O teatro na vitrine

Em Curitiba, mostra teatral de maior repercussão do País abre quarta sua 18.ª edição

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

16 de março de 2009 | 00h00

Merece destaque a presença de quatro rainhas interpretadas por atrizes de grande talento na mostra de artes cênicas de maior repercussão no País, o Festival de Teatro de Curitiba, cuja 18ª edição terá início na quarta-feira. Num evento que exibe números vistosos e tem como proposta ser a vitrine da cena contemporânea nacional, a possibilidade de ter na programação duas diferentes leituras de um grande clássico da literatura dramática - Mary Stuart, do alemão Schiller - por si só seria sinal de potência do panorama teatral brasileiro. Porém, melhor ainda, o espectador terá a oportunidade de conferir a saga das soberanas Elizabeth I e Mary Stuart - personagens históricas cujo entrelaçamento trágico de trajetórias inspirou Schiller nessa peça sobre poder e liberdade - em recriações de linhas estéticas bem diferentes. Em cartaz no Rio, Maria Stuart tem 15 atores, traz Julia Lemmertz e Clarice Niskier nos papéis de Mary e Elizabeth, sob direção de Antonio Gilberto, e o texto de Schiller quase na íntegra. Já o elenco de Rainha(s) se restringe a Isabel Teixeira e Georgette Fadel, como Mary e Elizabeth, e a montagem dirigida por Cibele Forjaz é recriação radicalmente autoral da mesma peça e chega ao festival depois de cumprir temporada de êxito em São Paulo.Ainda que sempre ocorram cancelamentos de última hora, estão previstos 315 espetáculos (programação completa: www.festivaldecuritiba.com.br), cada um com pelo menos duas sessões, nos 11 dias de programação. Num evento de tal amplitude numérica há a tentação de buscar rumos ou tendências, o que é sempre temeridade numa cena diversa como a brasileira. Mas se algo pode ser detectado é a potência dos textos como fator de atração. Evidentemente não se trata de uma regressão à ultrapassada disputa corpo versus palavra ou encenador versus autor ou um possível retorno à submissão dos demais elementos teatrais à palavra. Mas, sem dúvida, a possibilidade de ouvir um belo texto, devidamente potencializado pela escrita cênica, mesmo que pela desconstrução, amplia a expectativa positiva em torno de muitas montagens.Por exemplo, o texto de Camus propicia prazer extra ao espectador de Calígula, dirigido por Gabriel Villela e protagonizado por Thiago Lacerda. Salta aos olhos a forte presença de autores de clássicos como Schiller (Mary Stuart), Shakespeare (Medida por Medida e Muito Barulho por Nada), Camus (ainda O Estrangeiro) e Tennessee Williams (O Zoológico de Vidro, com Cássia Kiss em elogiada atuação). E há grandes textos de dramaturgos contemporâneos como Edward Albee (A Cabra) e Tom Stoppard (Rock? N? Roll). Esta última montagem tem Otávio Augusto e Gisele Fróes integrando um elenco de dez atores, faz sua estreia na mostra, e tem tudo para fazer jus à boa expectativa que a cerca.Tal potência pode ser estendida às produções brasileiras. A dramaturgia de A Inveja dos Anjos, do grupo Armazém, acaba de ser premiada com o Shell no Rio, além de ter valido um prêmio de atriz a Patricia Selonk. Igualmente positiva é a expectativa em torno de Por Um Fio, que tem como matéria-prima contos de Drauzio Varella, trabalhados com delicadeza pela direção de Moacir Chaves e pela interpretação de Regina Braga e Rodolfo Vaz. Moacyr Scliar é outro autor cuja obra ganha forte teatralidade na interpretação de Inez Viana em A Mulher Que Escreveu a Bíblia. Ainda em cartaz em São Paulo, A Mulher Que Ri, confirma o talento do jovem dramaturgo Paulo Santoro, cujo texto recebeu concepção cênica de Yara de Novaes sofisticada na construção, mas fluente e simples no resultado, e muito bem executada pelo trio de atores. Ainda que tenha qualidade, impossível não detectar certa previsibilidade na mostra principal desta 18ª edição. Quanto ao Fringe, com suas 290 peças, não selecionadas por uma curadoria, mas aceitas por ordem de inscrição, oferecerá surpresas? É conferir. A falta de políticas culturais voltadas para a circulação se faz notar na redução, a cada ano mais evidente, da amplitude geográfica do festival. Segundo dados da organização do evento, há apenas 16 peças da região Nordeste, 6 da Centro-Oeste e nenhuma da Norte. "O festival, vitrine que é, reflete o problema brasileiro de falta de apoio local às produções", argumenta Leandro Knopfholz, diretor do evento. NÚMEROS180 mil pessoasé o público estimado desta 18.ª edição do festival que conta com 25 espetáculosconvidados na mostra principal e outros290 no Fringe, vindos de 17 Estados brasileiros, de 4 regiões do País,que serão apresentados em 56 espaços fechados e 7 a céu aberto,entre praças e ruas, num total de 230 mil ingressos à vendaPeças da mostra principalA CABRA OU QUEM É SYLVIA?São Paulo - SPCom José Wilker e Denise Del Vecchio. Direção de Jô SoaresA MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA - RJ. Com Inez Viana. Direção de Guilherme PivaA MULHER QUE RI - SP Direção de Yara de NovaesAQUELA MULHER - SPCom Marília Gabriela. Direção de Antonio FagundesAUTOPEÇAS - RJCompanhia dos AtoresBORBULHO - Curitiba - New York. Direção de Rosane Chamecki e Andrea Lerner CALÍGULA - SPCom Thiago Lacerda. Direção de Gabriel Villela DOIDO - SP. Dramaturgia, direção e atuação de Elias AndreatoHISTÓRIAS DE CHOCAR (Ensaios de Amor) Belo Horizonte - MGRita Clemente e Paulo AzevedoINVEJA DOS ANJOS - RJArmazém Cia. de TeatroLESADOS - Fortaleza - CEGrupo Bagaceira MARIA STUART - RJJulia Lemmertz e Clarice Niskier. Direção de Antonio GilbertoMEDIDA POR MEDIDARio de Janeiro - RJDireção de Gilberto GawronskiMEMÓRIA AFETIVA DE UM AMOR ESQUECIDO - RJDireção de Ivan SugaharaMÉNAGE - SPDireção de Marina Person. Com Domingas Person e Ivo Müller MUITO BARULHO POR QUASE NADA - Natal - RNGrupo Clowns de ShakespeareO AMANTE DE LADY CHATTERLEY -SP. Direção: Rubens Ewald FilhoO ESTRANGEIRO - RJCom Guilherme Leme. Direção de Vera Holtz e Guilherme LemeO ZOOLÓGICO DE VIDRO - RJCom Cássia Kiss. Direção de Ulisses Cruz.OCEANO - SPCirco Roda Brasil ,com os grupos Parlapatões e Pia FrausPOR UM FIO - SPCom Regina Braga e Rodofo Vaz. Direção de Moacir ChavesRAINHAS - SPGeorgette Fadel e Isabel Teixeira. Direção de Cibele ForjazROCK''N''ROLL - RJCom Otávio Augusto. Direção: Felipe Vidal e Tato Consorti SIN SANGRE - ChileCompañía Teatro CinemaTÁ NAMORANDO! TÁ NAMORANDO! - Fortaleza - CEInfantil - Grupo BagaceiraM

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