O triste fim de Simonal, o rei da ''pilantragem''

Documentário sobre o cantor encanta a platéia de Paulínia

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

10 de julho de 2008 | 00h00

O filme mais aplaudido até agora em Paulínia foi um documentário - Simonal, Ninguém Sabe o Duro Que Dei, de Claudio Manoel, Micael Langer e Cavito Leal, que encantou a platéia do Theatro Municipal da cidade. O filme conta a história do cantor Wilson Simonal, artista superpopular no final dos anos 60 e começo dos 70, até cair em desgraça em razão de um episódio obscuro em sua vida. No auge da fama, Wilson Simonal desentendeu-se com seu contador, Raphael Viviani, e mandou uns capangas dar-lhe uma surra. Acontece que quem se incumbiu do serviço foram agentes do temível Dops, a polícia de ordem política e social, responsável por prisões e torturas na época do regime militar. No desdobramento do caso, outro agente afirmou que Simonal era informante da polícia política. O cantor enfrentou processo na Justiça e foi execrado no meio artístico. Sua carreira praticamente acabou. Não conseguia mais gravar, exibir-se, fazer shows. Decaiu. Passou a beber de maneira frenética e morreu em 2000, de cirrose hepática, sem ter sido reabilitado. O documentário é muito inventivo - e esse é o primeiro dos seus méritos. Seleciona trechos significativos de apresentações de Simonal, usa técnicas de animação em alguns momentos, faz uma coleta pequena porém bem selecionada de depoimentos. Ouve os dois filhos do artista -- os também músicos Simoninha e Max de Castro, além de pessoas que conviveram com ele, como o apresentador Miéle, o jornalista Nelson Motta, o cartunista Jaguar, o historiador de música Ricardo Cravo Albim, o contrabaixista Sabá, o humorista Chico Anysio, o crítico Sérgio Cabral, o ex-jogador Pelé. Ouve a crítica teatral Bárbara Heliodora, em cuja casa a mãe de Simonal trabalhava como empregada doméstica. E, principalmente, dá voz ao desafeto do artista, o contador Raphael Viviani. A segunda de suas virtudes é traçar um retrato bastante fiel do cantor de grandes recursos (fez até dueto com Sarah Vaughan cantando Fly me to the Moon), que se tornou homem-show como não houve outro em seu tempo. Simonal inventou um jeito de reciclar melodias populares em estilo cheio de ginga, que chamava de "pilantragem". Ele, e o trio que o acompanhava, o Som 3, do qual fazia parte Sabá, aplicavam um molho todo especial a canções ingênuas como Meu Limão, Meu Limoeiro. Com domínio total do palco, Simonal regia a platéia e botava-a para cantar. Tinha o auditório na mão. Ficou famosa a noite em que fez 30 mil pessoas cantarem com ele no Maracanãzinho. Simonal era um raro caso de músico-cantor. Diziam que tinha ouvido absoluto, era dono de uma bela voz e senso de divisão rítmica privilegiado. Poderia ter ido muito longe em sua arte, mas optou por um caminho mais fácil de comunicação com o público. Era dotado para isso também. Criou para si a persona do malandro carioca, inventor de gírias, bon vivant, mulherengo, esperto. Chegou a ter três Mercedes Benz na garagem - e isso não se perdoa em país que costuma disfarçar seu racismo sob o mito da democracia racial. Isso tudo era mais visível ainda nos anos 60 e 70 -- em especial nos casos desses negros que "não conheciam seu lugar", como o próprio Simonal ou o craque Paulo César Caju. Só eles mesmos sabem o que enfrentaram. Mas - e esta é outra virtude do filme, sem a qual ele não seria tão bom - o documentário não cai na tentação fácil de se tornar a hagiografia de um injustiçado. Verdade, o bom-mocismo brasileiro tende a absolver tudo, em especial quando o personagem já morreu. Mesmo assim, há suficiente ambivalência para permitir ao espectador tirar as próprias conclusões. Simonal nada tinha de santo. Em meio a uma ditadura feroz era, no mínimo, um indiferente político. Mas muita coisa sugere que tenha sido mais. Há o depoimento de Viviani, bastante convincente. E, depois do caso, o próprio Simonal afirmava que "estava com os homens". Pode ter sido apenas blefe de um inocente útil. Mas, naquela época, ter uma carteirinha do Dops abria muitas portas. No mínimo, Simonal brincou com fogo. "Vacilou", para usar uma gíria de sua lavra. O que se pode dizer é que, um caso desses, com seu desdobramento trágico, com culpas e responsabilidade de todos os participantes, só poderia ter acontecido durante uma ditadura. Numa democracia, não faria o menor sentido. O repórter viajou a convite da organização do festival

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