidade alimentar, o etnólogo belga, em O Pensamento Selvagem, declinou: "Os totens são melhores para pensar do que para comer." Fazendo um paralelo desavisado, pode-se dizer que também o pensamento do etnólogo francês "é melhor para fazer pensar do que para digerir". O estruturalismo de Lévi-Strauss se parece com a estrutura mítica proposta pelo autor; ou seja, um mito continua a ser acionado enquanto a contradição que o criou se mantiver presente. De maneira semelhante, a obra desse intelectual francês, longe de ver suas potencialidades analíticas esgotadas, continua produzindo uma enormidade de versões.E dizer que o grande mentor de tal perspectiva sempre desfez da abrangência do movimento que lidera há mais de 50 anos. Lévi-Strauss nunca se cansou de desdenhar do estruturalismo, comentando que essa era "uma moda francesa que se renovava de cinco em cinco anos". A essas alturas já vão muitos cincos... Lilia Moritz Schwarcz, professora do Departamento de Antropologia da USP, é autora de O Sol do Brasil: Nicolas-Antoine Taunay

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