O som das arcas perdidas

Blogs que disponibilizam CDs e discos raros são ameaçados de fechar e seus criadores defendem a democratização da música que as gravadoras desprezam

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

14 de novembro de 2008 | 00h00

Desde os primórdios do MP3, com o Napster e o Audiogalaxy, as grandes gravadoras e os internautas que compartilham música de graça travam uma guerra de gato e mouse. A proliferação dos blogs de colecionadores tornou-se uma festa orgiástica para os caçadores de raridades - como os discos de Pernambuco do Pandeiro, João Gilberto e Luiz Eça que ilustram esta página -, mas também para o consumidor ávido por novidades, que não quer pagar para tê-las. São tantos no Brasil e no mundo que disponibilizam música de graça em dimensões gigantescas que a coisa há muito fugiu do controle da indústria fonográfica.Até que a DMCA (sigla americana para a Lei de Direitos Autorais do Milênio Digital) entrou em ação e passou a notificar sites que supostamente vêm cometendo infrações a esses direitos. Um dos melhores e mais populares blogs de música brasileira, o Som Barato, foi fechado em outubro com base nessa lei. Outros, como o Um Que Tenha e o Só Pedrada, receberam notificações da DMCA e avisaram os usuários que a qualquer momento podem sair do ar."Já recebi duas notificações da DMCA. A alegação é que o conteúdo da postagem viola direitos autorais (foram um álbum de Francis Hime e outro de Milton Nascimento com Jobim Trio)", diz Fulano Sicrano, do Um Que Tenha, que prefere não revelar sua identidade. "Acho que os blogs de música, em sua maioria, são simples propagadores de emoção", defende.Pesquisadores como Charles Gavin e Rodrigo Faour reconhecem a relevância do papel dos blogs. "Quando algum setor, principalmente do entretenimento, falha no seu papel de oferecer o que as pessoas querem, a informalidade toma o lugar", diz Gavin, que tem vários projetos engavetados nas gravadoras. Estas, diante da crise no mercado, se voltam para as novidades vendáveis. "Por mais que seja louvável valorizar o catálogo, não podemos ficar só olhando para trás para satisfazer três ou quatro exploradores de arcas perdidas", diz Marcelo Castelo Branco, presidente da EMI no Brasil.

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