O vaudeville moderno de Ariano Suassuna

Escrita em 1960, Farsa da Boa Preguiça fala de casamento aberto, ócio criativo, além de criticar a corrupção e a ganância

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

19 de junho de 2009 | 00h00

Há uma preguiça de Deus, outra do diabo - feita a distinção, que determina a primeira como ócio criativo e a segunda como um dos sete vícios capitais, a peça Farsa da Boa Preguiça, que estreia hoje no Sesc Vila Mariana, celebra a fidalga ociosidade do povo brasileiro. Escrita por Ariano Suassuna em 1960, foi mal compreendida na época, quando o autor foi acusado de encaminhar o povo brasileiro ao conformismo. "Os marxistas, principalmente, se incomodaram", conta Ariano. "O que não é verdade, pois a Farsa festeja a cultura popular brasileira", completa João das Neves, que dirige a montagem que estreia hoje. Trata-se da história de Joaquim Simão (Guilherme Piva), poeta de cordel que só pensa em dormir, casado com Nevinha (Daniela Fontan), mulher religiosa. Eles são assediados por Aderaldo Catacão (Ernani Moraes) e Clarabela (Bianca Byington), que possuem um relacionamento aberto e vivem tentando o outro casal a cair no pecado. Três demônios fazem de tudo para que eles se rendam à tentação, enquanto dois santos tentam intervir. Jesus observa e avalia tudo. "Suassuna foi feliz, pois a peça mergulha nas raízes, no teatro medieval brasileiro", comenta Neves, que incentivou o elenco a criar e manipular mamulengos utilizados em cena. Buscou também inspiração no teatro de cordel. "Isso facilitou nossas falas, pois a peça é inteiramente em forma de versos", conta Bianca Byington. "João criou um grande caldeirão, que permitiu ao elenco se familiarizar com o texto."Os atores, aliás, se surpreenderam com a modernidade da trama. "Afinal, fala de casamento aberto e do ócio criativo, além de criticar a corrupção e a ganância", observou Guilherme Piva. "É uma espécie de vaudeville moderno." ServiçoFarsa da Boa Preguiça. 120 min. Livre. Sesc Vila Mariana (608 lug.). R. Pelotas, 141, telefone 5080-3000. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 5 a R$ 20. Até 19/7

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.