O vigoroso adeus literário de Dupas

Em O Incidente, o economista usa uma nevasca no Chile para falar dos rumos da civilização num mundo à deriva

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

21 de fevereiro de 2009 | 00h00

Havia algo de trágico na visão social do economista e literato Gilberto Dupas, um dos grandes analistas do turbocapitalismo e colaborador do Estado, morto na terça-feira, aos 66 anos. Seu último livro, O Incidente (Editora Paz e Terra) faz uso do tom fabular para tratar de questões críticas como a alienação do homem contemporâneo, sua recusa em aceitar a morte e, principalmente, a grande fraude perpetrada pela ciência moderna num século que promete vida eterna para todos.Em certo sentido, a literatura de Dupas, que não teve tempo para se firmar como ficcionista, segue no caminho de outro grande pessimista, o suíço Friedrich Dürrenmatt (1921- 1990), cujo parentesco fica mais evidente à medida que se avança na leitura de seu romance O Incidente. Lástima que um câncer tenha interrompido a carreira do autor, que só escreveu outro romance, Retalhos de Jonas, lançado em 1994 pela editora Duas Cidades e republicado pela Paz e Terra em 2001. Resta o consolo de ler ou reler seus lúcidos ensaios sobre política e economia (O Mito do Progresso, entre eles).O Incidente não é trágico no sentido grego, até mesmo porque, a exemplo de Dürrenmatt, Dupas não via como o grotesco da pós-modernidade pudesse atingir a dimensão de uma tragédia grega. Assim, algumas das histórias contadas pelos narradores de O Incidente beiram propositalmente o patético. Mais uma vez, entram aí traços de Dürrenmatt, especialmente na história narrada por um homem que sofre de enxaqueca crônica e descobre, diante da proximidade da morte, que apenas num mundo sem imprevistos e sem riscos ele conseguiria se livrar dela. "Um amigo meu disse que só conhece um mundo assim: o dos que não vivem mais", conclui Dupas, na derradeira história de assustados turistas que enfrentam uma nevasca e passam o tempo contando histórias uns para os outros - provavelmente na Patagônia chilena, a julgar pelos sinais emitidos por outras histórias do livro.A estrutura de O Incidente é a de um livro de contos, mas eles não têm vida autônoma. Fazem parte de um romance em que as histórias se interpenetram para traduzir o pensamento de um único narrador - daí ser essa uma polifonia deliberadamente artificial, porque seus personagens expressam opiniões que pertencem unicamente ao narrador onisciente. Tal narrador se revela com algum esforço no capítulo Dinheiro, história de um homem de esquerda, criado numa família de classe média, que prospera como professor universitário mas não consegue se livrar da culpa de ser bem-sucedido num país de miseráveis. Parece claro que Dupas está falando dele mesmo - ou, pelo menos, de um homem que conviveu com gente ruidosa quando tudo o que queria era ser um monge numa cela frugal, longe do insensato mundo do consumo e da globalização.Dupas era um crítico da uniformizada sociedade globalizada, em que o herói dramático é uma impossibilidade, dada a velocidade com que a mídia consome esses altruístas dispostos a sacrificar suas vidas pela comunidade. Há, em O Incidente, a figura metaforizada de um guia heroico que providencia o melhor abrigo possível para os turistas e retorna à modesta posição assim que a luz do sol penetra pelas frestas da pequena cabana na montanha onde se refugiam. Trata-se de um cego guiando outros cegos na penumbra e que canaliza a fatal culpa de uma comunidade entregue ao hedonismo e ao eterno tempo presente, sem história coletiva - todos relatam fatos de sua vida privada ou lembranças que só dizem respeito a cada narrador, individualmente.Dupas parece dizer que a figura do herói foi expurgada da sociedade mesmo em situações de extrema dificuldade. O guia adota a troca de persona - algo como Obama assumindo o papel de Lincoln - para transmitir certa segurança aos turistas, embora ele mesmo alimente a dúvida se faz isso esperando uma recompensa. Em síntese: o herói, na sociedade globalizada, não é o mesmo da história clássica, mas alguém em busca de dinheiro. Irônico, Dupas faz de seu guia o herói mítico de um grupo de latino-americanos, participantes de um encontro internacional de ciências sociais - sete homens e três mulheres entre os 40 e 60 anos, ou seja, da sua geração, que trocou o sonho de uma sociedade mais justa pelo pesadelo de um mundo regulado pelo lucro e pelas leis do mercado.O homem vencedor do capítulo Dinheiro, cometendo uma inconfidência, faz ao guia uma pequena confissão: revela que induziu uma das moças do grupo a aceitar ser seu par apenas para ganhar um desconto de 20% na excursão, prometendo, "em algum momento discreto", deixar a diferença dos dois bilhetes embaixo da sua mochila. Todos morrem de vergonha de suas confissões - e só admitem suas falhas na penumbra, outra alegoria dupasiana para a ausência de transparência num mundo em que a poluição - ambiental e espiritual - impede a luz de se manifestar.Talvez um reparo a fazer sobre O Incidente seja exatamente o excessivo uso de metáforas - herança da literatura barroca - por Dupas. O autor deve ter concluído que só mesmo a linguagem figurada, acabando com a retórica do bom gosto, daria conta de tratar de questões como a morte do Estado regulador e os efeitos perversos do sistema global de produção. O barroco se delicia com a forma, com o ritmo e o som das palavras. Dupas, um homem de formação erudita, não recorreu à alegoria por acaso. O mundo contemporâneo anda tão insuportável que escapar pelas palavras é até compreensível.

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