Obama em quadrinhos

O gibi Presidential Material, biografia em quadrinhos do presidente americano eleito, faz sucesso e gera disputa e onda de biografias de políticos nos EUA

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

07 de janeiro de 2009 | 00h00

O mito do Super-Obama também colou nos quadrinhos. O livro Presidential Material - Barack Obama, biografia em quadrinhos do presidente americano eleito, foi lançado em outubro nos Estados Unidos pela editora IDW e teve sua primeira edição rapidamente esgotada. Está esgotando também a segunda edição, que chegou às lojas no dia 3 de dezembro, agora com um selo presidencial prateado na capa. Nas lojas Midtown Comics de Nova York, os escaninhos que vendem a HQ só têm uma ou outra revista à disposição."A procura pelo álbum de Obama ultrapassou as expectativas por uma larga margem. Embora tenha tido uma edição alentada, está esgotada agora e estamos voltando à gráfica. Isso tem sido muito excitante para nós e estamos deliciados que o álbum tenha conseguido capturar a imaginação do público", comemorou Scott Dunbier, editor de projetos especiais da IDW.O gibi tem um tom patriótico e se baseia nas biografias e entrevistas de Obama e tem texto de Jeff Mariotte, desenhos de Tom Morgan e capa de J. Scott Campbell. Em seu blog, o escritor Jeff Mariotte denunciou, em tom de desabafo, que sua ideia de fazer um gibi sobre Obama tinha sido plagiada por duas outras editoras pequenas.O projeto de Mariotte foi anunciado publicamente na Comic-Con, a convenção de comics, em julho. Depois, ele falou sobre a revistinha na CNN e na Fox News, e detalhou o projeto. Não demorou muito e uma editora menor anunciou projeto idêntico, mas com Hillary Clinton como a biografada, com uma capa exatamente igual à da IDW. Em outubro, outra editora pequena anunciou duas biografias desenhadas de Obama e seu adversário político John McCain. Batizaram os livros de Obama: The Comic Book e McCain: The Comic Book, para assegurar algum tipo de exclusividade."Se a imitação é verdadeiramente uma ?sincera forma de lisonja?, então a IDW tem alguns dos maiores admiradores entre as pequenas editoras de quadrinhos", disse o escritor Mariotte. "O gibi Presidential Material ganhou uma das maiores coberturas de um comic book em anos, algo que somente A Morte do Capitão América conseguiu chegar perto", gabou-se. Jeff Mariotte escreveu mais de 20 romances, incluindo histórias de horror como River Runs Red e Missing White Girl. Também colabora nas séries Supernatural, CSI: Miami, Buffy the Vampire Slayer, Angel, Las Vegas, Conan, 30 Days of Night, Charmed, Star Trek e Andromeda.A histórica começa com a Superterça em que Obama enfrentou nas urnas sua oponente no Partido Democrata, Hillary Clinton. Então, voa para o início de sua história, a infância no Havaí, criado pela mãe, Ann Stanley, após ter sido abandonado pelo pai queniano, Barack Obama. De lá, a história segue para Jacarta, onde ele viveu com a mãe, e onde ela casou com Lolo Soetoro, da Universidade do Havaí.Com a instabilidade política em Jacarta, Ann manda o jovem Obama de volta para o Havaí, onde ele viverá com seus avós e sentirá os primeiros preconceitos de raça. Zombado pelos colegas de classe, que quiseram até saber se seus ancestrais comiam gente na África, Obama se torna um jovem um tanto rebelde, com sua perspectiva de futuro marcada por incerteza e frustração. Um jovem que, na adolescência, vai experimentar "cigarro, álcool, maconha e cocaína", e sente na pele qual é a diferença entre ser branco e ser negro na América.Tudo isso está no gibi. Obama escreveria mais tarde: "Eu escolhi meus amigos cuidadosamente. Os mais ativos estudantes negros. Os estudantes estrangeiros. Os chicanos. Os professores marxistas e as feministas estruturalistas e os poetas que faziam performance de punk rock. Nós fumávamos e vestíamos jaquetas de couro. À noite, nos dormitórios, nós discutíamos neocolonialismo, Frantz Fanon, eurocentrismo, e patriarcalismo. Quando jogávamos bitucas de cigarro no carpete ou elevávamos tão alto o toca-discos que as paredes tremiam, nós estávamos resistindo às convenções da sociedade burguesa. Nós não éramos indiferentes ou temerosos ou inseguros. Nós éramos alienados."Depois da faculdade, um adulto Obama teve de ganhar a vida, e marchou para Chicago, onde trabalhou no Developing Communities Project, organizando demandas sociais. Foi ali que ele conheceu o controverso reverendo Jeremiah Wright, que o levou a integrar a Trinity United Church of Christ.O gibi narra o retorno de Obama ao Quênia, após a morte dos seus pais. Os autores narram essa passagem como um verdadeiro comic book, com Obama tomando sua decisão de combater a desigualdade social como um Fantasma, de Lee Falk, jurando com a caveira na mão que iria devotar sua vida ao combate de toda injustiça.É uma forma leve e romanceada de se apresentar o grande personagem político do momento. Como qualquer outro herói de papel americano, Obama soube construir seu mito com cuidado e até com certa sinceridade. O selo prateado na capa e o tratamento gráfico fazem pensar que isso foi produzido na Casa Branca. Não foi. Mas poderia perfeitamente ter sido.

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