O samba da Portela e a beleza das coisas simples

No encontro com Marisa Monte, Teresa Cristina e Diogo Nogueira, a Velha Guarda da escola conta sua história musical com cenas do filme de Lula Buarque

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

28 de agosto de 2008 | 00h00

No camarim, depois de uma festiva apresentação de O Mistério do Samba no palco do Sesc Pinheiros anteontem, a cantora Teresa Cristina comparou o espírito de preservação da Velha Guarda da Portela com o legado de Dorival Caymmi (1914-2008), no que tange a ressaltar "a beleza das coisas simples". No ofício de ourives poético e musical, o perfeccionista Caymmi sempre abrigou as tradições populares.O universo ao redor dos sambistas tradicionais cariocas, como estes da Portela, que Marisa Monte foi investigar, revela uma espontaneidade mais naïve - o que é igualmente encantador, pelo quanto tem de sabedoria popular. Cruzar as referências de sua geração com as da tradição oral dos antigos resulta em polimento da memória para uns e prazer de descoberta para outros.Parte dos fãs da cantora - que foram ao show em função dela, como se pôde perceber pela reação eufórica quando de sua participação -, embarcaram na viagem de exploração dos meandros da história da Velha Guarda com entusiasmo. O show começou com cenas do filme O Mistério do Samba, de Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda, em que aparecem detalhes de objetos, casas e pessoas da Portela.Foi uma idéia boa inserir outras cenas durante o show, contemplando os sambistas que não puderam estar no palco: Monarco, Zeca Pagodinho, Paulinho da Viola e os que já morreram - Argemiro Patrocínio, Jair do Cavaquinho e Manacéa. Projetos interligados, o trailer durante o show despertou a vontade de muita gente ver o documentário.O cavaquinista Mauro Diniz abriu a roda de samba, comandando os vocais que seriam de Monarco, com voz potente e de belo timbre, como do pai. Começou logo com um clássico, Vivo Isolado do Mundo (Alcides Dias Lopes), que Candeia gravou em 1978 e Zeca Pagodinho popularizou para as gerações seguintes, dessas que têm Diogo Nogueira como ídolo. Casquinha levantou a poeira com A Chuva Cai (dele e Argemiro), grande sucesso de carnaval com Beth Carvalho.Diogo mandou bem com seu vozeirão herdado de João Nogueira, em Lenço e Vai Vadiar (ambos de Monarco com parceiros), mas parece um tanto duro para um sambista. Ginga foi o que não faltou às pastoras Surica, Áurea Maria e Neide (vestidas de azul como Tia Doca) e Davi do Pandeiro (trajando branco como os outros homens), que deram aula de samba no pé e potência vocal. A cozinha rítmica deu seu show à parte sob a direção musical do excelente Paulão 7 Cordas, responsável por belas harmonias nas cordas.Teresa Cristina - num elegante vestido longo branco, com faixa azul na cintura, presenteado pela estilista curitibana Rosana Deffe - esquentou a roda com Quantas Lágrimas (Manacéa), seguido de outros quatro belíssimos sambas. Por fim - com Volta Meu Amor (Manacéa/Áurea Maria) e Dança da Solidão (Paulinho da Viola) -, Marisa, com o barrigão de grávida de sete meses, iniciou a avalanche que culminaria com a emocionante Esta Melodia (Bubu da Portela/Jamelão) e o hino Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida (Paulinho da Viola), com todos juntos no palco. A grande apoteose do samba.

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