O universo de Sándor Ferenczi

Primeiro dicionário sobre um dos principais interlocutores de Sigmund Freud atesta seu valioso legado

Daniel Kupermann, O Estadao de S.Paulo

20 de junho de 2009 | 00h00

Uma análise das obras dos autores que marcaram decisivamente o campo psicanalítico revela que nelas se encontram, de forma indissociável, contribuições à metapsicologia freudiana (isto é, sua teoria do funcionamento psíquico), avanços na teoria da clínica (ou seja, nas concepções do que é o psicanalisar), bem como uma reflexão ético-política acerca dos modos pelos quais a psicanálise se institucionaliza em determinado contexto cultural - incluindo-se aí uma crítica permanente do próprio processo de formação do psicanalista. O pensamento do húngaro Sándor Ferenczi (1873-1933) apresenta, sem dúvida alguma, contribuições preciosas nesses três registros. Ironicamente, o fato de Ferenczi ter perturbado por décadas o establishment psicanalítico - com ideias como a de que os analistas que se submetiam a uma análise didática "especial" (regulamentada burocraticamente por institutos de formação) eram pior analisados que seus pacientes - fez com que o primeiro dos grandes psicanalistas a contribuir com uma leitura original e instigante da obra freudiana fosse o último a merecer um dicionário. Mas não é apenas por corrigir essa lacuna bibliográfica que se deve saudar a edição deste Dicionário do Pensamento de Sándor Ferenczi: Uma Contribuição à Clínica Psicanalítica Contemporânea, das psicanalistas Haydée Christinne Kahtuni e Gisela Paraná Sanches. Sua leitura revela um amplo conhecimento, por parte das suas autoras, não apenas da obra de Ferenczi, mas também dos eventos determinantes da própria história da psicanálise - o que, por si só, amplia seu interesse para além do universo de profissionais e estudantes da ciência criada por Sigmund Freud.No Dicionário, o leitor encontrará mais de 150 verbetes abrangendo os principais conceitos criados por Ferenczi (como "introjeção", "desmentido", "progressão traumática", "clivagem", etc.); temas caros à tradição psicanalítica, que aqui receberam nova inflexão (caso de homossexualidade, feminismo, amor e ódio, psicose e psicossomática); suas principais contribuições à teoria da clínica (a empatia, a neocatarse, a contratransferência, o brincar, a análise do analista e a análise mútua); e, ainda, verbetes referentes a outros psicanalistas a quem influenciou (como Wilhelm Reich, Melanie Klein, D. W. Winnicott e Jacques Lacan). Sim, porque os temas e os problemas tratados por Ferenczi, considerado o "pai da psicanálise moderna", constituíram a matéria-prima de grande parte das elaborações que o sucederam historicamente.O verbete referente ao conceito de introjeção permite-nos apreender a íntima relação adquirida, na obra de Ferenczi, entre teoria e clínica psicanalíticas. Ao descrever o impulso para a expansão psíquica propiciada a partir das vivências corporais e afetivas experimentadas no encontro com o Outro, a noção se revela fundamental tanto para o entendimento da constituição da personalidade saudável quanto para, inversamente, a compreensão e o tratamento de patologias emocionais cada vez mais presentes na nossa vida social - como a depressão, os quadros de obesidade mórbida, a bulimia e a anorexia nervosa, o sentimento de vazio e de falta de sentido para a vida. De fato, Ferenczi foi o primeiro psicanalista a diagnosticar e a tratar as personalidades narcísicas e borderlines que obrigaram os psicanalistas pós-freudianos a rever suas concepções e seus métodos.Já a leitura dos verbetes dedicados aos dois psicanalistas atualmente mais influentes no cenário psicanalítico brasileiro, o inglês Donald Woods Winnicott (1896-1971) e o francês Jacques Lacan (1901-1981), explicita a filiação desses autores ao pensamento ferencziano, evidenciando sua importância para a revitalização do saber psicanalítico. Lacan, que herdou de Ferenczi o dispositivo das sessões de duração variável, bem como a problematização do ato analítico e do final da análise, considerava o psicanalista húngaro "o mais autêntico interrogador de sua responsabilidade como terapeuta". Já Winnicott encontrou na obra ferencziana a matriz da sua teorização - a ênfase atribuída à função do ambiente no percurso do desenvolvimento emocional da criança.Em 1967, na ocasião da publicação, por Laplanche e Pontalis, do célebre Vocabulário da Psicanálise, temia-se que a iniciativa tivesse o efeito de cristalizar a teoria freudiana, institucionalizando uma "tradução conceitual" das suas ideias. Porém, o que se assiste, desde então, é um uso do Vocabulário como ferramenta de retorno à letra de Freud e de renovação do seu pensamento, contribuindo para livrá-lo dos movimentos reducionistas de captura cometidos por escolas pós-freudianas. Nesse sentido, é legítimo celebrar o aparecimento do Dicionário do Pensamento de Sándor Ferenczi, apostando que servirá não apenas para corrigir mal-entendidos históricos devidos ao desconhecimento das ideias de Ferenczi, mas, sobretudo, para fazer justiça a uma obra necessária para o enfrentamento dos desafios da psicanálise contemporânea. Daniel Kupermann é professor do Instituto de Psicologia da USP, Psicanalista membro da Formação Freudiana (RJ) e autor de Presença Sensível: Cuidado e Criação na Clínica Psicanalítica (Civilização Brasileira)

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