O vazio que ronda um diretor após exibir a obra

Matheus Nachtergaele diz que é difícil se separar de A Festa da Menina Morta

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

11 de junho de 2009 | 00h00

Matheus Nachtergaele amanheceu mal na segunda-feira e teve de cancelar a vinda a São Paulo, onde participaria de uma rodada de entrevistas para celebrar o lançamento - enfim - de A Festa da Menina Morta. Matheus sente que está fragilizado. A Festa trata de luto, de rituais por meio dos quais as pessoas tentam dar um sentido à vida. "Acho que estou fazendo o meu luto antecipado pela Menina", diz Matheus, que sente um vazio rondar dentro dele. Há mais de um ano, A Festa da Menina Morta estreou internacionalmente no Festival de Cannes. Desde então, o filme percorreu vários festivais nacionais e internacionais. Matheus tem feito dessas viagens uma viagem interior, sua. Só agora ele começa a ter consciência do filme que fez, mas sente que precisa aceitar um conselho de Fernando Meirelles. "O Fernando me disse que eu devia passar uns cinco anos sem ver a Menina, para distanciar." Matheus sofre a perda antecipada, que finalmente vai ocorrer. A Menina agora vai nascer para o público (o de festivais é outra coisa). Ele está tenso, admite. Trailer de A Festa da Menina Morta"Chicago foi muito bacana. O festival é muito bem curado, tem um público muito atuante e interessado. Ganhamos o prêmio de melhor filme de diretor estreante. Daniel e eu choramos abraçados." Daniel de Oliveira interpreta o protagonista, Santinho. O próprio Matheus Nachtergaele ia fazer o papel, mas aí, faltando pouco para o início da filmagem, ele soube que não daria conta de fazer o personagem, tão intenso, e ainda abraçar o desafio do primeiro longa. "Fiquei sem chão, mas a Vânia (a produtora Vânia Cattani, da Bananeira Filmes) me acendeu uma luz. Vânia sugeriu que eu fizesse o filme com o Daniel. Disse que ele havia se entregado no Cazuza e daria conta do Santinho. Fui conversar com o Daniel num bar perto da minha casa. Ele me pediu para fazer o Santinho. Disse que tinha motivos para isso. Queria superar um luto particular. Não duvidei nem um pouco de que ele faria o Santinho muito bem."Talvez por saber que Matheus queria fazer o papel, Daniel de Oliveira entendeu o Santinho como alter ego do diretor e o criou como se fosse o próprio ator e diretor. Existem momentos em que Daniel, ao incorporar o Santinho, está na verdade, interpretando Matheus Nachtergaele. "O Daniel observa muito. Eu sentia o tempo todo que ele me observava, querendo me mimetizar. Não lhe pedi que me interpretasse, mas também não disse que evitasse fazê-lo." Boa parte da intensidade de A Festa da Menina Morta - senão toda - passa por essa interação de Matheus com seu elenco. "Ensaiamos durante meses", ele explica. Mas só o ensaio, a preparação, não fornece a chave. A escolha dos atores foi decisiva. desde que trabalhou com ele em A Concepção, de José Eduardo Belmonte, Matheus sabia que Juliano Cazarré, e somente ele, poderia ser Tadeu. Matheus escreveu Das Graças para Conceição Camarotti. Jackson Antunes impôs-se a partir da entrada de Daniel de Oliveira. Cássia Kiss trouxe uma persona rara para a mãe. "A Cássia é uma bailarina da própria neurose", define o diretor. E Dira Paes... "Dira é minha irmã. Dira é amazônica, como o filme. Ela tinha de estar dentro."Têm ocorrido coisas estranhas - A Festa passou na Transilvânia, na terra de Drácula. Matheus procurou e encontrou na internet críticas romenas. Olhava aqueles caracteres e tentava entender o que diziam de seu filme. Foi um trabalho de gestação longo. "O cinema é lento, todas as etapas. Se puder, no próximo, vou tentar acelerar alguma coisa do processo." E o filme, ele mudaria? "Não. Gosto do jeito que está, mas talvez procurasse facilitar o passe de entrada do espectador para a poética da Menina. Demora um pouco, mas percebo que, quando ocorre, as pessoas viajam no filme." Ele sabe que seu filme não é fácil, no sentido de se oferecer, convencionalmente, para o espectador. Santinho e seus seguidores vivem nesse fim de mundo, na selva, oficiando o culto da Menina Morta. E ele mantém essa relação incestuosa com o pai, que explode numa cena forte.É um Brasil que, curiosamente, os brasileiros talvez tenham mais dificuldade para encontrar. "Muita gente me pergunta, aqui, que lugar é esse. No exterior, as pessoas visualizam a cidade do filme como parte de um Brasil imaginário. Elas quase pedem por isso. E o luto é universal. " Matheus acaba de fazer O Bem Amado, de Guel Arraes. Seu personagem é Dirceu Borboleta. "Tem acentos trágicos, é muito bacana." Ele está louco para voltar ao teatro, fazendo um Beckett, que gostaria que Paulo José dirigisse. Já tem um projeto em gestação, que começa a escrever, mas gostaria mesmo era de fazer Woyzeck no cinema. "Gosto muito da peça de Anton Brückner e queria fazê-la entre os índios de Dourados. A taxa de suicídios lá é alta. Quero entender isso e a peça, um Woyzeck índio, pode me ajudar." A morte, o luto, o ritual, a vida. É por aí que se constrói a força da Menina Morta. ServiçoA Festa da Menina Morta (Brasil/2008, 110 min.) - Drama. Dir. Matheus Nachtergaele. 18 anos. Cotação: Ótimo

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