O roteirista no set

Luiz Mário, paulistano, era um dos maiores galinhas da cidade. Dono de uma casa noturna, Espaço 1929, desde criança revelou um dom para a sedução. Cultivava o seu estilo de vida: solteirão convicto. Não questionava os dilemas morais da sua necessidade de conquistar o maior número de garotas. Saía, dispensava, saía, dispensava.Até um dia ser quase esfaqueado por uma conquista, que não se conformou quando levou um fora. Assustado, decidiu dar um tempo, passar uns dias no Rio. Conheceu Malu, que ia para a terapia de bicicleta pela orla.Apaixonou-se. Vieram morar em São Paulo. Até ele alimentar um ciúme doentio pelos mistérios da carioca. Fotos dos amigos dela num quadro de cortiça, que ela trouxe na mudança, motivou a discussão:"Quem são?""Amigos", ela respondeu."Todo amigos?""Todos.""Quantos amigos...""Muitos amigos.""Pra que tanto amigo?""Existe um limite de amigos?"O diálogo está no roteiro de Malu de Bicicleta, filme que acabamos de rodar, baseado no meu romance Malu de Bicicleta. Não tem no livro, de 250 páginas, publicado em 2003.Apesar de eu mesmo ter escrito o roteiro, não fui totalmente fiel à obra. A trama está lá. Muitas cenas se foram. Algumas nasceram. Personagens se transformaram. O foco se concentrou no ciúme.Ora, livro é livro, cinema é cinema. Um se alimenta do outro. Um gera o outro. Que, como todo filho, se rebela e ganha rumo próprio. Tanto que o final do filme é diferente do livro. Quem ousou tamanha heresia? Eu mesmo, o roteirista. E, confesso: o do filme é melhor.Está no roteiro. Luiz, com ciúmes das constantes idas da mulher ao Rio, resolve segui-la. Ela, na calçada diante do prédio em que moram em São Paulo, espera um táxi, com uma mala pequena. Faz sinal. Para um carro. Ela entra. Vão. Ele aparece, olha para o caminho que tomaram. Chama outro táxi, que para. Entra, aponta para o carro à frente.Luiz segue o táxi de Malu pelas ruas da cidade. Entram pela avenida Rubem Berta, que vai ao aeroporto. Luiz se perde do táxi. Não sabe se ele seguiu para o aeroporto ou foi reto. São muitos táxis naquela hora, naquela avenida.Filmamos na semana passada numa rua arborizada de Higienópolis - coincidentemente, no prédio em que moram dois dos maiores roteirista brasileiros, o casal Fernanda Young e Alexandre Machado, que passeavam com o filho pequeno.Armamos a câmera na calçada. Dois táxis na esquina esperavam o comando que viria por rádio. A rua não foi interditada. O trânsito de um domingo ensolarado fluía normalmente."Ação", gritou o diretor, Flávio Tambellini. Entrou em quadro Fernanda Freitas (Malu). "Podem vir os carros", comandou a assistente de direção. A atriz fez sinal para o primeiro, que parou. Ela entrou. Saíram do quadro. Apareceu Marcelo Serrado afobado (Luiz Mário). Olhou para o carro da mulher. Fez sinal para o primeiro táxi que apareceu. Ele parou. O ator entrou, apontou e disse: "Segue aquele carro." O táxi arrancou.A assistente interrompeu: "Não é o nosso táxi." Gargalhadas. Em seguida, estacionou o carro combinado e contratado. Marcelo entrara no táxi errado. Teve que se explicar para o motorista que tudo não passava de uma mentirinha (ficção).Já frequentei o set das filmagens de Feliz Ano Velho, de que não participei do roteiro. Já escrevi roteiros que não vingaram, como um de ficção, com Sérgio Rezende. Saí de projetos que vingaram, como Bicho de 7 Cabeças - fiz apenas os dois primeiros tratamentos, quando ainda se chamava Canto dos Malditos, nome do livro que serviu de base. Já vendi os direitos de livros e peças para filmes que não rolaram.Mas nunca tinha acompanhado intensamente o dia a dia de uma filmagem. Muito menos como "o roteirista".Em quatro semanas, se levantou o filme. Em torno de 50 pessoas envolvidas, num ritmo frenético, que começava às 6 h. Cada um tem um papel fundamental, da mocinha da claquete ao figurinista, fotógrafo, maquiador, equipe do som e luz.É um time que se une, para se contar uma história, que todos conhecem. E aprendi algo: é fundamental a presença do roteirista num set.Sugeri cortes, mudei cenas, conversei com os atores sobre a intenção do personagem, indiquei locações, até planos. Metido demais.Não era a minha intenção. Comecei a ir ao set no Rio de Janeiro, curioso e feliz por ter, enfim, uma obra filmada, para ganhar almoço grátis. O diretor me convidou para se sentar ao seu lado. Senti que havia muitas formas da atriz fazer uma cena de impacto. Ela falou muito da personagem comigo e me deu novos elementos. Ajudei-a a compor a tal cena, seguindo os seus palpites. E o diretor, generoso, nos deu ouvido.Tambellini conta que Spike Lee, certa vez, pediu para uma assistente anotar quantas perguntas ele respondia num dia de filmagens. A média deu 600. Por outro lado, um filme nunca é feito na ordem cronológica. É a locação que rege o que deve ser filmado. O roteirista é aquele que tem o todo na cabeça, enquanto, na maioria das vezes, os profissionais do set estão concentrados com as cenas que devem levantar.Quando Malu percebe a frieza do marido, que sofre silenciosamente de ciúmes, diz: "O que está acontecendo? Larguei tudo pra vir morar com você. Não estou te cobrando. Quer dizer... estou sim. Qual é, Luiz? Você mudou.""Nunca fui casado. Estou tentando me acostumar.""Tentando? Se arrependeu? Você está distante.""Estou com medo de te perder."Segundo o roteiro, ela se deitaria com ele e o abraçaria carinhosamente. Para a atriz, a personagem ficaria furiosa com a desculpa "estou com medo de te perder". Se levantaria decepcionada e deixaria o cara falando sozinho.Ganhou a versão da atriz. Mudamos a cena. Ela se levantou e saiu. Bem melhor. O roteirista, eu, humildemente reconheceu o erro. O diretor permitiu. Sim, é preciso ouvir os atores. Nem sempre - aprendi isso no teatro, já que muitas vezes os preocupam o personagem, não a cena ou o conflito. Mas, eventualmente, eles acertam.Pois é, a partir de então, estarei presente em todas as produções em que estou envolvido. Não só para filar o rango. Leia também o blog de Marcelo Rubens Paiva em http://blog.estadao.com.br/blog/marcelorubenspaiva

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