O vigor dos magrinhos elétricos

Vocalistas de Móveis Coloniais de Acaju e The Rakes e guitarrista da Nação Zumbi se destacam na última noite do Indie Rock

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2030 | 00h00

Foi tudo diferente no segundo e último dia do festival Indie Rock, sexta-feira na Via Funchal. O resultado foi mais equilibrado do que na primeira noite, apesar da diversidade de estilos das bandas Nação Zumbi (Recife), Móveis Coloniais de Acaju (Brasília) e The Rakes (Londres), que pouco tinham em comum além da base e da atitude roqueiras. Foram também shows mais vigorosos e dançantes que os de Moptop, Hurtmold e Magic Numbers, que tocaram na quinta. Coincidentemente, os magrinhos elétricos se destacaram nas três bandas. Primeiro foi Lúcio Maia, guitarrista da Nação, que, como sempre, é uma atração à parte dentro da massa sonora de seu maracatu-tonelada. A melhor banda brasileira só poderia ter o melhor guitarrista do país, certo?Em seguida, a boa e divertida surpresa do som coeso e caloroso dos Móveis Coloniais, desconhecidos da maioria da platéia. André Gonzales impressionou não apenas pela voz potente e lapidada, mas principalmente pelos frenéticos movimentos corporais, da primeira à última música. Parecia ligado em 220 volts. Por fim, Alan Donohoe, cantor dos Rakes, também exibiu um fôlego de ginasta, em performance sinuosa, mas não foi páreo para Gonzales.Além de shows mais longos das bandas brasileiras, em outros aspectos, pendendo para o negativo, a noitada também foi diferente. A pontualidade britânica registrada na estréia foi para o espaço. O primeiro show começou com meia hora de atraso. Quando a Nação Zumbi entrou no palco, havia menos de 300 pessoas na platéia (sim, deu pra contar).A qualidade do som estava pior, o que impediu a compreensão de qualquer verso proferido pelas três bandas; em português ou inglês, só entendeu o que se cantava quem já conhecia as letras. A temperatura glacial pode ter contribuído para o desânimo de boa parte da platéia, apesar da forte vibração que vinha do palco. Até a madrugada, o público não passou de 1 mil pessoas, bem inferior às 1.800 da noite de quinta. A capacidade da casa é para 6 mil em pé. Lá fora, poucos cambistas ofereciam ingresso ''''baratinho'''', que ninguém comprou. Foi prejuízo geral. Das seis bandas que tocaram nas duas noites, a mais conhecida é a Nação Zumbi, substituto do ascendente Mombojó, que cancelou a participação no festival por causa da morte de um de seus integrantes.A Nação é quase mainstream e se fez em tempos de maior fartura no mercado fonográfico. Hoje é difícil medir a popularidade de uma banda, já que quase não se vendem mais discos nem se toca no rádio. Qual o parâmetro: downloads, orkuts, hype na mídia especializada? Isso nem sempre dá resultado. Em conseqüência de tantas incertezas, é sempre um risco trazer bandas novas ao Brasil. O Tim Festival tem amargado os reflexos da crise com shows que ficaram às moscas, como o da badaladíssima M.I.A, em 2005, e o do Black Dice em 2006. Já o Nokia Trends e o Campari Rock também apostaram em atrações inéditas no Brasil e se deram bem.Relativamente menos conhecidos no Brasil que o Magic Numbers, The Rakes (ambos com dois álbuns lançados) não mereciam tocar para tão pouca gente. Foi um bom show, apesar de breve (em torno de 1h10), à base de dance-rock, com músicas curtas e aceleradas, algumas delas semelhantes demais entre si. Ao abrir com Terror!, o grupo parecia uma réplica do Rapture, principalmente pelo vocal agudo de Alan. Mas depois o quarteto, em atuação instrumental impecável e incendiária o tempo todo, convenceu com melhores canções, como We Danced Together, 22 Grand Job, Little Superstitions e The World Was a Mess But His Hair Was Perfect. Só não dançou quem estava doente do pé. Ou não quis.

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