O valor do conhecimento obtido nas ruas

Autor do livro que inspirou Quem Quer Ser um Milionário?, o diplomata Vikas Swarup fala sobre inspiração para sua obra

, O Estadao de S.Paulo

21 de fevereiro de 2009 | 00h00

Para combater a solidão que enfrentava em Londres, o diplomata indiano Vikas Swarup começou a rascunhar uma história, em 2003. O ponto de partida era a tumultuada trajetória de um adolescente favelado que se torna suspeito depois de acertar todas as respostas de um ?quiz show?. Preso, o rapaz é obrigado a contar sua vida para uma advogada. Essa trama se transformou no livro Sua Resposta Vale Um Bilhão, que inspirou o filme Quem Quer Ser Um Milionário?, favorito para levar hoje o Oscar de melhor produção do ano. Lançada aqui em 2006 pela Companhia das Letras, a obra ganha nova edição, com uma capa inspirada no longa-metragem dirigido por Danny Boyle (tradução Paulo Henriques Britto, 344 páginas, R$ 52). Atual ministro e embaixador da Índia, baseado em Pretória, Swarup conversou por e-mail com o Estado.Como o senhor teve a ideia de escrever Sua Resposta Vale Um Bilhão?Escrevi esse romance nos últimos dois meses em Londres. Sempre fui interessado pelo processo psicológico que faz parte desses programas de perguntas e respostas na TV. Como afirma um dos personagens da história, "Um ?quiz? não é tanto um teste de conhecimento, é mais um teste de memória". E a nossa memória é formada por diversas coisas, pela nossa experiência, nossos sonhos e desejos, e não apenas pelo que nos foi ensinado na escola. Sempre me impressionei com o conhecimento que mesmo o homem comum possui. Além disso, há uns dez anos eu tinha lido uma reportagem sobre como crianças de rua, que nunca tinham ido à escola, começaram a usar o computador sozinhas, sem que ninguém as ensinasse. Isso me fez concluir que o conhecimento não está reservado exclusivamente à elite que vai à escola. Existe uma tremenda consciência, mesmo entre as pessoas que normalmente são consideradas desfavorecidas. Portanto, a ideia básica por trás do programa de perguntas e respostas foi mostrar que privilégio e riqueza não são impedimentos para a engenhosidade e que às vezes o conhecimento das ruas pode ser tão importante quanto o conhecimento extraído dos livros para se vencer um jogo como aquele.Por que o senhor quis escrever uma história tão diferente do padrão?As histórias corriqueiras me aborrecem. Gosto de ler coisas de vanguarda, diferentes. Seu romance se desenvolve em dois planos. Como isso evoluiu?É verdade. Existem duas histórias no livro - a história de vida do meu personagem, Ram Mohammad Thomas, e o que está se desenrolando no programa. Revelo a história da vida privada do meu personagem através do espetáculo público do programa. Mas, para narrar a história dele, eu precisei seguir as regras de um programa de perguntas e respostas, em que as perguntas mais fáceis são feitas primeiro e as difíceis vêm depois. Além disso, tinha que haver uma conexão orgânica entre as perguntas e as respostas. Nos últimos 50 anos ocorreram mudanças enormes na sociedade indiana. O senhor poderia falar sobre essa nova Índia que está sendo formada?A Índia é um país vasto e complexo e funciona em vários níveis. Você tem a Índia dos povoados que se locomove na carroça puxada por bois e tem a Índia dos call centers e supercomputadores. Acho que essa grande diversidade é também nossa maior força. O mundo está interessado em saber como a Índia está conseguindo reconciliar suas contradições e avançar economicamente de modo tão rápido. Como estamos mantendo a tradição ao lado da modernidade.O senhor disse que nunca viveu em Bombaim e jamais visitou a favela de Dharavi. Então, como conseguiu fazer um retrato tão vívido?Nunca estive lá, mas estive em outra favela. Assim, imaginei o que Dharavi seria multiplicando por mil a favela que visitei. Fiz algumas pesquisas, li livros sobre Dharavi e seus problemas, antes de finalmente criar a imagem dessa favela em meu livro. E o maior cumprimento que recebi foi de uma senhora que, durante uma leitura do livro em Bombaim, perguntou-me, "quantos anos o senhor viveu em Dharavi?".E o que pensa do filme de Danny Boyle, um dos favoritos no Oscar?Acho que o filme é visualmente deslumbrante e de grande impacto emocional. A atuação dos atores infantis é maravilhosa e a música de A.R. Rahman é fascinante. Danny Boyle capturou a vida palpitante e vibrante de Bombaim de uma maneira nunca feita antes. Ele dá a perspectiva do estrangeiro sobre Bombaim, mas uma perspectiva imbuída de amor e respeito pela cidade e seus moradores.

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