Obama e a mídia

Uma das minhas primeiras lembranças dos tiques do corporativismo profissional vêm da estridente expressão "coleguinha" que ouvi em reuniões sindicais antes mesmo de obter o frívolo diploma de jornalista. Como havia frequentado assembleias de médicos igualmente incensados nos anos finais da ditadura e eles se tratavam, independentemente do mérito, por "colegas", o diminutivo aplicado ao meu ofício era duplamente irritante.Depois de oito anos de absoluto desprezo do governo Republicano pelo papel da imprensa que remexeu o pouco brio que me resta, tenho sentido uma estranha satisfação ao notar que o governo Obama não assinou promissória com a mídia americana.Um dos primeiros salvos foi disparado num comício durante a campanha, quando o candidato Obama comentou, de maneira casual: o eleitor não podia confiar apenas nos canais de notícias de 24 horas para saber o que se passa.Como viciada em notícias, capaz de surfar na internet com a TV e o rádio ligados, concordei imediatamente. A proliferação do ciclo de notícias de 24 horas na TV criou um besteirol embaraçoso e transformou alguns jornalistas em melancólicos vaudevillianos. A economia da indústria não suporta tanta "notícia" e, quando um veículo pioneiro e dominante num território (exemplo: CNN) se vê ameaçado por outro com menos compromisso com critérios editoriais (Fox), o denominador comum começa a despencar.Escrevo ao som do rádio que transmite opiniões díspares sobre a decisão de Barack Obama de tornar-se o primeiro presidente em exercício do mandato a pisar num talk show. Obama apareceu na quinta-feira no programa de Jay Leno (substituto do lendário Johnny Carson), cuja longa superioridade na audiência sobre David Letterman continua a ser motivo de estranheza para quem não conhece o país ensanduichado entre Nova York e Los Angeles.Num período de intensa artilharia por causa dos bônus vergonhosos devidos aos executivos que ajudaram a quebrar a AIG, a companhia que recebeu US$ 170 bilhões do governo, o time Obama deve ter concluído que seria preciso lançar mão de todo tipo de munição para chegar ao público neste momento de extrema exceção econômica. Depois da visita a Leno, marcou entrevista com o venerável 60 Minutes da CBS e uma coletiva em horário nobre amanhã.Há quem veja a visita a um talk show como um arranhão na chamada liturgia do cargo. Ah, como tudo é relativo. Considerando que, quando passei pelo Rio, no carnaval, arrisquei ser atingida na cabeça por um preservativo na Marquês de Sapucaí, diria que os comentaristas de cá grunhem de barriga cheia.Obama tem atravessado o protocolo do minueto com a imprensa. Não deu a tradicional entrevista pré-posse ao New York Times. Demorou a se reunir com o comitê editorial do Washington Post. E, antes de brindar com os suspeitos habituais da mídia pró-Democrata, foi à toca do leão, jantar na casa do colunista conservador George Will com um elenco que merecia a inclusão de antiácido no menu.Depois de uma campanha espertíssima no aproveitamento das novas tecnologias e ter engajado expressivos segmentos da população jovem, que declararam numa pesquisa recente não sentir falta dos jornais impressos, Obama estendeu à imprensa sua visão, por falta de um termo melhor, pós-ideológica. Não é desprezo pelo valor investigativo do jornalismo. Nada da arrogância crassa de Dick Cheney, cujos servos tinham ordem de deixar a televisão de qualquer quarto de hotel onde ele pisasse sintonizada na rede Fox.Obama, um vaidoso como todo político que chega tão longe, conhece bem o narcisismo peculiar de jornalistas, uma vaidade oblíqua, não declarada, mas facilmente ferida. Depois de oito anos de exílio na era Bush, a elite jornalística liberal contava com um tratamento mais diferencial e, como jornalista liberal desimportante, folgo em testemunhar esse saudável som de balões esvaziando.Em qualquer noite da semana, inúmeros debatedores na TV disputam migalhas anedóticas, que vão das alergias das primeiras filhas ao dilema: quem é o funcionário mais gato da Casa Branca? O apropriadamente batizado Reggie Love.Uma nova lição de jornalismo foi dada pelo comediante Jon Stewart, quando desancou o histriônico comentarista econômico Jim Cramer e salpicou de vergonha grande parte da cobertura financeira que ignorou os gigantescos sinais da crise. Se eu desse aula para estudantes de comunicação, faria meus alunos clicarem no vídeo dessa entrevista, concedida no dia 12 de março, no canal Comedy Central.Ao cortejar a mídia como lhe convém, Obama não difere em nada do político tradicional. Mas ele entendeu que a comunicação em geral e o jornalismo político passam por um momento nada tradicional. Com uma coleção nem um pouco invejável de incêndios para apagar, o presidente parece disposto a manter uma distância olímpica da fogueira das vaidades da mídia.

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