O ser humano em curto-circuito

125 Contos de Guy de Maupassant mostra homens de alma dividida submetidos a forças insondáveis

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

06 de junho de 2009 | 00h00

Com Guy de Maupassant (1850-1888) aprende-se que a maior força do ser humano tem a mesma origem da sua maior fraqueza: o inconsciente. Existe algo fora do alcance da consciência. As paixões movem os sujeitos - para o bem e para o mal. Mas o que move as paixões? A literatura desse francês, ao falar de paixões, logo recorda que são irmãs gêmeas do sofrimento. Por isso, as histórias de 125 Contos de Guy de Maupassant apresentam o mesmo e inevitável final, a desilusão. Organizados por Noemi Moritz Kon na ordem cronológica em que apareceram na imprensa, os textos breves do contista francês mostram temas e estruturas diversas: a água como inspiração para metáforas, o gosto pelo fantástico, as atrocidades da guerra franco-prussiana, a crítica ao comportamento da nobreza e dos pequenos burgueses. Discípulo de Gustave Flaubert, de quem herdou o estilo preciso (a nova tradução de Amilcar Bettega preserva o ritmo de uma prosa que lembra ataques de um objeto cortante), Maupassant parecia provar a tese segundo a qual quem é bom já nasce feito. Ledo engano. Considerados obras-primas, seus primeiros contos são resultado de trabalho ininterrupto - Flaubert proibira o pupilo de publicar antes de uma preparação intensa, que incluía noites entediantes de escrita em escritório iluminado por lamparinas. Maupassant publicou seis romances, mais de 300 contos, peças de teatro, poemas, crônicas e ensaios. Além de enriquecer, com a literatura ele adentrou os salões da alta sociedade. As portas se abriram com o sucesso repentino do conto Bola de Sebo. Maupassant também entrou para história como assíduo "frequentador" de damas - nobres e plebeias. O intenso desejo pelo sexo oposto era acompanhado, porém, pela misoginia. Assim como o homem era inepto para cuidar de crianças, a mulher era incapaz de trabalhar com o intelecto, segundo o ficcionista. Durante certo tempo, a sífilis, doença venérea que ataca o sistema nervoso, foi associada à excentricidade literária de Maupassant - a loucura que atormenta os personagens só podia sair da cabeça tresloucada do autor. Além de loucos, sua fauna é feita de mesquinhos, cruéis, preconceituosos, bastardos, arrogantes, solitários, medrosos, indecisos.Em Sobre a Água, conto de abertura, se vê a antecipação do homem psicanalítico - um indivíduo de alma dividida, cujos conhecimentos são relativos por serem limitados. É bom lembrar que, de 1884 a 1886, o ficcionista assistiu às aulas do psiquiatra francês Jean-Marie Charcot sobre histeria, e um de seus colegas era Sigmund Freud, o pai da psicanálise. Esse conto, que narra a história de um homem que desliza com uma embarcação por um rio, mostra a importância metafórica da água: ela pode sugerir tanto uma ideia de beleza e tranquilidade como o mistério, o invisível, o mergulho nas profundezas do pesadelo. Depois de uma noite navegando, e abalado por sonhos ruins, o protagonista acorda com a âncora do barco enroscada a alguma coisa no fundo do leito. A massa escura que impede a navegação anuncia a monstruosidade do personagem, destruindo qualquer visão otimista sobre si mesmo. Ao lado de contos como As Sepulcrais, O Medo, Sonhos, Quem Sabe?, Raiva? e Aparição, Sobre a Água revela a estrutura fantástica da ficção de Maupassant. O contista tinha compreensão do fantástico semelhante à de Julio Cortázar (1914-1984), expoente da literatura hispano-americana. Eles o definem como um momento em que algo inexplicável dilacera a matéria contínua e previsível que formaria a realidade. É quando o ser humano entra em curto-circuito.Na crônica Adieu Mystères (Adeus, Mistérios), reproduzida na apresentação da coletânea, Maupassant fala que "a ciência, a todo momento, diminui os limites do maravilhoso". Em seguida, escreve que "os homens vieram, os filósofos à frente, depois os sábios, e adentraram com ousadia essa espessa e temida floresta de superstições; (...) e depois se puseram a desbravá-la com fúria, produzindo o vazio, a planície, a luz ao redor deste bosque terrível. (...) Esse resto de floresta é o único espaço deixado ainda para os poetas, para os sonhadores. Pois nós temos sempre uma invencível necessidade de sonhar." Em 125 Contos..., Maupassant mostra que as sombras estão à procura do homem - tanto durante o sono, quando ele enfrenta segredos terríveis, como ao levantar da cama para iniciar um dia, que pode virar noite antes mesmo de o sol se pôr.

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