O tempo perdido e reencontrado de Kar-wai

Há uma trama recorrente em Cinzas do Passado - Redux, que está de volta ao cartaz na versão do autor, Wong Kar-wai. Ela aparece no começo e reaparece no fim, com desdobramentos que vão sendo revelados ao longo do filme. Refere-se a uma garrafa de vinho que possui o efeito de apagar as lembranças de quem o toma. Um personagem faz isso no começo, outro no fim. Um deles perde a memória, o outro perde o afeto. Os dois movimentos conjugam-se numa interrogação que é feita por um dos personagens. É mais uma observação. Ele diz - não seria maravilhoso se a gente pudesse voltar no tempo? Mais do que uma frase de efeito, mais do que uma nostalgia que ela expressa, é como se o próprio Kar-wai estivesse verbalizando a síntese de seu cinema.O original Cinzas do Passado é de 1995. Autor de obras contemporâneas - e até futuristas: 2046 -, o diretor chinês assina aqui seu único filme de artes marciais. O protagonista é esse espadachim que sofreu uma desilusão amorosa e reflete sobre a origem de sua solidão. O título correto seria Cinzas do Tempo, pois o filme se chama Ashes of Time. E Redux porque é a versão do diretor, como o Apocalypse Now Redux de Francis Ford Coppola, que também (re)estreou no Festival de Cannes, como o filme de Kar-wai. No caso de Coppola, o ?redux? ampliava o filme com o acréscimo de cenas. O autor chinês não soma muito em termos de novas imagens a Cinzas do Passado. O seu ?redux? consiste mais numa restauração da simetria audiovisual de seu filme, que se perdera por meio de cópias pirateadas que eram remontadas e circulavam, projetando um outro filme que não o sonhado pelo diretor. O próprio negativo se perdera, mas, na realidade, esse retorno de Kar-wai sobre si mesmo obedece a uma obsessão que o vem marcando, como autor.Para ele, o cinema é, ou deveria ser, ?work in progress?. Cannes virou o território por excelência da consagração internacional do cineasta, que exibiu Felizes Juntos, Amor à Flor da Pele, 2046 e Um Beijo Roubado na seleção oficial. Kar-wai também foi presidente do júri - no ano em que Ken Loach, que faz um cinema tão diferente do dele, ganhou a Palma de Ouro, por Ventos de Liberdade - e uma imagem emblemática de Maggie Cheung em In the Mood for Love virou o cartaz do maior festival de cinema do mundo. Nesses anos todos, Kar-wai mostrou que seu ideal é sempre trabalhar exaustivamente nos mesmos filmes, nos mesmos temas. Ele filmou um roteiro detalhado em Amor à Flor da Pele e depois ?desconstruiu? o filme até deixá-lo na ossatura; 2046 foi exibido sem estar realmente concluído. Foi um assombro quando Kar-wai anunciou num ano a realização de Um Beijo Roubado e o filme pronto, a versão definitiva, abriu o festival no ano seguinte. Não é assim que Kar-wai gosta de trabalhar.Cinzas do tempo, amor à flor da pele. É disso que Kar-wai gosta de falar, sempre. É disso que trata Cinzas do Passado. O filme teve uma longa e conturbada produção. Foi durante um intervalo que o diretor fez seu primeiro grande sucesso, Amores Expressos. As referências em Cinzas do Passado Redux são as do cinema de espadachim, mas o filme também investiga as origens literárias que esculpiram o gênero, cavoucando nele para fazer obra pessoal, inserindo os temas e personagens - solitários - que lhe são caros.Por mais belos que sejam Felizes Juntos e Amor à Flor da Pele, dois filmes seminais, uma love story gay e outra hetero, o cinema de Wong Kar-wai está longe de ser uma unanimidade. Ele tanto pode ser considerado gênio na abordagem dos sentimentos - uma espécie de releitura do italiano Valerio Zurlini -, como mestre do vazio em embalagem de luxo. É verdade que, para inscrevê-lo na segunda categoria, é preciso uma certa falta de sensibilidade em relação ao universo de carência e dor que Kar-wai gosta de criar. Cinzas do Passado Redux ganhou cores deslumbrantes, a coreografia das cenas de lutas - e da câmera operada por Christopher Doyle - transforma as imagens ora em pinturas ora em abstrações. Puro Wong Kar-wai. Os adeptos do autor vão amar o tempo perdido (e reencontrado).

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