Objeto fílmico não-identificado

FilmeFobia, de Kiko Goifman, causa polêmica e espanto entre críticos e espectadores do Cine Brasília

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

21 de novembro de 2008 | 00h00

Na apresentação de FilmeFobia no Cine Brasília, o diretor Kiko Goifman disse: "Tem gente classificando o nosso filme de documentário. Acho ótimo. Mas, se fosse documentário, eu o Jean Claude teríamos de sair daqui presos." O Jean-Claude é Jean-Claude Bernardet, um dos principais teóricos de cinema do País (autor dos clássicos Brasil em Tempo de Cinema e Cineastas e Imagens do Povo), e que faz aqui seu début como protagonista. A frase de Kiko deve ser levada ao pé da letra. Se não fosse tudo (ou quase tudo) encenação, o que se vê no filme seria caso de polícia. Jean-Claude faz o diretor Jean-Claude, em busca da única imagem verdadeira -- aquela de um fóbico diante de sua fobia. Vêem-se então fóbicos (reais ou imaginários?) colocados diante dos objetos de suas fobias: a mulher com medo de cobras, o que não suporta o mar, o que tem pavor de ratos, a mulher que sente pânico diante da possibilidade de uma penetração, etc. Os "fóbicos" são manipulados através de técnicas elaboradas, que os imobilizam e os fazem experienciar o limite do seu medo. Ao mesmo tempo, o espectador sabe que tudo é um filme que está sendo feito, do qual se assistem as filmagens e discussões da equipe nos intervalos. Quem mais reflete sobre tudo é o falso (?) diretor Jean-Claude, que discute com o verdadeiro (?) diretor Kiko Goifman - no filme desempenhando o papel de um fóbico entre outros. A fobia de Goifman é pelo sangue e ele conta que isso o atrapalha na vida real, na forma de superproteção ao filho pequeno. Um projeto dessa natureza não teria outro destino que não o de provocar perplexidade. E foi o que aconteceu no Cine Brasília. Houve uma debandada pequena em relação ao que se poderia esperar. Os que ficaram se dividiram de maneira equânime: vaias espetaculares de um lado, aplausos sinceros de outro. Nas vans que levavam os convidados de volta ao hotel, reinava um silêncio obsequioso em relação ao que se acabara de ver. Ou brincadeiras reparadoras. Por exemplo, entre apreciadores de futebol, dizia-se que a atual fobia de todos chama-se São Paulo Futebol Clube. A um exibidor se disse que a fobia dele seria exibir aquele filme em suas salas durante um mês. A mesma coisa no restaurante do Hotel Nacional. Falou-se sobre outros assuntos, da política à sempre duvidosa culinária do hotel, tudo para evitar uma conversa a sério sobre esse objeto cinematográfico não-identificado. É que sobre um "objeto" desse tipo só se podem formular hipóteses e estas pouco têm a ver com as intenções dos seus criadores. Num momento (e num festival específico) em que se discutem os limites entre ficção e documentário, FilmeFobia cai como luva - ou como pedra no meio do caminho, como no poema de Drummond. Não é ficção "pura", pois os personagens guardam grande proximidade com os seus intérpretes. Nem documentário, pois não é da "realidade" ou da "verdade" que trata, mas sim da sua interpretação, ou da sua "construção", para usar um termo psicanalítico. Fala-se de fobias ficcionais para melhor falar de fobias reais, assim como o poeta de Fernando Pessoa é aquele fingidor que finge sentir a dor que deveras sente? Ou, por outro lado, tudo não passa de exercício de autoficção? Ou seja, aquele procedimento em que me coloco como objeto de invenção e falo de mim em terceira pessoa, como de um sujeito externo, mas que guarda íntima relação comigo mesmo? A não ser que a própria fobia seja uma metáfora de tudo isso - já que, numa época de banalização das imagens, o "cineasta" Jean-Claude busca a única imagem verdadeira, a do fóbico diante da sua fobia? Enfim, é um filme de interrogações, o que não chega a ser um mal. Pelo contrário. CURTASOs curtas exibidos até agora são de nível médio. A Mulher Biônica, de Armando Praça (CE) aposta no carisma da personagem principal, vivida pela atriz Ceronha Pontes, que faz mulher irritável e agressiva que se apazigua ao encontrar-se sexualmente de maneira inusitada. Que Cavação É Essa?, de Estevão Garcia e Luís Rocha Melo (RJ), é uma interessante paródia sobre o cinema dos primórdios, dito "de cavação", documentários feitos sob encomenda. Engraçado às vezes, poderia ter ido mais fundo na idéia excelente. Cidade Vazia, de Cássio Pereira dos Santos (DF), aborda a morte de maneira lateral com a história de adolescente inconformada. Aqui, a sutileza talvez sido em demasia. Nº 27, de Marcelo Lordello (PE), mostra o apuro (real) de um estudante. Instigante até certo ponto, afrouxa-se um pouco no final. A seleção ainda deixa a desejar. O repórter viajou a convite da organização do festival

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