O valor de um símbolo

16 de agosto de 1909 - Euclides no Estadão - Esta seção, que se encerra hoje, trouxe, desde abril passado, textos de Euclides da Cunha publicados neste jornal, comentados pela maior especialista em sua obra

Walnice Nogueira Galvão, professora de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, O Estadao de S.Paulo

15 de agosto de 2009 | 00h00

Há dois anos, num entardecer de julho, eu chegava, com os restos de uma comissão exploradora, à foz do Cavaljani, último esgalho do Purus, distante 3.200 quilômetros da confluência deste último no Amazonas; e tão perdido naquelas solidões empantanadas que nenhuma carta o revelava. a href=''http://www.estadao.com.br/especiais/euclides-da-cunha-nas-paginas-do-estadao,55175.htm'' target=_blank>Leia as seções anteriores Éramos nove apenas: eu, um auxiliar dedicadíssimo, o dr. Arnaldo da Cunha, um sargento, um soldado e cinco representantes de todas as cores reunidos, ao acaso em Manaus.(...) A nossa comissão dispersara-se, coagida pelas circunstâncias: naufragáramos em caminho; e os salvados da catástrofe mal bastariam àquele reduzido grupo de temerários. De sorte que ao atingirmos aquela estância remota já nos íamos, há dias, num terrível quarto de ração (...).Para maior desdita os empecilhos à marcha cresciam com o avançamento; maiores à medida que diminuíam os recursos. O rio, cada vez mais raso, quase estagnado nos estirões areentos (...) requeria trabalhos crescentes e verdadeiros sacrifícios.Já não se navegava, as duas pesadas canoas de itauba iam num arrastamento a pulso, como se fossem por terra; e os remos, ou os varejões transformavam-se em alavancas, numerosíssimas vezes, para a travessia dos trechos mais difíceis. Ao descer das noites, os homens, que labutavam todo o dia, metidos na água, sem um trago de aguardente, ou de café, (...) acampavam soturnamente. Mal se armavam as barracas. Na antemanhã seguinte, cambaleantes e trôpegos (...), retravavam, desesperadamente, a luta da subida do rio que não se acabava mais, tão extenso, tão monótono, tão sempre mesmo, na invariabilidade de suas margens, que tínhamos a ilusão de nos andarmos numa viagem circular; abarracávamos; descampávamos; e ao fim de dez horas de castigo parecíamos voltar à mesma praia, de onde partíramos, numa penitência interminável e rude...Contrastando com esta desventura, a comissão peruana, que acompanhávamos, estava íntegra, bem abastecida, robusta. Não sofrera o transe de um naufrágio, eram vinte e três homens válidos, dirigidos por um chefe de excepcional valor.Assim todas as noites, naquelas praias longínquas, havia este contraste: de um lado, um abarracamento minúsculo e mudo, todo afogado na treva; de outro, afastado apenas cinquenta metros, um acampamento iluminado e ruidoso, onde ressoavam os cantos dos desempenados cholos loretanos.A separação entre os dois era completa. As relações quase nulas: a altaneria castelhana, herdada pelos nossos galhardos vizinhos, surpreendia-se ante uma outra, mais heroica, do exíguo acampamento miserando, altivamente retraído na sua penúria e tenebroso em ultimar a sua empresa, como a efetuou, sem dever o mínimo, ou mais justificável auxílio, ao estrangeiro que se lhe associara.Mas ao chegar naquela tarde à foz do Cavaljani, considerei a empresa perdida. Palavras soltas, de irreprimível desânimo, e até apóstrofes mal contidas, de desesperados, fizeram-me compreender que ao outro dia só haveria um movimento, o da volta vertiginosa, rolando pelos estirões e cachoeiras que tanto nos custaram vencer, acabando-se os nossos esforços numa fuga.Os meus bravos companheiros rendiam-se aos reveses. Atravessei, em claro, a noite.Na manhã seguinte procurei-os na tentativa impossível de os convencer de mais um sacrifício.Acocoravam-se à roda de uma fogueira meio extinta; e receberam-me sem se levantarem, com a imunidade de seu próprio infortúnio.Dois tiritavam de febre.Falei-lhes. A honra, o dever, a pátria e outras magníficas palavras ressoaram longamente, monotonamente.Inúteis. Permaneceram impassíveis.Quedei-me, inerte, em uma tristeza exasperada.E como a aumentá-la, notei, dali mesmo, voltando-me para a direita, que os peruanos se aprestavam à partida.Desarmavam-se as barracas; reconduziam-se para as ubás ligeiras os fardos retirados na véspera. Em pouco, os remos e as tanganas compridas, alteados pelos remeiros, fisgavam vivamente os ares...E atravessando pelos grupos agitados, um sargento - passo grave e solene, como se estivesse em uma praça pública, à frente de uma formatura - cortou perpendicularmente a praia, em rumo à canoa do chefe, tendo ao braço direito, perfilada, a bandeira peruana, que deveria içar-se à popa da embarcação.De fato, em chegando, hasteou-a. Passava um sudoeste rijo. O belo pavilhão vermelho e branco desenrolou-se logo, todo estirado, ruflando...E acudiu-me a ideia de apontar aquele contraste aos companheiros abatidos. Mas ao voltar-me não os reconheci. Todos de pé. A simples imagem do estandarte estrangeiro, erguido triunfal, como a desafiá-los, galvanizara-os. Num lance, sem uma ordem, precipitaram-se os aprestos da partida. Em segundos, a nossa bandeira, que jazia, enrolada, em terra, aprumou-se por seu turno em uma das canoas, patenteando-nos aos olhos as promessas divinas da esperança!E partimos, retravando, desesperadamente, o duelo formidável com o deserto... (Euclides da Cunha)Nota da Redação: A grafia deste texto foi atualizadasegundo as regras do Novo Acordo Ortográfico. Forampreservadas, no entanto, a pontuação e as construções sintáticas originais do autor, a fim de não alterar seu estilo

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