O segredo de um casamento feliz

Se você tivesse perguntado, antes desta viagem aos Estados Unidos, quem é, na minha modesta opinião, o autor mais inteligente do momento, talvez eu respondesse Jared Diamond. Seu livro, Armas, Germes e Aço mudou a maneira de se pensar a história e lhe valeu os prêmios Pulitzer e Macarther, entre outros. Ele faz aquilo que os franceses sonhavam, a chamada ''história total'', misturando com aparente facilidade antropologia, geografia e ecologia ao longo de uma discussão de milênios de existência humana.É fascinante. De modo que fiquei deveras entusiasmado com a oportunidade de assistir a uma palestra sua, ao vivo, na sede da National Geographic Society aqui, em Washington D.C., na semana passada. Trabalho na edição brasileira da revista National Geographic desde o seu lançamento, em maio de 2000. Venho para cá quase todos os anos, para o que chamamos na redação em São Paulo de ''a nave mãe''. É sempre bom visitar os amigos na Sociedade, sair com os fotógrafos mais festeiros, discutir os rumos do jornalismo no mundo, mas Jared Diamond ao vivo era a cereja do bolo. Ele tem patrocínio da National para escrever sobre o que lhe parece mais pertinente. Nas horas vagas, leciona na Universidade da Califórnia, em Los Angeles.Para minha surpresa, o ecologista e historiador iniciou sua fala com a promessa de revelar o segredo de um casamento feliz. Era um truque narrativo para se conseguir a atenção da platéia e caí como um pato.Fisicamente e no jeito de se movimentar, o professor Diamond lembra um pouco um pássaro. Nessa apresentação, trajava um paletó e uma gravata em tons avermelhados e trazia, amarrada na cintura, uma exótica caixa de equipamentos. Os cabelos penteados de um lado para o outro escondiam a calvície. Usava barba, mas sem bigode. Deslocava-se pelo palco em movimentos bruscos.Não me parecia improvável que conhecesse o segredo de um casamento feliz. Nada sei da sua vida pessoal. Mas trata-se, afinal, de um sábio. A erudição utilizada em seus escritos é de tirar o fôlego.Diamaond viera à sede da National para discutir o futuro do homem no planeta. A chave das grandes civilizações, dizia no palco, era como o segredo de um casamento feliz. Era saber que não existia apenas 1 segredo para a satisfação no matrimônio, mas 38. Não listou todos, mas disse que no casamento era preciso chegar a um entendimento a respeito de questões que vão de sexo a dinheiro, passando por sogros e sogras, filhos, trabalho e moradia. Seriam 38 quesitos no total.Seu objetivo, ao fazer a comparação, era explicar que o futuro da humanidade não depende apenas da resolução do aquecimento global, mas, sim, da solução desse e mais 11 problemas de grande porte, se a memória não me falha. Entre eles estão o aquecimento global, o suprimento de água, o teto fotovoltéico (é complicado, não sei se entendi esse), níveis de consumo e dos mares. A situação do homem é preocupante, enfim. Desde a 2ª Guerra não se enfrenta nada semelhante mesmo, pensei, ao sair do auditório.Mas Diamond não me pareceu alarmado. Antes, diria que o desafio intelectual do empreendimento parece estimulá-lo. Consola também a idéia de que para seguir em frente a humanidade precisa resolver apenas 12 questões. No casamento são 38. E há, afinal, casamentos que dão certo.

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