O último dia de um aristocrata decadente

Em A Janela, Carlos Sorín investe no que gosta, o relato preciso de história mínima

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

30 de abril de 2009 | 00h00

Carlos Sorín gosta das histórias enxutas e não foi por acaso que deu a um de seus longas o título de Histórias Mínimas. "Tenho dificuldade para imaginar histórias longas. Meu ideal é o filme que se passa num dia." A Janela atinge essa concentração. Trata do último dia da vida de Don Antonio, um escritor de 80 anos, que aguarda a visita do filho na fazenda da família. O filho é pianista e está vindo da Europa. A relação com o filho é fria, mas não hostil. Ecos de Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman, de 1957, atravessam o relato. Assista ao trailer do filme A JanelaMas a fonte declarada foi Raymond Carver, As Três Rosas Amarelas, cujos direitos Sorín tentou em vão comprar. A história, de qualquer maneira, ficou com ele tanto quanto a de Morangos Silvestres. O velho personagem de Bergman é um professor homenageado por sua atividade docente. O de Carver é um escritor e ninguém menos do que Chekhov, em seus últimos dias. "Chekhov é um de meus escritores preferidos. Amo a depuração de sua escrita, o sentido humano e social de seus relatos tão precisos." O próprio Sorín ama essas histórias que são mínimas e, ao mesmo tempo, são de uma precisão realista que fazem do seu cinema uma janela aberta para o mundo.O título, obviamente, não é produto do acaso - La Ventana. Nem o fato de que o protagonista, no começo, tem um sonho que remete ao próprio cinema. "Freud dizia que os sonhos não existem, mas eu precisava filmar um sonho de Don Antonio. Fiz dele um filme dentro do filme." O sonho carrega um enigma - Don Antonio revê uma imagem do seu passado remoto. Quando ele era menino, os pais o deixaram aos cuidados de uma babá. Há uma precisa descrição do sonho. A mãe com seu vestido de festa chega para dar boa-noite ao filho. Ao fundo ouvem-se ruídos de um baile, em outra parte da casa. E o detalhe é o rosto da babá. Durante 80 anos Antonio esqueceu-se dela, e agora esse rosto reaparece no que será seu último dia.Bergman, Carver, Chekhov. E Jorge Luís Borges e Adolfo Bioy Casares. "Borges é infilmável", reflete Sorín, mas ele concorda com o repórter quando lhe diz que o mais ?borgesiano? dos filmes não é uma adaptação do escritor - Mister Klein, de Joseph Losey. "Es un maestro", diz Sorín sobre o grande Losey. Seus mestres, aliás, não foram argentinos (salvo escritores). Seus diretores favoritos, os que o marcaram, foram Jean-Luc Godard, François Truffaut, Bergman e Losey. Casares, como escritor, foi outra referência. A Invenção de Morel, cujo primeiro título no Brasil foi A Máquina Fantástica, confronta o protagonista com a morte, por meio dessa máquina capaz de fixar instantes da vida de cada um de seus amigos. A janela que Sorín abre para o mundo é o próprio cinema, que lhe permite revelar os fragmentos da vida de Antonio. No final, com o mínimo de informações, sabemos tudo sobre ele.Para um filme tão escrito, tão exato, A Janela terminou virando o resultado de uma feliz série de coincidências. "Não se faz cinema sem sorte", diz o diretor. Ele ia filmar no norte argentino, mas houve uma epidemia de varíola e o ator uruguaio Antonio Larreta, de mais de 80 anos, não podia ser vacinado. Sorín teve de procurar rapidamente outra locação. Encontrou esse lugar não muito distante de Buenos Aires, a casa senhorial e o campo que começa a ondular suavemente. "A casa é tão perfeita quanto Larreta. Ambos são aristocráticos e decadentes", define Sorín. Larreta também foi descoberto por acaso. O produtor espanhol de Sorín participava de um evento no Uruguai. Foi apresentado a Larreta como sendo um grande ator uruguaio de teatro."O produtor me ligou imediatamente. Disse que tinha encontrado Don Antonio para mim." Larreta é grande no palco, mas quase não havia feito cinema. O que fizera não era bom. Muita ênfase nos gestos. "Meu trabalho foi estimulá-lo a baixar cada vez mais o tom. Menos, menos. Ele tinha 80 anos, era escritor, um aristocrata. Larreta era o personagem." O próprio processo de criação de A Janela é definido por Sorín como uma ?desconstrução?. "Filmei um roteiro de apenas 32 páginas. Meu trabalho neste filme foi cortar. Diálogos, situações. Cortei para filmar e depois cortei ainda mais na montagem." O filho de Carlos Sorín, Nicolás, é compositor e ofereceu ao pai uma caudalosa proposta de música. Sorín cortou a música, também. Reduziu-a a fragmentos. Eles são tão belos, e precisos, que a música, como a atuação de Antonio Larreta, permanece com o público. Grande filme. ServiçoA Janela (La Ventana, Argentina-Espanha/2008, 85 min.) - Drama. Direção: Carlos Sorín. Cotação: Ótimo

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