O som sem limites de Cyro Baptista

Radicado nos EUA há 30 anos, um dos mais requisitados percussionistas brasileiros reaparece com Infinito, seu segundo CD

Nilza H. Barros, O Estadao de S.Paulo

12 de agosto de 2009 | 00h00

O carisma e criatividade tornaram o trabalho do percussionista brasileiro Cyro Baptista reconhecido mundialmente. Ao longo de sua carreira, já são mais de 300 discos gravados, cerca de sete álbuns premiados com o Grammy. Cinema, televisão, shows de rua, arte. Diante do trabalho, a conclusão é de que talento é inato.Durante este mês de agosto, o percussionista lança o segundo CD, Infinito, pela gravadora Tzadik, com a formação de Banquet of Spirits, que já tem três anos. Infinito é uma antropofagia da carreira de Cyro Baptista, uma releitura de tudo que já se passou em sua vida. Em Infinito, Cyro reúne amigos, como Romero Lubambo, Brian Marsella e Hermeto Pascoal, entre outros. "Nós viemos do Infinito e vamos para o infinito, esse é nosso grito de paz."Crescendo com o gosto popular pela world music, Cyro tornou-se um dos mais premiados percussionistas do País, tendo se apresentado ao lado de artistas como Herbie Hancock, Yo-Yo Ma, Sting, Brian Eno, John Zorn, Bobby McFerrin, Paul Simon, Laurie Anderson e David Byrne, Ivan Lins, Caetano Veloso e Marisa Monte.Natural de São Paulo, capital, Cyro viveu em Amsterdã nos anos 1970, quando criou um night clube chamado Oxum Maré. "Éramos todos malucos (risos). Fazíamos um sucesso lascado, porque àquela altura não existia essa aldeia global. O Brasil era uma coisa muito remota."Aos 28 anos, desembarcou nos Estados Unidos com uma bolsa de estudos para passar um ano em Woodstock, Estado de Nova York. "Já no aeroporto Kennedy, senti uma magia. Nessa comunidade encontrei músicos fantásticos, que quando não estavam em turnês se hospedavam ali. Foi nessa altura que conheci o Naná (Vasconcelos), meu amigo e mentor. Aprendi muito nesse lugar", relembra. Quando a bolsa estava terminando, Cyro conta que resolveu dar uma volta em Nova York para gastar os US$ 60 que tinha no bolso. "Isso já foi há 30 anos e eu nunca mais consegui sair daqui."O começo foi difícil. O músico tocava nas ruas e não conhecia ninguém. Até encontrar outros brasileiros e formar a primeira banda, Pé de Boi. "Fizemos shows, gravamos um CD e fundamos uma escola de samba em Manhattan, que parava a cidade em dias de desfile. Depois, fui tocar com a Astrud Gilberto, a nossa garota de Ipanema. Daí, não parei mais."Apesar de excursionar o mundo todo com vários projetos e artistas que acompanha, Cyro Baptista quase não se apresenta no Brasil. "Acho que santo de casa não faz milagre! Se estou tocando com o Yo-Yo Ma, por exemplo, ou com um americano, as pessoas me dizem ?vem pra cá?." O sotaque de sua música tem raízes brasileiras. "Eu sempre brinco que ela é o alicerce da minha casa. Mas o telhado e os outros componentes são resultado de várias culturas e dos lugares pelos quais passei. A música faz parte do meu código genético."Sua banda Beat the Donkey (Pau na Mula) pode ser conferida no filme O Casamento de Rachel (Rachel get Married), de Jonathan Demme, indicado para o Oscar em 2008, e já tem 12 anos de formação. É uma mistura de música, teatro, dança, humor e imaginação com os mais variados instrumentos, muitos criados por ele. "Essa coisa de produzir instrumentos já existia no Brasil. Eu misturava os sons da natureza, utilizando pedaços de coco, sementes, galhos e o barulho da chuva. Já em Nova York, conheci o som urbano, o ritmo das luzes, dos carros, do metrô. Trabalho com canos, placas de metal e vidro." Cyro já criou uma bateria feita de pedaços de geladeira e agora trabalha num projeto de uma bateria feita somente com rodas de bicicletas. "Lembro das brincadeiras de criança, em que eu pegava uma carta e colocava na roda, girava e saía um som bacana. Vou reproduzir esses sons."

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