O trágico para além do político

Em O Percevejo, Vladímir Maiakovski supera proposta didática de sua obra

Aurora F. Bernardini, O Estadao de S.Paulo

08 de agosto de 2009 | 00h00

O Percevejo não é apenas a melhor peça de Vladímir Maiakóvski (1893-1930), conforme diz Boris Schnaiderman no posfácio a esta edição, que retoma a versão de 1980 - não o roteiro levado aos palcos brasileiros em 1981 (Rio) e em 1983 (São Paulo), mas o texto traduzido e em parte adaptado por Luís Antonio Martinez Corrêa e cotejado com o original russo por Boris -, como também conserva o seu espírito, vivacidade e atualidade.Antes da estreia da peça no teatro, em 1929, o próprio Maiakóvski fez uma apresentação dela por escrito num texto que se chama Sobre ?O Percevejo?, dizendo que a comédia é "publicitária, tendenciosa e dedicada a um problema". Na sequência-resumo das nove cenas que ele fornece e que sintetizamos (resumo este, também, propositalmente tendencioso, conforme o leitor terá ocasião de ver, confrontando a peça com sua própria interpretação), já dá para desconfiar de que problema se trata.Prissípkin, ex-operário, ex-membro do partido, ex-amante da operária Zoia Beriózkina, muda seu nome para o mais melodioso Skrípkin (de skripka, violino), para se casar com a manicure Elzevira, filha de Rosália Pávlovna Renaissance, cabeleireira enriquecida durante o período da Nova Política Econômica, com cujo dinheiro Prissípkin e o amigo Baian, autodidata e ex-proprietário, preparam um casamento "vermelho". A companheira Zoia tenta o suicídio e, no alojamento, os operários expulsam o "noivo" que rompe com sua classe de maneira barulhenta. Um incêndio extermina todos os personagens. Entre os cadáveres, nota-se a falta de um que, pelo visto, fora consumido pelo fogo. Mas não é isso que aconteceu. Num surpreendente achado (cujos efeitos, na peça original eram potenciados pela direção de Vsiévolod Meyerhold, pela cenografia de Aleksandr Ródtchenko e pela música de Dmitri Shostakóvitch), Prissípkin é encontrado, 50 anos depois, em 1979, congelado e intacto, numa tina d?água dos bombeiros. Uma votação coletiva decide ressuscitá-lo. Com ele ressuscita um belo e corpulento percevejo: o Percevejus normalis.Uma estranha epidemia grassa na cidade, como consequência da necessidade de se produzir "cerveja" para aliviar Prissípkin, acostumado que estava a uma vida embebida de vodca. A criatura descongelada não se adapta à nova época, Seu desespero só é mitigado pela leitura de um anúncio do Zoológico que procura um ser de aparência humana para receber picadas e manter vivo um inseto recém-adquirido.A cidade acorre ao Zoológico. Duas jaulas novas são expostas: uma, do Percevejus normalis, a outra do Philistaeus vulgaris, Prissípkin, que por pouco não fora tomado por um Homo sapiens.A cena final, como diz o posfácio, é o momento do discurso patético do Philistaeus em que a farsa se transforma em tragédia, prenunciando, de certa forma, o trágico fim do próprio Maiakóvski.Já no poema de 1918 O Bom Tratamento dos Cavalos, depois transformado em peça, que associava o poeta a um cavalo desfalecido em virtude de "certo sentimento geral de tristeza animal", Maiakóvski sentia que a Revolução que tanto o entusiasmara ia revelando aspectos diferentes do desejado. À medida que o tempo passa e os motivos de "amortecimento do coração e da alma" vão se avolumando, seus poemas se tornam cada vez mais satíricos, e o "problema" torna-se cada vez mais exposto: Corruptos, Proteção, Fábrica de Burocratas, etc., os temas sucedem-se. Lê-se, por exemplo, em Uma Porta, de 1926, comentado por A. Mikháilov em Maiakóvski, O Poeta da Revolução (Record, 2008): "Embaixo de Marx, na poltrona empoltronado, com alto salário, alto e liso, está sentado o responsável, aliviado. Ele tem ?salários especiais e gratificações por sobrecarga de trabalho, cerca-se de gente sua, suborna e coloca em lugares quentinhos seus parentes e conhecidos.?..."Nepotismo, corrupção, mesquinhez, burocracia, rede de ligações suspeitas "necessárias", acomodação, abafação: à exposição de tudo isso, ao "amontoado de fatos pequeno-burgueses", ao "problema", enfim, Maiakóvski chama, de "o desmascaramento da burguesia atual".E o melhor meio para tanto viria a ser para ele a dramaturgia: "Agora passarei totalmente a me dedicar a peças, fazer versos ficou muito fácil", reporta Mikháilov, sendo que "a principal dificuldade é traduzir os fatos para a linguagem teatral da ação e do encantamento", dizia Maiakóvski em 1928, ao preparar a apresentação de O Percevejo.Na verdade, conforme informa nota sobre a peça retirada das Obras Escolhidas do autor (Moscou, 1949), nas quais também consta a apresentação feita por Maiakóvski (traduzida na presente edição), O Percevejo é uma retomada de outra peça, Esqueça a Lareira, de 1927- 28, que se destinava ao Sovkino de Leningrado. Nela, sente-se a forte influência de seu trabalho jornalístico, em particular, no Komsomólskaia Pravda, algumas de cujas manchetes aparecem na peça, junto com trechos de seus poemas anteriores. Só que o personagem Prissípkin, comum às duas obras, que Maiakóvski pretendia apresentar ao público como tipo negativo - diz novamente Boris Schnaiderman no posfácio - "com o desenrolar da ação, assume a envergadura de uma grande figura trágica. Tal como no caso de Os Demônios, de Dostoiévski, o autor tinha em mente determinado fim didático e político, mas a obra foi mais longe e superou em muito o projeto inicial". Aurora F. Bernardini é professora de pós-graduação em Literatura Russa da USP

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