''Objetivo principal é didático'', diz Roberto Minczuk

Assim o maestro explica a escolha do tema da edição deste ano, que tem obras inspiradas em grandes livros e autores

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

04 de julho de 2008 | 00h00

Em 2004, Haydn; no ano seguinte, a música das Américas; em 2006, a vez dos russos; e, no ano passado, uma homenagem à mulher. Desde que assumiu o Festival de Inverno de Campos do Jordão, o maestro Roberto Minczuk aplicou a prática de escolher um tema para cada edição. ''Nosso objetivo era evitar que a enorme quantidade de concertos ficasse dispersa, sem um fio condutor que guiasse os artistas'', diz o maestro. Para ele, todos saem ganhando - os músicos, que têm a oportunidade de pensar programas diferentes e às vezes inusitados; e o público, que, pelo filtro do tema, aprendem enquanto ouve.Foi com esse objetivo, diz, que escolheu para este ano o tema Música e Literatura. ''Ele é mais do que apropriado. Grande parte do repertório sinfônico é baseado em obras literárias, para não falar da música de câmara, da música vocal, da ópera. Além disso, não podemos esquecer que a primeira função do festival é acadêmica, de formação de artistas. Quando ouvimos uma música inspirada em um livro, de certa forma é como se acompanhássemos a leitura que o compositor fez daquelas palavras, o que escolhe de mais importante ao recriá-las em sons. Isso oferece um olhar diferente, mais amplo, sobre o processo de criação artística. Quando se ensina um instrumento, não se trata apenas de técnica. A interpretação também é fundamental, saber o que é a obra, do que se trata, qual a sua história, sua interpretação. É o que estamos propondo.''Nesse sentido, Minczuk se diz contente com a programação final do festival e, em especial, com o trabalho da Orquestra Acadêmica, um dos seus projetos mais caros desde que assumiu o evento. ''Ter talvez o maior maestro do mundo em Beethoven, que é Kurt Masur, regendo a Nona, sua mais monumental sinfonia, é muito bom, para o público e para os alunos. A Orquestra Acadêmica vai tocar também obras de Carlos Gomes, baseadas em escritores como José de Alencar; um autor novo, o Ripper, com peça inspirada em Machado de Assis; e o Romeu e Julieta de Prokofiev. É um repertório rico, variado, difícil. E enfrentá-lo é uma experiência muito rica, além do contato com os professores e solistas do festival ao longo do mês.''''Da mesma forma, é um luxo ouvir Os Sete Pecados Capitais com o elenco que reunimos, ou ainda ter um músico como o violoncelista Antonio Meneses interpretando o Don Quixote, de Richard Strauss, em concerto ao lado da Orquestra Sinfônica Brasileira. Nessa apresentação, aliás, vamos trabalhar com projeções que evidenciem a relação da música, de cada variação, com os capítulos e cenas principais da obra de Miguel de Cervantes. Além disso, teremos mais de mil artistas passando pelos sete palcos que serão ocupados pelo festival, quinze orquestras sinfônicas, 140 alunos, mais de 50 professores. É um clima muito bom de troca de informações e de aprendizado. Estou muito contente com a programação a que chegamos, em que temos, por exemplo, três óperas, La Traviata, Orfeu e Os Sete Pecados Capitais, que não podiam faltar em um festival que fale da relação entre música e literatura.''Minczuk chega ao seu quinto festival com muito a apresentar em termos de resultados. Nos últimos dias, no entanto, tem circulado pelos jornais a notícia de que seu contrato não será renovado e que este seria, portanto, seu último festival como diretor artístico. E os burburinhos só cresceram com a decisão do maestro John Neschling de deixar a Osesp, abrindo as especulações sobre seu sucessor - vale lembrar que Minczuk esteve sempre no topo da lista de possíveis candidatos. O maestro, no entanto, não quis falar sobre o assunto. ''Quem me conhece sabe que minha vida está voltada para a música, para estudar, reger, ser diretor artístico. Dedico muito pouco tempo a essas questões, não sobra espaço para perder com boatos e fofocas. Meu compromisso com Campos do Jordão é antigo, faz parte de minha história como músico, já que estudei ainda bem jovem no festival. Minha história com São Paulo também é especial e, hoje, a ligação que tenho com a cidade se dá por meio do Festival de Inverno. Até agora, tive o apoio do governador José Serra. Quero continuar trabalhando com a formação de jovens músicos. Um trabalho como esse subentende continuidade, que permite que ele seja aperfeiçoado ano a ano, edição a edição. Isso tem acontecido, conquistamos bons resultados até agora'', diz o maestro. Ele não confirmou nem negou que tenha sido comunicado sobre sua saída. Disse ainda que, quando foi convidado para dirigir o festival, não havia um período específico previsto em contrato. Também não quis falar de John Neschling, Osesp e do processo de seleção do novo diretor do grupo.

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